Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Fake news recicladas para as eleições municipais

Sorte a nossa que falta criatividade para candidatos que fazem uso de desinformação como meio de campanha eleitoral

Já era esperado. Eleitores e os Tribunais já se preparavam para lidar com uma enxurrada de fake news nas eleições deste ano. Esperávamos também que os candidatos que se propõem em fazer o uso deste dolo com intuito de incentivar seus apoiadores e prejudicar adversários tivessem talento para criar notícias falsas atualizadas. Fomos enganados, não pelas fake news, mas pela falta de criatividade. As desinformações foram apenas recicladas.

O modelo de fake news ainda segue um padrão 2018. É uma fórmula que até deu certo naquele ano, mas que, com o passar do tempo, os argumentos não sobreviveram às provações em que foram colocadas e perderam seus efeitos – vamos crer que as notícias falsas foram desbancadas com as checagens feitas pelos portais e veículos de comunicação que colocam à frente sua credibilidade.

A maior vítima das desinformações disseminadas em 2018 foi a urna eletrônica. Neste ano, lá está ela como principal alvo das notícias falsas novamente, mas sem atualizações. Uma das fake news que mais circulam por aplicativos de mensagens diz que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recusou consultoria do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Instituto Militar de Enge­nharia (IME) para desenvolver um modelo de urna com impressão do voto. As informações foram desmentidas inúmeras vezes nos últimos dois anos pelo TSE e pelos institutos envolvidos.

Uma outra que voltou a circular e parece ter um tom de deboche é que o TSE entregou códigos de segurança das urnas eletrônicas para venezuelanos. Também já refutada pelas cortes eleitorais.

Os candidatos apostam naquele imaginário de que os eleitores brasileiros tem memória curta. Mas essa é uma aposta errada. As fake news – também as repetidas – de fato ainda representam um desserviço, mas, por fim, acabam se tornando piada em grupos de WhatsApp e o disseminador corre sério risco de ser zombado pela mentira repetida.

Veja que a desinformação como golpe baixo na disputa eleitoral não está fora do jogo político. Mas foram pensadas e criadas barreiras que fazem das fake news um instrumento não tão efetivo, cujo o impacto foi reduzido se comparado às eleições de 2018. Qualquer internauta, independente de seu nível de intimidade com o ambiente digital, conhece e tem acesso a ferramentas de verificação. As características constantes em uma eleição municipal, como a proximidade entre eleitores e candidatos, também é um obstáculo para a disseminação de notícias falsas.

Precisamos avaliar também que as eleições de 2018 usou e abusou das fake news e deixou eleitores – da direita e da esquerda – “vacinados”. O que se percebe é que as fake news disseminadas nestas eleições têm alcançado muito pouco o seu objetivo torpe. Só evidenciam a falta de confiança de que são dignos os candidatos que lançam mão desse apetrecho. Assim como confiança está em falta, por nossa sorte, também há escassez de criatividade aos adeptos da desinformação.

Disparos em massa

Segundo define a corte, o disparo em massa é “um procedimento por meio do qual uma pessoa, uma empresa, um robô ou um grupo de pessoas envia uma mensagem para um grande número de pessoas ao mesmo tempo”. “O texto dessa mensagem é impessoal, podendo conter links e conteúdos suspeitos, alarmistas ou acusatórios.”

Numa eleição realizada em meio a uma pandemia e que a propaganda tem que ser feita quase em sua totalidade por meios digitais. É claro que a desinformação toma uma proporção ainda mais severa e preocupante.

Essa preocupação faz jus ao trabalho das cortes eleitorais junto às redes sociais e aplicativos de troca de mensagens. Segundo relatado pelo próprio TSE, em um mês de campanha eleitoral foram recebidas 1.037 denúncias públicas de disparos em massa de informações falsas. Um filtro do Tribunal verificou que nem todas tinham conteúdo relativo às eleições. O período analisado é de 27 de setembro a 26 de outubro. Na primeira etapa de revisão, o WhatsApp identificou números duplicados e inválidos (sem conta de WhatsApp atrelada). Restaram 720 contas únicas válidas, das quais 256 (mais de 35%) foram banidas por violar diretrizes. Segundo o WhatsApp, do total de banidas, “mais de 80% foram derrubadas de forma automática, antes mesmo de serem reportadas”.

Essas ações conjuntas do TSE e do WhatsApp são na verdade uma sequência de medidas que vêm ganhando corpo desde 2018. O aplicativo queridinho dos candidatos que optam por fazer disparos em massa de notícias falsas alavancou meios para reduzir a circulação de conteúdos altamente compartilhados.

Essas barreiras impostas alcançaram o objetivo de dificultar o disparo em massa e, consequentemente, desacelerar a propagação das fake news, ainda que não impedem que ocorra, já que candidatos e apoiadores têm usado de mecanismos que conseguem furar esse aparato montado para o combate à disseminação de desinformação.

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