Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Escolas militares deviam servir de benchmark para as demais

Governo federal anuncia programa para criar 54 colégios do modelo no Brasil. Em Goiás, eles estão entre os que têm melhor desempenho nas avaliações oficiais

Foto: Divulgação

O governo Jair Bolso­naro divulgou na última semana que 15 Estados brasileiros aderiram ao programa de expansão de colégios militares no País, Goiás entre eles. No total, o governo federal promete investir R$ 54 milhões em 54 escolas, durante o projeto piloto. Até 2023, o Ministério da Educação (MEC) pretende ter 216 unidades em todo o território federal. A proposta, que já fazia parte do Plano de Governo de Bolsonaro, causou ruído em alguns setores políticos e educacionais.
O modelo é controverso, especialmente entre pedagogos. Muitos alegam que a militarização das escolas é uma forma de tolher a individualidade dos alunos e uma interferência na autonomia das escolas. Há quem acredite que se trata de um modelo doutrinário – curiosamente, argumento semelhante aos dos que enxergam as escolas públicas como centro de treinamento de esquerdistas.
Contudo, o que se vê na prática é que as escolas militares atraem os pais, que, em tese, são os mais interessados no assunto. A concorrência por uma vaga é grande e os motivos são variados, mas basicamente eles enxergam nos colégios militarizados um local onde existe disciplina e qualidade de ensino.
De fato, os números comprovam o que o senso comum intui. Com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino (Saego) e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Instituto Mauro Borges (IMB), ligado à Secretaria Estadual da Economia, constatou que os alunos dessas escolas se saem melhor em matemática e português que os alunos das chamadas escolas padrão – isso em todos os níveis do ensino fundamental e ensino médio.
De acordo com o IMB, no quinto ano, o aluno da escola militar teve nota 3,2% melhor em português e 5,5% em matemática. No nono ano, o desempenho foi superior 7% e 6,3%, respectivamente. Já no Enem, a maior diferença: a nota média dos estudantes dos CPMGs ficou 7,5% acima da média das escolas padrão.
Em Goiás, atualmente existem 61 escolas militarizadas. Conforme ranking da Folha de S. Paulo, das dez melhores escolas da rede estadual no Enem, que tem mais de 1 mil unidades, cinco são vinculadas à Polícia Militar. A única escola goiana entre as 100 melhores do País, inclusive, é o Colégio da Polícia Militar de Goiás Anápolis I Dr. Cesar Toledo – justamente um dos que inspiraram o presidente.
Uma das críticas feitas pelos que são contrários aos colégios militares é que eles custam mais caro. Contudo, o mesmo estudo do IMB desmonta essa tese: enquanto um aluno da escola padrão custa R$ 389,81 por mês, o da escola militar custa R$ 323,55.
Nacionalmente, a qualidade das escolas militares no ensino superior também é comprovada. Basta citar o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que tem um vestibular cuja concorrência é de mais de 100 alunos por vaga – há, inclusive, conversas para que se abra uma unidade em Anápolis, em parceria com a Universidade Estadual de Goiás (UEG).
Por outro lado, a instalação de uma escola militar tem reflexos até mesmo na segurança pública. Em bairros onde há índice de criminalidade significativo, especialmente em ambiente escolar, a vizinhança se beneficia com a transformação.
Portanto, as discussões em torno do modelo não giram em torno da qualidade do ensino. A questão é mais ideológica e de concepção de mundo. Há muitos pais, políticos e educadores que acreditam que a presença de policiais militares não é benéfica para os alunos. E que a suposta disciplina tem raízes no medo – o que não é indesejável.
Porém, em entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sintego), Bia de Lima, admitiu que a disciplina nesses colégios é uma vantagem – e cobrou que as escolas padrão possam adotar as mesmas regras. A sindicalista cita, ainda, a existência de gratificações para os professores, o que faz com que as escolas militares atraiam os melhores do quadro.
Fica claro, então, que o problema não é o modelo militarizado. A questão é que ele é exceção em uma rede que não consegue manter a mesma qualidade, por vários motivos: professores menos motivados, alunos indisciplinados, estrutura física pior.
Todos esses fatores não deveriam ser motivo para pedir o fim das escolas militares. Ao contrário, elas deveriam servir como benchmark para as demais. Copiar o que é bom e adaptar o que não serve.
Além disso, a quantidade de colégios militares na rede é pequena diante do tamanho da rede – ainda que se possa discutir a ampliação talvez desnecessária de unidades em todo o Estado, com mais 31 pedidos na fila. O ideal é que todos os modelos convivam (militar, padrão, tempo integral, confessional, conveniados) e que pais e alunos tenham mais opções para escolher aquele com que mais se identificam.
A pior das soluções seria acabar com uma das poucas oportunidades de ensino de qualidade para os filhos dos mais pobres.

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Rubens Alexandre

Muito bom Japa ..um abraço.