Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Eleições municipais já deixaram seu recado para 2022

Eleitor não apostou em outsiders e nem seguiu a polarização de 2018. Mais do que uma prévia para daqui a dois anos, as urnas já provocam movimentos estratégicos na corrida presidencial

“A empáfia dos direitistas que chegaram ao poder não agradou.” Esse é o recado que a deputada estadual em São Paulo Janaina Paschoal (PSL) diz ter recebido das urnas nas eleições municipais. Ela postou o sermão em suas suas redes sociais como quem aconselha colegas.

A leitura que Janaina Paschoal tem do resultado das eleições municipais faz sentido – e seu conselho é válido. O conservadorismo que chegou em 2018 como uma onda, este ano perdeu sua força e manda sinais para as eleições de 2022.

Os resultados da eleição do último domingo, 15, impôs derrotas de quem recebeu apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e também daqueles que tentaram seguir a receita do discurso conservador usado por ele em 2018. A mais emblemática foi no maior e principal colégio eleitoral do País: São Paulo.

O presidente se envolveu pessoalmente na campanha paulista apoiando Celso Russomanno (Republicanos). O candidato se empolgou e foi na onda do conservadorismo, e viu seu nome cair da primeira posição das pesquisas eleitorais, para o quarto lugar nas urnas. O mais doeu em Jair Bolsonaro foi ver Guilherme Boulos, do Psol, ir para o segundo turno com Bruno Covas (PSDB).

O recado também foi dado no Rio de Janeiro. Marcelo Crivella (Republicanos) busca se reeleger, foi pro segundo turno, mas vê seu adversário, Eduardo Paes (DEM), a sua frente com uma diferença grande e difícil de ser revertida nas urnas no próximo dia 29.

Na família Bolsonaro, o filho Carlos foi reeleito para seu cargo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Ele recebeu 71 mil votos – uma queda de 30% em relação aos 106 mil votos anteriores. Carlos também perdeu o posto de vereador mais votado no RJ para Tarcisio Motta, do PSOL. Rogeria “Bolsonaro“, ex-mulher de Jair, recebeu apenas 2.034 votos (0,08%) e não foi eleita.

O resultado ruim de Bolsonaro como cabo eleitoral não foi exclusivo nas eleições majoritárias. No caso de vereadores o desempenho foi um fracasso ainda maior. Dos 45 citados pelo presidente, apenas sete foram eleitos.

E nesse cenário os movimentos sociais (feminista, LGBTI+, negro, das favelas), reagiram a onda conservadora e conquistaram espaços e força nas eleções municipais. Um total de 32% dos prefeitos eleitos em primeiro turno nas eleições 2020 são negros –  em 2016 foram 29%. Levantamento preliminar feito por entidades LGBTI+ aponta que pelo menos 25 candidatos que se identificam como transexuais, bissexuais, gays ou lésbicas se elegeram vereadores. Outras nove candidaturas ficaram na suplência. Primeira trans a se eleger para a câmara municipal de Aracaju, Linda Brasil (Psol) foi a mais votada entre todos os eleitos na capital sergipana.

O que a deputada paulista Janaina Paschoal talvez não tenha observado, é que o recado das urnas não foi somente para o conservadorismo. Foi uma espécie de basta na polarização ocorrida em 2018, já que o PT também sofreu grandes derrotas. 

O partido de Lula não levou a melhor em nenhuma capital. O eleitor paulista que mandou recado para bolsonaristas, também enviou para petistas. Nunca antes na história o PT se saiu tão mal na disputa pela Prefeitura de São Paulo. O candidato a prefeito pelo partido na capital paulista, Jilmar Tatto, teve apenas 8,65% dos votos válidos. Nem mesmo Fernando Haddad, em 2016, ficou tão mal – lembrando que a eleição foi logo após ao impeachment de Dilma Roussef.

Mas essa história, assim como na política, não tem apenas dois lados. Quem se saiu melhor foi a centro-direita e partidos de centro, centro-esquerda. O PSL foi meteórico em 2018,  não alcançou o brilho esperado nas eleições municipais. O PSD, de Gilberto Kassab, terceiro colocado em prefeituras (após MDB e PP), é um dos grandes vencedores da eleição deste ano. A sigla que recebe a maior atenção é o DEM, que ganhou espaço e se viu vitório em capitais e cidades médias, cujos prefeitos serão cabos eleitorais em 2022 – O partido conseguiu eleger 63 prefeitos em municípios goianos.

O que as urnas quer nos dizer: O Centrão será mais caro a partir dessa eleição. A partir do próximo ano, o Centrão assumirá o controle de muitas cidades que se tornarão palanques cobiçados na eleição presidencial de 2022. Com o enfraquecimento político de Bolsonaro e a tentativa de salvar sua reeleição em 2022, mais cargos serão negociados e ministros “raiz” do bolsonarismo podem estar com dias contados no governo.

As urnas também disse a Bolsonaro para encontrar logo um partido que lhe oferte estrutura e que possua musculatura para lhe cacifar para as eleições de 2022. Logo após os resultado do último domingo, auxiliares mais próximos do presidente já haviam feito essa leitura e já colocam o tema na agenda. O presidente pode tentar recompor a força política ingressando em algum partido do bloco do Centrão. O resultado das eleições municipais deverá influenciar a decisão.

Há sempre quem diga que há grandes diferenças nas eleições municipais das presidenciais. Certamente há. O que não se pode deixar de considerar é que as eleições de 2022 terá como alicerce a política municipal, onde se consegue a capilaridade. Neste contexto, a reeleição de Bolsonaro poderá enfrentar dificuldades.

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