Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Enquanto Bolsonaro e Moro brigavam, Covid-19 matava 700 brasileiros

Saída do ex-ministro no momento quando a pandemia começa a ficar mais letal no País mostra que não existem heróis nesse imbróglio

Sergio Moro e Bolsonaro: fim de relação letigioso | Fotos: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

O ritmo com que a Covid-19 se espalha no Brasil é cada vez mais rápido. Do primeiro caso à milésima morte registrada, foram transcorridos 59 dias. Sete dias depois, a marca de 2 mil mortes foi rompida. Mais seis dias, o País chegou a 3 mil mortes. Em dois dias, a barreira das 4 mil mortes ficou para trás. Os números são aterradores. Mas, em Brasília, onde deveria funcionar o QG do combate ao coronavírus (oficialmente batizado de Sars-CoV-2), o que se assiste é a uma crise política, dessas que são cíclicas no País, que se desenrola há pelo menos três semanas.

Foi no dia 6 de abril que vazaram as notícias de que o presidente Jair Bolsonaro havia decidido trocar o comando do Ministério da Saúde, então nas mãos de Luiz Henrique Mandetta. Naquele dia, havia 506 mortes. Eram, na mesma data, 12,2 mil casos notificados da doença. Até este sábado, um dia depois da demissão do segundo ministro em oito dias, já havia 58,5 mil – um crescimento superior a 380% no número de doentes e 690% no de mortes.

O ar de Brasília, que já era sufocante, ficou irrespirável na quinta e na sexta-feira (23 e 24/4). Foram horas de tensão entre o vazamento de que mais um ministro, dessa vez Sergio Moro, da Justiça, deixaria o cargo; a oficialização da notícia e seus desdobramentos. Teve um pouco de tudo: um pronunciamento que beirou à delação premiada (do próprio Moro), um pronunciamento que oscilou entre a mágoa infantil e a confissão (do presidente Jair Bolsonaro) e o vazamento de conversas íntimas – ironia das ironias: quem com mensagens de WhatsApp foi ferido, com elas feriu.

No intervalo entre o vazamento, a confirmação da saída de Moro e a repercussão no sábado, foram mais de 700 mortes. Gente que chora, à distância, seus mortos, enquanto gente se digladia pelo poder em Brasília. Mais uma vez ficava escancarada a distância entre o andar de cima – para roubar a expressão do genial jornalista Elio Gaspari – e o de baixo.

Não há heróis

Na literatura e na dramaturgia popular, os arquétipos são bem definidos: o herói, sempre perfeito, e o vilão, sempre malvado, se enfrentam. O leitor ou expectador, diante do que lhe é posto, geralmente torce para que o primeiro saia vencedor – o que invariavelmente ocorre. É divertido e popular. Zorro x Capitão Ramon, Luke Skywalker x Dart Vader: esses duelos são os trunfos das criações de Johnston MacCulley e de George Lucas.

Mas, e quando nos deparamos com Bentinho? O Casmurro pode ser, simplesmente, taxado como vilão? O ciúme doentio por Capitu – ou seria por Escobar? – é desculpa suficiente para a pusilanimidade de Bento Albuquerque de Santiago? É esse navegar por zonas cinzentas, entre o preto e branco, que torna tudo menos definido e, por isso mesmo, mais intrigante e interessante no romance de Machado de Assis.

Na política, o brasileiro age como se houvesse bandidos e mocinhos para quem torcer. Ocorre que os políticos, como todo mundo, têm seu lado B. Mas a militância não costuma enxergá-lo, ou não quer enxergá-lo. É como o lado escuro da Lua: sabe-se que está lá, mas contenta-se em observar o lado que revela a luta entre São Jorge e o dragão.

No recente duelo entre o presidente Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro Sergio Moro, logo formaram-se torcidas de ambos. O primeiro movimento, do também ex-juiz, pareceu um xeque-mate. Mesmo com o discurso presidencial patético no fim do dia, o bolsonarismo demorou a assimilar o golpe. Mais tarde, e durante todo o sábado, veio a reação na forma de tentativa de questionar a moralidade de Moro, que seria, na versão da militância presidencial, um homem preocupado apenas com seus interesses próprios e não com os do Brasil – mais uma ironia: com apoio de petistas e parte da esquerda. Por outro lado, Bolsonaro continua apostando na narrativa de que é honesto e que estaria pronto para dar a vida pelo País.

Nem tanto ao céu, nem tanto à Terra. Bolsonaro não é o poço de virtude que tenta vender (é cada vez mais difícil acreditar que os zeros da família são meninos por quem se pode botar a mão no fogo) e faz um governo que sabota a si mesmo. O presidente vai se fechando em torno de um núcleo duro, onde o verdadeiro comando parece estar mais nas mãos dos filhos que nas do pai.

Bolsonaro prova, dia a dia, que não se sente bem ao lado de gente com brilho próprio. Com o passar do tempo, e com o poder da caneta em mãos, como gosta de falar, notou que era muito pequeno diante de alguns nomes de seu ministério, como o próprio Moro e Paulo Guedes. Mandetta se tornou “estelar” após a pandemia. E logo foi fritado.

Guedes será o próximo?

Paulo Guedes: programa Pró-Brasil não tem sua chancela | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

As bolsas de apostas cravam que Guedes seja o próximo a ficar desempregado. De Posto Ipiranga o Chicago boy passou a mero espectador do plano que pretende salvar o Brasil do atoleiro econômico. O comando, ao menos por enquanto, está nas mãos do ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto. Enciumado, Guedes chamou o programa Pró-Brasil de novo PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento dos governos petistas que deixou milhares de obras paralisadas Brasil afora.

Por seu lado, com a saída, Moro fortaleceu a imagem de herói que tem em uma parcela da população. O ex-ministro foi chamado exatamente assim (Herói do Brasil) pelo empresário Luciano Hang, um bolsonarista convicto. Nas redes sociais, muita gente que estava ao lado do presidente começou a abandonar o barco. A expectativa é de que Moro chegue forte a 2022, como possível candidato à Presidência da República.

Assim, Moro torna-se o novo Dom Sebastião da política brasileira. Papel que já foi ocupado, nos últimos anos, por Fernando Color de Mello, Lula, Joaquim Barbosa (o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal) e, por que não?, pelo próprio Bolsonaro. Herdamos dos portugueses a crença em um messias. Como na letra de Chico Buarque, o ideal brasileiro, ao menos nesse aspecto, é tornar-se um imenso Portugal.

Porém, caso procurem um super-herói típico, Moro não é um dos personagens mais promissores. O ex-juiz tem, sim, um grande legado à frente da Lava Jato. Pela primeira vez, uma operação teve coragem de enfrentar políticos e empresários do primeiro escalão. Mas, como a Vaza Jato deixou claro, para fazer a omelete, ele não hesitou em quebrar os ovos.

O imbróglio com Bolsonaro fez lembrar, ainda, que Moro tem o péssimo costume de vazar conversas pessoais para o Jornal Nacional. Ainda na sexta-feira, 24, ele fez chegar à Rede Globo cópias de diálogos privados que manteve com o presidente e com a deputada Carla Zambelli. Um episódio que remeteu aos áudios da ex-presidente Dilma Rousseff que chegaram ao mesmo telejornal.

É de se questionar, por fim, se o momento e a forma de sair do governo foram os mais corretos. O Brasil enfrenta uma grande pandemia, o governo é atavicamente um gerador de crises, e Moro colocou muito mais combustível na fogueira. A instabilidade política, que é uma característica de Bolsonaro, ficou ainda maior, em um período delicado para o País.

Ao invés de fazer cálculos para 2022, Bolsonaro e Moro deveriam se preocupar muito mais com a contagem de cadáveres por causa da Covid-19, que aumenta dia a dia.

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