Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

É preciso conhecer as falhas para transpor barreiras da vacinação

Há no Brasil um programa exemplar de vacinação, mesmo assim os índices de imunização seguem em constante queda. Ter um levantamento as razões para este efeito será determinante para o sucesso para campanha de vacina contra Covid

Ano após ano as campanhas de vacinação no Brasil tem apresentado resultados insatisfatórios. A queda gradual no percentual de imunização serve como alerta às autoridades de saúde pública há alguns anos, mas o problema não recebeu a devida atenção. A pandemia do coronavírus chegou e escancarou ainda mais essa situação. O anúncio da descoberta e do cronograma para aplicação da vacina para Covid-19 revelou um cenário ainda mais alarmante – no mês passado o Datafolha apontou que 22% dos brasileiros não querem receber as doses contra a doença.

A parcela da população que desacredita em vacinas só cresceu no período de enfrentamento à pandemia. As razões são teorizadas por inúmeras autoridades. Há os que culpam a influência dos negacionistas (inclusive daqueles que habitam em cargos de liderança no País). Outros culpam a geração que não vivenciou surtos de doenças e o efeito das vacinas na erradicação. Há também a responsabilização das campanhas de desinformação, que ocorrem de forma crescente em todo o mundo. O mais provável é que o motivo para os 22% dos brasileiros optarem por não se vacinar esteja na soma de todos os fatores listados.

Uma declaração da professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), enfermeira e epidemiologista, Ethel Maciel, sintetiza de forma clara o motivo da insistência para que as imunizações sejam efetivas de maneira global. Ela diz: “vacina não é remédio. Vacinação é estratégia coletiva”. É um alívio saber que a  maioria ainda concorda com essa alegação.. Mas é preocupante saber que há uma  minoria crescente que discorda e faz campanhas antivacina. Se estamos em meio a uma pandemia sem precedentes, que nos força a viver uma segunda onda (ou um repique no registro de infectados), tirando quase 200 mil vidas, espera-se que haja uma consciência coletiva em prol da imunização – pesquisas e declarações públicas demonstram que essa não é a realidade.

Vacinar contra Covid no Brasil será um desafio. E não estou falando de logística, corrida pela prioridade na aquisição de doses ou conseguir as seringas e agulhas necessárias. Refiro-me a compreender a população para que ela se engaje na campanha, e assim haja sucesso na imunização. É preciso conhecer os reais motivos que geram incertezas e colocam pessoas na defesa da campanha antivacina.

“O esclarecimento rápido e efetivo é o melhor instrumento para que se retome as vacinas como prevenção

Ao encontro dessa necessidade o Ministério da Saúde fará o censo das vacinas (demorou, mas enfim será colocado em prática). O levantamento começa ainda este mês e será o primeiro no País em 14 anos. Pesquisadores vão bater à porta de famílias das capitais de todo Brasil para traçar um perfil da população quanto à adesão ou não das vacinas. Uma medida necessária e bem vinda em um momento em que a vacinação é o centro das atenções no mundo.

O censo vai buscar responder, porque o Brasil, que possui o Programa Nacional de Imunização sendo executado com louvor há mais de 30 anos, enfrenta a barreira da recusa da vacina? O levantamento precisa apontar onde mora a falha. Se erraram na comunicação ou se é um problema estrutural? As autoridades precisam saber se a  razão da queda na imunização é motivada pela desinformação ou por que nem sempre as doses são levadas o mais próximo possível do público alvo.

Para ilustrar a necessidade que há em entender o motivo do distanciamento das sociedade em relação às vacinas, podemos avaliar os números das campanhas no ano de 2020.  Nenhuma das vacinas do calendário atingiu a cobertura estipulada. Mais de 500 mil crianças deixaram de tomar a vacina de pólio, por exemplo.

O censo vai permitir que autoridades tenham amostras sobre quais os motivos que crianças estão deixando de ser vacinadas, e porque todos os anos o percentual de alcance das campanhas só cai. As informações coletadas pelo censo das vacinas tende a dar munição para que o Ministério da Saúde possa atuar de forma a combater as falhas, transpor as barreiras e obter o resultado de ampla imunização com a vacina da Covid-19. 

Espera-se que os dados coletados pelo censo das vacinas dê elementos para criação de uma comunicação assertiva com a população, e assim, alcançar a vacinação em larga escala criando uma convicção coletiva de que o melhor é sempre receber as doses de imunização, seja contra Covid-19, ou demais doenças que Brasil ainda luta para erradicar, cujo as  vacinas estão no calendário brasileiro.

O censo das vacinas pode também trazer elementos para que sejam colocadas em práticas estratégias, sem necessidade de colocar em pauta o debate sobre obrigatoriedade de se vacinar ou não. Espera-se de fato, que com estatísticas, respostas e informações amplas o governo federal saiba como usar para combater os movimentos antivacina, ao invés de potencializar esse sentimento falho de senso coletivo. 

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