Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Enquanto há confronto de decretos de isolamento, união pela vacina fica em segundo plano

Prefeitos de Goiânia e de Aparecida iniciaram uma ação conjunta positiva, mas agora destoam e perdem o foco que é vencer de vez a Covid

Unificar discursos e conciliar as decisões. A proposta do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta ainda é a mais sensata, sobretudo no momento de maior gravidade e calamidade que a pandemia do novo coronavírus tem provocado no Brasil. Poderia ser um alerta para a necessidade de ações conjuntas pela ampliação da vacinação contra a Covid-19. Mas não é. Gestores de cidades vizinhas, às vezes conurbadas, ainda discordam sobre a necessidade de isolamento social. Ora, a questão tem de comum, dado o tráfego intenso de pessoas de uma cidade para a outra.

A agenda atual da pandemia pede por consórcios entre prefeitos e governadores na busca pela compra de vacinas, pois o Ministério da Saúde tem demonstrado incapacidade em consegui-las. Em outras regiões do país isso já se tornou uma pauta avançada de maneira positiva, inclusive com assinatura de contratos. Mas em Goiás esse assunto foi colocado em segundo plano. Mesmo após completar um ano de pandemia, ainda não foi possível chegar a um consenso sobre as medidas de isolamento que devem ser pregadas e executadas nas cidades goianas.

Passou-se a última semana assistindo-se o descompasso entre as medidas tomadas por Aparecida de Goiânia e os demais municípios — não só da região metropolitana, mas de todo o Estado. Gestores, secretários e auxiliares de prefeitos e do governo, além de pesquisadores-especialistas, voltaram seus olhares e dedicaram seu tempo para debater a divergência entre as medidas de isolamento adotadas nas duas maiores cidades goianas — que, a rigor, de tão coladas, são uma só.

Goiânia e Aparecida de Goiânia tem similaridades não apenas em seus nomes. As cidades já se confundem em delimitações territoriais. Não há como fazer gestão pública de forma isolada em nenhum dos municípios. Quando se trata do enfrentamento da Covid, a necessidade de tomar decisões conjuntas se torna ainda mais premente; afinal, a população se desloca entre as cidades diariamente para trabalhar, consumir, para o lazer e demais atividades de forma habitual.

Quando se busca por modelos de enfrentamento à Covid que deram certo em outros países, sempre se chega a um ponto em comum: a atuação de governos de forma alinhada na aplicação de medidas restritivas. Isso inclui aumento da fiscalização para impedir eventos com aglomeração, estratégia unificada de comunicação para aumentar a conscientização sobre a gravidade do momento entre a população e incentivar o isolamento social.

No final de fevereiro parecia que tudo caminhava bem e de forma conjunta. O prefeito de Goiânia, Rogério Cruz (Republicanos), e o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB), lideravam a criação de um Comitê Metropolitano que visava evitar o colapso na saúde. O momento pedia essa reação dos dois gestores. As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) já estavam operando acima da capacidade e o aumento nos casos de Covid-19 demonstrava aceleração. Houve uma boa perspectiva em ver que os prefeitos se uniram, trabalharam por decretos conjuntos, e ainda conseguiram o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM).

Agir de forma conjunta daria mais força às medidas, levaria um recado assertivo às pessoas a respeito de como o momento exige medidas duras e, consequentemente, se teria maior adesão das população e das entidades representativas.

Mas as decisões compartilhadas não duraram mais do que 15 dias. Ainda não se sabe o que motivou a medida tomada por Gustavo Mendanha, que flexibilizou as atividades não essenciais em Aparecida de Goiânia. A decisão pegou de surpresa o prefeito Rogério Cruz, que naquele momento passou a enfrentar sozinho a pressão de manifestantes que pediam a reabertura das atividades não essenciais. Os mesmos manifestantes que agora apoiam Gustavo Mendanha, por sua medida de flexibilização.

Esse descompasso entre as medidas tomadas por Gustavo Mendanha e o restante dos prefeitos da região metropolitana provocou uma cena inesperada para o momento — filas para entrar em um shopping center que funciona na cidade. Enquanto moradores de Aparecida de Goiânia e de Goiânia se aglomeram para fazer compras no centro comercial, Goiás chega à quarta posição entre os Estados com maior taxa de ocupação de leitos de UTIs, com 97% de toda a rede pública ocupada por pacientes com Covid-19 — ficando atrás apenas do Rio Grande do Sul (100%), Santa Catarina (99%) e Rondônia (98%).

Diante dessa superlotação e da agressividade da doença, é preciso entender que a estratégia de isolamento, para conter a Covid-19 — ao menos em parte —, é a mais adequada. Só a vacina, quando for acessível à maioria das pessoas, vai aliviar o quadro geral. Por isso, o isolamento social, como medida de contenção, é, neste momento, imperativo. É uma guerra para reduzir o número de contaminados e, em consequência, de mortes.

A criação de novos leitos de UTI não é mais garantia de vidas salvas. Isso porque o colapso iminente do sistema de saúde sofre com a falta de mão de obra especializada e do chamado “kit intubação”, conjunto de medicamentos e equipamentos usados para fazer com que um paciente receba oxigenação artificial. 

É preciso torcer para que as ações coordenadas entre Aparecida de Goiânia e demais cidades da região Metropolitana e o Estado sejam retomadas. Este é o rumo para que vidas sejam resguardadas por meio do isolamento social e para que medidas de socorro aos trabalhadores sejam executadas e, assim, gestores possam pensar de forma conjunta na vacinação e na superação definitiva dessa crise sanitária.

Insistamos: quem quer salvar vidas, neste momento, deve esquecer picuinhas político-partidárias e tem de parar de pensar na disputa eleitoral de 2022. Agora, é hora de reduzir a contaminação e mortes. Quem estiver ao lado da vida deve pensar nisto, quer dizer, tem de aceitar o isolamento social como um, digamos, “santo remédio”. Não há outro — enquanto a vacina não chega para se criar o que os cientistas chamam de “imunidade de rebanho”.

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