Cezar Santos
Cezar Santos

E se “fica, Temer” for o menos ruim?

Brasil passa por situação tão esdrúxula, mas tão esdrúxula, que as alternativas ao peemedebista podem ser piores que ele

Presidente Michel Temer não economiza na comemoração: “Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando” | Foto: Marco Correa/ PR

A renúncia de Michel Te­mer seria, do ponto de vista institucional no curtíssimo prazo, a melhor possibilidade para os brasileiros. Afinal, não é bom que um presidente receba no palácio, altas horas da noite, um bandido como Joesley Batista, que estava sendo investigado, para travar diálogos pouco edificantes. Mas, atenção: a rigor, no que um Temer monossilábico falou com o delator, numa conversa estranha, há espaço para mais de uma interpretação, e a coisa pode até ser derrubada num tribunal. Mas não é esse o foco desse artigo.

Estivéssemos num momento político e econômico menos conturbado, a renúncia seria sim o melhor. Temer renunciaria, o próximo na linha sucessória (Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Depu­ta­dos) assumiria, marcaria eleições indiretas conforme as regras, os parlamentares escolheriam um nome mais ou menos consensual e tocaríamos em frente.

Ocorre que estamos na antessala do inferno, em termos políticos e econômicos, amargando as duras consequências do desgoverno de Dilma Rousseff, o mais flagrante caso de incompetência administrativa e de insanidade política na história da República brasileira. É imenso o estrago que essa mulher causou (e vem causando, porque os efeitos são de longuíssimo prazo) ao Brasil. Pela proximidade temporal, os estudiosos ainda não se debruçaram no estudo desse desastre.

Mas Michel Temer não vai renun­ciar, a não ser que seja essa a única solução possível; única, note-se, antes de hipotética votação de um impeachment em que ele tivesse plena consciência de que não teria condições para reverter o jogo. Ele disse que a renúncia seria o reconhecimento de culpa.

Reforçando: não se está dizendo aqui que Temer não renuncia de jeito nenhum, e sim que ele só tomará essa medida se e quando ela for a menos pior em comparação a qualquer outra. E não renuncia por um motivo simples, prosaico até: fora da Presidência, ele pode até ser preso. Renunciando, ele perderá os recursos de poder que a Presidência lhe garante e o foro privilegiado. Ficará, imediatamente, sujeito a ordens para depor na Polícia Federal ou à prisão preventiva.

Por isso, o peemedebista e seus operadores estão trabalhando. É um engano considerar que a trupe governista foi paralisada por protestos como os realizados em Brasília, quando sindicalistas convocados pelo PT, PSol, PCdoB, PSTU e outras franjas desses partidos depredaram e atearam fogo a estabelecimentos públicos.

Bastidor é o elemento preferencial — e pode-se até dizer “natural” — de trabalho para Michel Temer. Sua história mostra isso. E ele está trabalhando nos bastidores; ele tem aliados no Parlamento e amigos no Judiciário.
No calor da delação dos bandidos Batistas, neste momento, o que mais se discute é o nome (ou nomes) do substituto de Temer, seja no caso da (improvável, como se explicou antes) renúncia, seja no caso de cassação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Supe­rior Eleitoral (TSE). Aí, o substituto viria pela eleição indireta – es­que­ça esse negócio de diretas, isso só existe na cabeça tresvariada de petistas e de incautos que caíram nu­ma cantilena irreal, como se eleição fosse brincadeira ou panaceia.

Mas, quais são as opções para a saída de Temer?

Aí é que está o “x” do problema. Fala-se no ex-ministro Nelson Jobim, peemedebista. Ocorre que ele é sócio do BTG, enrolada em investigações, e suas ligações com o réu Luiz Inácio Lula da Silva são notórias – aliás, Jobim é ligado a qualquer esquema de poder vigente. Está longe de ser uma unanimidade mesmo no PMDB. Outro cotado, o tucano Tasso Jereissati, também tem arestas. Pode enfrentar alta rejeição por ser candidato do PSDB.
Outro nome, Fernando Henrique Cardoso. Bem, o problema aí, de cara, é que é tucano. E é muito pouco provável que ele aceitasse tal desafio. Conhecemos FHC, ele não entra em bola dividida; só aceitaria o encargo se fosse por um grande acordo de toda a elite brasileira —TODA, mesmo —, em que ele surgisse. Não há clima para unção de ninguém neste momento.

Em recente artigo, o ex-ministro Mailson da Nóbrega lembrou que num cenário desse, há o risco de uma candidatura avulsa conquistar o baixo clero. Mailson citou os casos de Severino Cavalcanti e Eduardo Cunha, que se aliaram a esse grupo para derrotar a coalizão do governo e conquistar a presidência da Câmara. “Uniram rejeição aos escolhidos à oferta de mimos fisiológicos. Se acontecer algo parecido na eleição indireta, a emenda seria pior do que o soneto.”

Por aí se vê que o “fica, Te­mer” pode ser o melhor — ou menos pior, como queira.

Se poucos fora do entorno do Palácio do Planalto falam na possibilidade de permanência do presidente, a hipótese precisa sim ser considerada. Temer já manifestou claramente que vai utilizar todos os recursos jurídicos e políticos para protelar o processo no TSE, no que ele tem todo o direito, mesmo que seus adversários não gostem.

Não se pode negar, no entanto, que Temer e companhia fazem movimentos erráticos, porque a situação não é fácil. O governo do peemedebista começou a entrar numa fase que lembra muito o final do governo de Dilma Rous­seff, quando se tomavam medidas para consertar medidas erradas anteriores, e agravavam-se os danos.

Exemplo claro ocorreu no imbróglio da demissão do deputado federal Osmar Serraglio (PMDB) da Pasta da Justiça. O suplente de deputado Rodrigo Rocha Loures (aquele da mala de dinheiro) perde foro privilegiado e pode ser preso a qualquer mo­mento. O medo dos governistas é a delação premiada de Rocha Loures. Pode ser o fim do governo Temer.

E o PIB cresce

Se as condições políticas se complicaram sobremaneira com a delação dos bandidos Joesley e Wesley Batista, o peemedebista ganhou alento no primeiro dia do mês, quando foram divulgadas boas novas na economia. O crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre do ano, comparado ao quarto trimestre de 2016, foi alvissareiro para o governo. Mesmo que modesto, foi a primeira alta na comparação, após dois anos consecutivos de queda.

Michel Temer comemorou, como não poderia deixar de ser. “Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando”, disse o presidente no Twitter. “O Brasil voltou a crescer. E com as reformas vai crescer mais ainda”, completou.

Temer também reproduziu comunicado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirmando que, depois de oito trimestres em queda, em relação ao trimestre anterior, o PIB teve expansão entre janeiro e março de 2017.

Temer voltou às redes sociais para o mesmo assunto: “Estamos cres­cendo e a uma taxa superior ao que boa parte do que analistas previam”, afirmou, acrescentando que, em breve, será a geração de empregos a trazer “boas novas” para o país.

O peemedebista também apontou a redução da inflação bem como a queda na taxa básica de juros seis vezes consecutivas, conforme fez questão de enfatizar chegando à decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, 31, de novo corte, de 1 ponto porcentual, registrando 10,25% ao ano, em conformidade com as expectativas do mercado financeiro.

Segundo Temer, esses indicadores resultam de sua gestão iniciada há um ano. “Há pouco mais de um ano, quando assumi a Presidência da República, o Brasil estava mergulhado na mais profunda recessão da sua história. O número de hoje marca o renascimento da economia, em bases sólidas e sustentáveis.”

Pode-se questionar o tamanho do otimismo de Michel Temer, mas os números mostram que seu governo tem um lastro importante, talvez o único: sua equipe econômica, comandada por Henrique Meirelles. Se a economia continuar produzindo boas novas no curto prazo, a permanência de Temer no Palácio do Planalto vai se solidificando cada vez mais. Com crise política e tudo.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.