Cezar Santos
Cezar Santos

Dois focos para Temer: recuperar a confiança no País e fazer a economia voltar a crescer

Sem entrar em minudências de nomes para o futuro governo do vice-presidente, o cientista político Luiz Felipe D’Ávila dá a receita para que o peemedebista, mesmo com pouco tempo, acerte

A retomada de investimentos em obras de infraestrutura é urgente como forma de destravar a economia e gerar empregos, recuperando o tempo perdido dos governos de Dilma Rousseff | Foto: Divulgação

A retomada de investimentos em obras de infraestrutura é urgente como forma de destravar a economia e gerar empregos, recuperando o tempo perdido dos governos de Dilma Rousseff | Foto: Divulgação

Um dos mais aplicados estudiosos da realidade bra­si­leira, o cientista político pau­listano Luiz Fe­lipe D’Ávila é formado em ciências políticas pela Universidade A­me­ricana em Paris e mestre em ad­mi­nistração pública pela Harvard Ke­nnedy School. Ele escreveu vários livros de história e de política.

Entre as obras de D’Ávila, está “Os Virtuosos”, cuja leitura neste momento de desilusão com nossos homens públicos poderia servir de alento aos brasileiros. O livro defende a tese de que embora a corrupção seja disseminada no ambiente político-administrativo do país, existem nessa área, como em outras, “ilhas de excelência”, os líderes políticos Prudente de Moraes, Campos Sales e Rodrigues Alves, que se destacaram pela operosidade sem perda da consciência e da postura ética, governantes que defenderam os princípios republicanos, os valores democráticos e as instituições dos ataques sistemáticos dos caudilhos e demagogos.

Na sexta-feira, 6, Luiz Felipe foi entrevistado pela Veja.com Vídeo. O cientista político falou dos desafios que Michel Temer deve enfrentar no comando do País e a forma de seu curto governo de transição dar certo. Segundo D’Ávila, são dois os grandes desafios de curto prazo que Temer terá de assumir: a retomada da confiança no País e a volta do crescimento da economia.

“As pessoas precisam acreditar novamente no País, os investidores precisam acreditar para investir os seus recursos, o trabalhador precisa acreditar para voltar a consumir, os investidores externos precisam acreditar para investir capital de longo prazo principalmente na área de infraestrutura. Ou seja, o resgate da confiança é o desafio número um”, afirmou.

O desafio número dois, segundo D’Ávila, será fazer a economia voltar a crescer, uma vez que estamos na pior recessão dos últimos 80 anos no Brasil. “No ano passado a economia recuou praticamente 7% do Produto Interno Bruto (PIB), estamos com mais de 10 milhões de desempregados, então precisamos rapidamente retomar o crescimento econômico.”
E quais seriam as medidas práticas para isso?

O cientista político diz que Michel Te­mer terá de focar em medidas que terão alto impacto e baixo custo político. Lembrando que será um governo curto, de transição, de pouco mais de dois anos, D’Ávila afirma que Temer poderia apostar quatro medidas importantes.

Na Presidência, Michel Temer terá a difícil missão de consertar os muitos estragos  que a petista Dilma Rousseff produziu | Foto: ASCOM- VPR

Na Presidência, Michel Temer terá a difícil missão de consertar os muitos estragos
que a petista Dilma Rousseff produziu | Foto: ASCOM/VPR

A primeira, aponta, seria aprovar um fast track, ou via rápida em investimentos de infraestrutura no Brasil. O País precisa ter transparência nas regras, acabar com a estupidez de limitar o retorno sobre capital e criar os mecanismos de controle que já existem em obras de infraestrutura no mundo inteiro, exceto aqui, que é o uso de performance bonds, o seguro garantia.

“As pessoas que firmarem contratos públicos terão de entregar o serviço no prazo e no preço combinado, acabando com o mecanismo dos aditivos, que alimentam a indústria da corrupção nas obras públicas. Então, como simplificar as regras, fazer com que haja menos voluntarismo na interpretação das leis, criando esses performance bonds e os seguros necessários para que as obras sejam entregues no prazo e ao preço contratado”, resume.

Luiz Felipe D’Ávila diz que há dinheiro no mundo para investimentos em infraestrutura e o mundo está ávido para investir no Brasil. São investimentos de longo prazo que fazem mover a economia imediatamente, gerando principalmente empregos na base. “Como retomada de crescimento eu focaria nisso. Aliás, poderia até criar o Ministério da Infraestrutura para juntar toda essa parte de parceria público-privada, concessões, etc.”

A segunda medida apontada pelo acadêmico é o enfrentamento da reforma trabalhista. Mas ele adverte que se começar pela discussão da Consolidação das Leis do Tra­balho (CLT) seria um debate sem fim, até porque isso é um vespeiro e não passa no Congresso. “Mas já há consenso, por exemplo, de que é preciso flexibilizar a legislação.”

D’Ávila lembra que o professor da Universidade de São Paulo (USP) José Pastore já sugeriu uma ideia fantástica, que seria uma emenda constitucional que rezaria: salvo comum acordo entre empregador e empregado, vale a CLT. “Então, não mexe na CLT, propõe uma PEC que permite a negociação livre entre patrões e empregados. Havendo essa negociação, ela prevalece sobre a CLT. Isso abriria um campo extraordinária para novos acordos trabalhistas, especialmente em áreas como na indústria de serviços e tecnologia.”

O cientista afirma que algumas categorias seriam mais beneficiadas por ficarem sem o engessamento que existe hoje e isso ajudaria a fomentar o emprego. “As pessoas querem voltar a trabalhar e se puder fazer acordo e isso ser impulsionador do emprego, acredito que os trabalhadores topam. Vamos abrir a livre negociação entre patrão e empregados e se houver divergência, que valha a CLT”, reforça.

Previdência

Cientista político Luiz Felipe D’Ávila: “Michel Temer terá de tomar medidas de alto  impacto e baixo custo político”

Cientista político Luiz Felipe D’Ávila: “Michel Temer terá de tomar medidas de alto
impacto e baixo custo político”

A terceira medida sugerida por Luiz Felipe D’Ávila é a reforma da Previdência. Ele lembra que o modelo está esgotado, que a conta previdência está crescendo a 13% do PIB e ainda temos uma população jovem. “Isso vai quebrar o Brasil, porque Já gastamos na Previdência “percapitamente” três vezes mais que a Alemanha. Quando tivermos a idade média dos alemães, a gente quebra.”

E mexer em Previdência sempre é um vespeiro. Mas o cientista político lembra que também aí há uma boa notícia, um consenso generalizado de que é preciso subir a idade de aposentadoria para 65 anos. “Essa conscientização já é uma vitória. Mas precisamos ir além.”
E como fazer para ter o apoio da população, no caso de mexer em algo tão espinhoso como Previ­dên­cia? O cientista político afirma que o (futuro) presidente poderia fatiar a reforma e começar atacando a Previdência pública e não a privada.

“Na Previdência pública está 70% da conta. Para se ter uma ideia, 870 mil funcionários públicos aposentados consomem a mesma coisa que 28 milhões de trabalhadores da iniciativa privada. Se fatiar a reforma desse jeito, o novo governo mostra uma atitude, que está disposto a cortar na própria carne antes de pedir aumento de impostos para a sociedade. Com isso ele terá apoio do restante da população”, explica D’Ávila.

A quarta e última medida im­por­tante diz respeito à política ex­terna. Um Itamaraty “turbinado” é muito importante, afirma D’Ávila. Lem­brando que o senador tucano Jo­sé Serra vem sendo dado como o fu­turo titular da pasta, que agregará mais poderes, tornando-se um “superministério”.

Segundo Luiz Felipe D’Á­vila, o Brasil precisa voltar a ter papel relevante na economia global. “Nossas exportações é uma mola propulsora do crescimento e da geração de empregos. O Brasil, nos últimos 15 anos, fechou sua economia de forma brutal. Veja que absurdo: o Brasil é a 8ª economia do mundo e a 24ª exportadora. Exportamos menos que a ilha de Taiwan. Nosso comércio exterior nunca representou mais de 20% do PIB, sendo que a média dos países exportadores é de 50% do PIB. Representamos apenas 1% do comércio global.”

O caminho a ser percorrida na área de comércio exterior é e­nor­me, aponta Luiz Felipe D’Á­vila, no sentido de fazer abertura e­conômica, de concorrência e de foco no aumento das exportações. “Focando nisso, seremos mais produtivos, vamos atrair pessoas do mundo inteiro, cérebros para fazer com que a economia recupere parte do tempo perdido.”

Jornalista petista cai na real

Vargas Llosa: “Dilma herda corrupção que nasceu com Lula”

Vargas Llosa: “Dilma herda corrupção que nasceu com Lula”

Na quinta-feira, 5, na Ar­gentina, o Nobel peruano de Literatura Mario Vargas Llosa disse que considera “muito saudável” que o Brasil passe pela crise política atual. “Acho que o que está acontecendo em Brasília é um protesto do setor mais saudável e criativo do país diante de uma democracia que estava gangrenada pela corrupção”, afirmou.

Segundo Vargas Llosa, “o mundo inteiro tinha santificado Lula, e logo os brasileiros são os primeiros a descobrir que o regime de Lula é a fonte de uma corrupção sem precedentes na história brasileira. O que está ocorrendo no Brasil é saudável, muito saudável, e demonstra a liberdade que permitiu que isso seja exposto”, comentou.

O escritor e jornalista peruano disse que o regime de Dilma Rousseff herdou uma corrupção que nasceu com Lula. “En­tão, é bom que o Brasil viva essa ca­tarse e tire seus santos do pedestal.”

E um jornalista e escritor militante do petismo (não sei se é filiado) também parece estar tirando o santo do pedestal. Ricardo Kotscho, confesso admirador de Lula, na terça-feira, 3, publicou em seu blog (Balaio do Kotscho) o artigo intitulado “Dilma já monta o seu ‘bunker’, mas para quê?”, em que mostra que nem todos se deixam levar pela cegueira ideológica a ponto de obliterar a visão da realidade. Vale a leitura, mesmo porque Kotscho, dono de um dos mais brilhantes textos do jornalismo brasileiro, põe a nu um pouco do melancólico final do governo Dilma.

Kotscho: admira Lula, mas consegue ver a tragédia de Dilma

Kotscho: admira Lula, mas consegue ver a tragédia de Dilma

Na minha infância, ouvia muito falar nesta palavra alemã “bunker”, como eram chamados os abrigos su­bterrâneos, onde minha mãe se re­fugiava com a família, durante os bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Eram lembranças muito tristes, que me marcaram para o resto da vida.

Setenta e um anos após o final da última grande guerra, esta palavra volta ao noticiário, agora no Brasil. Já certa da derrota na batalha do impeachment, Dilma começou a preparar o desembarque do Planal­to e a montar um “bunker da resistência” no Alvorada, segundo relato dos repórteres Marina Dias e Valdo Cruz, na Folha desta terça-feira.

Pergunto: vai resistir para quê, resistir contra quem, quais são os seus planos?

Até onde sei, nenhuma força ini­miga está preparando um bombardeio sobre o Palácio do Planalto. A guerra política é travada no parlamento e nos tribunais, com acusação e defesa citando a Constituição Federal. Não há no horizonte, até onde minha vista alcança, aviões militares, canhões ou navios de guerra.

São ambiciosos os planos de Dilma para o período em que ficará afastada do poder central. Em nada lembram a retirada discreta de Fernando Collor, quando caiu em 1992, esperando em silêncio e resignação, isolado na Casa da Dinda, pelo julgamento final. A quase ex-presidente quer montar uma estrutura de 15 assessores, mais seguranças, carros oficiais e um avião da FAB, além de manter todas as mordomias do Palácio da Alvorada.

Ao contrário de Collor, que deixou o Planalto pela porta dos fundos acompanhado apenas pela mulher, Dilma está pensando num final grandioso para a despedida, programada para o próximo dia 12, segundo o cronograma do Senado. Quer descer a rampa solenemente ao lado do que restou do ministério de seu desastrado governo que quebrou o País.

Em seus atos de desespero nos últimos dias, a ainda presidente deixou claro que pretende cair atirando, para infernizar a vida do seu sucessor constitucional (e, por tabela, a de todos nós, que pagamos a conta), como fez no 1º de Maio, ao anunciar um “pacote de bondades” que aumenta as despesas e diminui a arrecadação, no apagar das luzes, deixando um rombo perto de R$ 100 bilhões nas contas públicas.

Mesmo que o possível governo Michel Temer fracasse em sua tentativa de ressuscitar a economia brasileira, é consenso no meio político, até no PT, que não há a menor chance de Dilma voltar ao cargo no final dos 180 dias de afastamento. Então, eu só gostaria de entender: para quê tudo isso? Para continuar repetindo ao Brasil e ao mundo que ela está sendo vítima de um “golpe”, colocando em risco a estabilidade institucional?

Jânio e Jango também ficaram esperando que as multidões saíssem às ruas para pedir a volta deles. Morreram esperando.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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