Cezar Santos
Cezar Santos

Eleição não vai mudar o Brasil

Velhacos políticos como José Sarney, Lula da Silva, Romero Jucá, Renan Calheiros, Valdemar da Costa Neto, entre muitos outros, continuarão dando as cartas

Há poucos dias, o Da­tafolha divulgou pesquisa que mostrou grande parte dos brasileiros otimista com o impacto das eleições de outubro para a melhoria da vida e da política no Brasil. No levantamento, 45% dos entrevistados acreditam que o resultado das votações gerais vai fazer a vida melhorar, 35% disseram que a vida ficará igual e 7% afirmaram que a vida vai piorar.

À pergunta sobre o perfil dos políticos eleitos a serem eleitos, 45% afirmaram que eles serão melhores do que os representantes atuais. Para 38%, os escolhidos serão iguais ao de hoje e, para 6%, serão piores.

Lula

Certamente, o otimismo dessa maioria ouvida pela pesquisa tem em alguma medida a satisfação de ver a operação Lava Jato investigando crimes e a Justiça punindo ladrões do erário. O corrupto Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, já foi condenado e está na prisão por alguns dos crimes que ele cometeu.

É alvissareiro a Justiça ter enquadrado Lula e mais um punhado de corruptos — com a recente prisão de José Dirceu, hoje os três homens mais poderosos do petismo, que orquestraram o petrolão e o mensalão, estão presos: Dirceu na Papuda, e o ex-ministro Antonio Palocci no mesmo prédio que abriga Lula, a sede da Polícia Federal em Curitiba.

Com isso, é quase natural supor que está havendo uma depuração na política. Ter esperança é louvável, mesmo porque esperança deve ser a última a morrer. Mas, infelizmente, o otimismo com uma possível mudança advinda das eleições será frustrado.

Renan Calheiros

Se algo efetivamente começou a mudar no Judiciário, a verdade, por mais dura e decepcionante que seja, tem de ser dita: a estrutura política do Brasil não vai mudar com as eleições de outubro. É auspicioso pensar que a eleição servirá para alijar dos Executivos (Presidência da República e governos estaduais) e dos Legislativos (Câmara Federal mais dois terços do Senado e as assembleias estaduais) os maus políticos. Mas isso, infelizmente, não vai ocorrer. A tal renovação, que muitos acreditam que vai acontecer, não será tão significativa.

Renovação pequena

Pior, a renovação no Congresso Nacional, onde são votadas as leis que afetam todos os brasileiros, talvez fique até abaixo do que normalmente ocorre, entre 40% e 50%. Na eleição de 2014, a renovação na Câmara Federal foi de 43,7%, somando os 198 novos deputados e os 26 que não estavam na legislação anterior, mas que tiveram mandato em algum momento. Na eleição de 2010 esse índice de renovação foi até maior: 46,4%.

Agora, com a minirreforma eleitoral, cujos pontos principais foram a proibição de financiamento eleitoral por pessoas jurídicas e diminuição do tempo de campanha, a tendência é que haja uma renovação ainda menor. Muitos dizem que as alterações foram feitas com o intuito de facilitar a permanência de quem já tem mandato. Com campanha menor, de apenas 45 dias, quem já ocupa cargo eletivo, que naturalmente é mais conhecido, terá mais chances.

E sem dinheiro de pessoas jurídicas, os chefetes dos partidos comandarão a distribuição de verbas do bilionário fundo público para as campanhas. Não é difícil imaginar quais candidatos serão privilegiados na distribuição desses recursos: os políticos com mandatos, os mais conhecidos.

Romero Jucá

O resultado é que “caciques” continuarão mandando no processo políticos. Gente como Renan Calheiros, Romero Jucá, Carlos Lupi, Fernando Collor, Valdemar da Costa Neto, Jader Barbalho, Lula da Silva (mesmo preso ainda é “dono” do PT, e, portanto, continuará ditando o que o partido fará ou deixará de fazer), entre dezenas de outros, permanecerão dando as cartas. Mesmo no caso em que um ou outro não seja reeleito, serão eleitos seus filhos, netos, irmãos, mulheres, e por intermédio destes eles continuarão no mando.

José Sarney

Foi o que ocorreu com José Sarney, que na eleição passada não conseguiu se viabilizar como candidato à reeleição ao Senado pelo Amapá. Mas quem há de negar que continua influente, indicando aliados para cargos-chave na máquina pública, “aconselhando” presidentes da República, como fez com Lula, com Dilma Rousseff, com Michel Temer — não bastasse ter um filho deputado federal que era ministro até poucos dias e a filha que logo voltará a ser governadora do Maranhão.

A tal renovação, com lideranças novas capazes de oxigenar a política, vai pro beleléu.

Um caso raro de petista realista

O PT insiste que o presidiário Lula da Silva será candidato à Pre­sidência da República. O partido se a­pega a esse fiapo de esperança por absoluta falta de alternativas. O objetivo dos chefes do partido é esticar essa corda, repisar o argumento de que o corrupto Lula está preso injustamente. Tal posição amalucada é praticamente unânime no staff petista, a começar pela presidente da sigla, senadora Gleisi Hoffmann, também ela respondendo denúncia por corrupção.

Governador do Ceará, Camilo Santana: “PT não pode se isolar”

Mas eis que surge um petista que caiu na “real”. Trata-se do governador do Ceará, Camilo Santana (PT), que em recente entrevista ao “Estadão” disse estar convicto de que Lula não conseguirá disputar a Presidência em outubro. Confirmado este cenário, o governador defende que o PT apoie a candidatura do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), seu padrinho político, e indique o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) como vice.

Segundo Camilo, o PT “não pode apostar no isolamento suicida”.

Questionado sobre a estratégia de setores do PT de insistir na candidatura do ex-presidente, o governador respondeu em tom realista e pragmático: “Não acredito que vão deixar o Lula ser candidato. Isso é um fato. Não adianta a gente se enganar. Acho que ele poderá contribuir muito nesse processo eleitoral, mas não como candidato”.

Ao dizer que não acredita que “vão deixar o Lula ser candidato”, Camilo joga no ar, sem afirmar categoricamente, que há um complô contra o ex-presidente, e que alguém poderoso poderia arbitrar a liberdade e a candidatura de Lula ao bel prazer, o que não passa de desvario. Como petista, Camilo Santana não consegue estar totalmente isento do desvario, mas não é disso que se trata esse artigo.

O governador enfatizou que aposta em Ciro como alternativa do campo progressista na corrida presidencial. “Ciro é hoje, sem dúvida nenhuma, o principal nome para unir as esquerdas e garantir as conquistas sociais alcançadas durante os 12 anos do PT no poder. Ciro sempre foi um aliado fiel”.

À pergunta “o sr. apoiará Ciro, independentemente da decisão do PT?”, a resposta de Camilo:

“Estamos aguardando esse diálogo. O próprio partido sabe da minha relação com o Ciro, com o Cid, uma parceria, uma relação política muito forte. É uma pessoa em quem acredito. Estou na perspectiva de construir uma aliança ainda no primeiro turno. E vou trabalhar para isso, independente (sic) de ser o PT na cabeça e o PDT na vice, ou vice-versa. Mas acho que o único nome que o PT teria para construir uma candidatura viável é o nome do Lula. Não sendo Lula, defendo que o nome seja o do Ciro e que o PT indique o vice já no primeiro turno, para que a gente possa construir e ter tempo para pavimentar, para consolidar uma candidatura forte nessas eleições de 2018.”

Camilo desaconselha “radicalismos” e “isolamento suicida” na discussão do PT sobre os possíveis cenários sem Lula. “Acho que o PT tem uma grande oportunidade de fazer esse debate. Não podemos nos isolar. O momento é de união, não de isolamento. O momento não é de radicalismos, isso não vai levar a nada. O momento é de reflexão, serenidade, desprendimento. Acho que quem pensa de verdade no partido, na sua história de luta, de conquista, não pode apostar no isolamento suicida”, disse ao Estadão.

A exortação de Camilo Santana à reflexão, à serenidade e ao desprendimento é um ponto fora da curva no reino petista. Sem entrar no mérito de considerar que a aliança com Ciro Gomes seja boa ou ruim para o PT, cabe prestar atenção a uma liderança emergente da sigla a falar palavras que há muito sumiram do vocabulário petista.

Agora, o que dizer de colocar numa mesmo raciocínio as expressões reflexão, serenidade e desprendimento conectadas ao nome de Ciro Gomes?

Trata-se um lapso conceitual absoluto, a chamada contradição em termos. Quem conhece Ciro, “o boquirroto”, sabe disso.

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ziro

As reformas devem iniciar pelo poder judiciário através das privatizações. O povo não aguenta mais manter um poder omisso.