Cezar Santos
Cezar Santos

Fator de viabilidade para Temer

Rodrigo Maia será um aliado para aprovar agenda do ajuste, sem que o Palácio do Planalto tenha de ceder anéis, dedos, mãos e braços aos “xepeiros” do centrão

Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Qual o significado maior da vitória de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados? Na verdade, são vários significados.

De início era o novato Rogério Rosso (PSD-DF) o candidato favorito para ganhar o comando da Câmara. A crítica da maior parte da imprensa e dos adeptos do petismo se dava no sentido de que Rosso era um teleguiado de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para que este continuasse a influenciar na Casa.

Vencesse Rosso, não seria tão ruim para o governo interino de Michel Temer, uma vez que o candango (carioca de nascimento) sempre soube se portar de forma equilibrada — ele foi perfeito como presidente da comissão especial do impeachment na Câmara. O problema é que com Rosso, o chamado centrão se fortaleceria.

Mas, não por acaso, venceu Rodrigo Maia. E não poderia ter sido melhor para um governo que tem a dura missão de reorganizar a economia arruinada pela afastada Dilma Rousseff. Para tanto, terá de colocar em votação na Câmara uma pauta que se apresentará indigesta em muitos momentos. Maia chega como um parlamentar experiente com vários mandatos e sem nenhum risco de “cunhismo” em sua atuação.

A vitória do demista é tanto mais significativa por marcar o enfraquecimento do centrão e a derrocada definitiva do poder de influência de Eduardo Cunha na Casa, ele que está afastado do mandato desde maio por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Por sinal, Cunha acabou, é apenas o futuro ocupante de alguma cadeia.

Rodrigo Maia é experiente tanto na lide legislativa quanto na articulação política. Mas não se pense que sua missão será fácil. No curto mandato de seis meses, ele deverá ser um presidente da Câmara alinhado com o Planalto. Nessa perspectiva, as negociações serão partidárias, e não de varejo, como foi a regra no mandarinato de Cunha.

Não se está dizendo aqui que a barganhas por cargos deixará de ocorrer. Mesmo porque no presidencialismo de coalizão, a barganha é intrínseca. Mas com Rodrigo Maia no comando da casa isso deverá baixar a níveis suportáveis, digamos. O baixo clero, que sustentava e, portanto, mandava com Cunha, perde força.

Como bem definiu o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson — aquele mesmo que implodiu o mensalão petista —, um frasista de primeira: “Rodrigo Maia na presidência da Câmara dos Deputados deve representar o fim da feira paraguaia na Câmara e desse grupo de xepeiros chamado ‘centrão’”.

Outra vantagem para o governo interino é que Maia foi presidente de seu partido, o DEM, um aliado histórico do PSDB, e comunga das ideias de menos estatismo e mais privatismo, o que está na plataforma de Michel Temer. A governabilidade da gestão ainda interina de Temer ganha estabilidade, o que não acontecia com Waldir Maranhão nem com Eduardo Cunha, figuras que deixavam a imagem da Câmara em petição de miséria.

Mesmo sendo portador da esperança de milhões de brasileiros que querem o país de volta à normalidade, Temer vem enfrentando dificuldades, impostas pela expectativa exagerada, pelo petismo que ainda tem força como oposição e, principalmente, pelo “fantasma que anda”, ela mesma, Dilma Rousseff. Enquanto a petista não for afastada em definitivo, o governo interino não escapa do caráter de provisoriedade. Politicamente, isso é muito ruim.

A chamada “velha oposição”, ou oposição ao governo petista, integrada por DEM, PSDB, PPS e, vá lá, PSB, demandava mais espaço institucional desde a articulação do impeachment. Seria uma forma de contrabalancear a hegemonia peemedebista no Congresso. A vitória de um filiado do DEM na Câmara lacra esse intento.

A tragédia para a “velha oposição” seria a vitória de Marcelo Castro (PMDB-PI), esse sim, um cunhista ferrenho e representante do que de pior há no PMDB, embora, deve se observar, ele mesmo não tenha sobre si nenhum registro de irregularidades cabeluda. Maia foi eleito, veja só, com apoio até do PT — um apoio envergonhado, é verdade —, que tinha interesse em neutralizar o presidente afastado.

A experiência e ponderação de Rodrigo Maia é o que melhor poderia acontecer para Michel Temer. O DEM tem compromisso ideológico com uma política de ajuste fiscal e desmonte do excesso estatista. Temer terá um aliado na presidência da Câmara sem precisar entregar os anéis e os dedos, talvez as mãos e os braços, aos “xepeiros” do centrão.

Há quem diga que os números da vitória de Rodrigo Maia podem configurar um problema na correlação de forças na Câmara. Editor de política do “Valor”, o jornalista César Felício fez as contas em artigo publicado na sexta-feira, 15.

“O problema para o Planalto são as circunstâncias em que se deu a eleição do novo presidente da Câmara. Maia conseguiu 120 votos no primeiro turno, uma marca que o deixaria apenas em terceiro lugar, na eleição para a presidência da Câmara em 2015, vencida por Cunha.

Teve ainda 45 votos a menos que Júlio Delgado (PSB¬MG) em 2013, quando este foi derrotado por Henrique Eduardo Alves, do PMDB. Nunca, na história da Câmara dos Deputados, houve um presidente tão minoritário. Para se encontrar algo semelhante, há que se recuar até 2005, quando Severino Cavalcante teve 124 votos no primeiro turno.”

O jornalista observa que Rodrigo Maia está assim longe do perfil de liderança que teve Eduar­do Cunha, Aécio Neves, Aldo Rebelo, Arlindo Chinaglia, Marco Maia, Michel Temer, João Paulo Cunha, Luiz Eduardo Magalhães, Inocêncio Oliveira, Ibsen Pinheiro, Paes de Andrade e Ulysses Guima­rães, citando 12 antecessores do demista.

Nesse sentido, Maia seria um presidente da Câmara frágil, com a espinhosa missão de cumprir uma difícil agenda emergencial do governo e organizar a sucessão que vale na Câmara, a da Mesa Diretora que será eleita em fevereiro e que dirá quem é o verdadeiro herdeiro do espólio cunhista.

O triunfo do deputado do DEM se deu numa aliança circunstancial com a esquerda, endossada pelo Palácio do Planalto, com o objetivo de “remover um cadáver da sala”. Felício volta mais no tempo ao lembrar que é algo diferente do que aconteceu em 1997.

Naquele ano, o então presidente Fernando Henrique Cardoso entrou de sola na eleição para a presidência da Câmara. FHC sabia que sua agenda de reformas dependia da eleição de Michel Temer para a presidência da Casa. “Os adversários do pemedebista eram a negação desta agenda e tendiam a se unir no segundo turno. Temer levou a presidência na primeira votação por apenas um voto de diferença.”

Agora, Temer também entrou de sola na eleição da Câmara — aliás, mesmo com discursos de não interferir, o governo sempre entra, só não o faz quando não tem força, lembremos Dilma, que tentou impor Arlindo Chinaglia sobre Cunha e perdeu. E Temer jogou bem para evitar a eleição de um adversário, como seria Marcelo de Castro. O interino ganhou, mas agora começa o segundo jogo da articulação política, a hora de acarinhar os derrotados.

Melhorar a imagem

A presidência da Câmara é um cargo cobiçado. Rodrigo Maia terá na mão orçamento de R$ 12,3 bilhões aprovados na Lei Orçamentária de 2016 e com poder de ajudar ou atravancar o governante de plantão, no caso Michel Temer. Mas além de ajudar a governabilidade, o demista tem outra missão nada fácil: limpar a imagem da Casa, que, pela primeira vez, viu um presidente ser afastado, por unanimidade, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

E foi muito sujeira feita por Eduardo Cunha e Waldir Maranhão. A opinião pública tem um péssimo conceito sobre os parlamentares em geral. E esse conceito tende a aumentar. Para cumprir a tarefa, Maia terá de controlar o jogo de interesse entre três grandes grupos que têm projeto de poder distintos, o Centrão (PR, PSD, PP, PTB e outros partidos menores), o Centrinho (PSDB, DEM, PPS e PSB) e a nova oposição (PT, PCdoB, PDT, PSol e a Rede).

Essas serão as forças políticas do país até a próxima eleição, em 2018. Além desses blocos, o PMDB, que afirma ser independente, pretende atuar como o fiel da balança nos principais embates na Casa.

Paralelamente, outra expectativa com o novo comandante da Casa é que ele destrave as votações da Câmara, aprovando as medidas do ajuste fiscal já encaminhadas — e as que ainda virão — pelo Planalto. A avaliação é que a Câmara precisa estar afinada com a pauta de mudanças cobrada pela sociedade. Veremos se Rodrigo Maia estará à altura do embrulho.

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