Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Drauzio e a trans Suzy: é possível ter compaixão diante da barbárie?

Cena em que o médico abraça uma condenada por estuprar e matar uma criança envolve questões com respostas difíceis sobre perdão e jornalismo

Drauzio Varella e Suzy na cena polêmica | Foto: Reprodução Rede Globo

 

Um dos rituais mais belos do judaísmo é a celebração do Yom Kipur. Essa data marca, desde a travessia do deserto, o “sábado dos sábados”, cujo regramento está contido nos livros de Deuteronômio e Levíticos – integrantes da Torá, o conjunto legislativo da Bíblia judaica. Esse é o dia do arrependimento. É um dia de reflexão, mas, principalmente, arrependimento e perdão.

Herdeiro do judaísmo, o cristianismo materializou o perdão na figura do Cristo crucificado. A partir de então, não haveria mais a necessidade do templo nem de sacrifícios animais. A expiação dos pecados fora feita no Gólgota.

O mundo ocidental construiu-se na influência judaico-cristã. Observe-se que perdão não tem relação com impunidade. Perdoar um criminoso não significa a comutação de pena nem a extinção da mesma. O perdão judaico-cristão não é deste mundo – roubando uma expressão do próprio Messias.

Um dos países com maior número de cristãos do planeta, o Brasil de 2020 não é terra de perdão. O médico Drauzio Varella, que faz jornalismo (geralmente bem feito) no Fantástico, da Rede Globo, é o Judas da vez. Tudo por causa de um abraço.

Drauzio fez uma reportagem sobre a condição de mulheres trans no sistema carcerário brasileiro. Imagine: se para os presos em geral o cárcere é insalubre, indigno e ineficiente em seus princípios, imagine para populações marginalizadas mesmo quando em liberdade.

A cena comoveu. A roda-gigante das redes sociais logo elegeu o carismático médico como o melhor homem do Brasil. Por pouco tempo: a revelação de que Suzy, a trans abraçada, está presa por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos jogou Drauzio à Terra de Hinom.

Estava, assim, construído mais um ringue virtual, enquanto a Bolsa derretia, o dólar disparava, a Petrobras perdia R$ 90 bilhões e o novo coronavírus se espalhava pelo Brasil em uma segunda-feira, 9/3, tomada pela tempestade perfeita. Mesmo pessoas geralmente ligadas aos direitos humanos e a valores religiosos se viram testadas em seus limites.

Ficam algumas questões: Há seres humanos imperdoáveis? Há seres humanos que não merecem um abraço? Quais as fronteiras da compaixão?

Quaisquer que sejam as respostas, fica a convicção de que Drauzio merece todos os holofotes que o iluminam. Não é para qualquer um abraçar alguém que carrega toda sorte de situações que só causam repúdio. Eu não sei se conseguiria.

 

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