Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Desafios e barreiras para pôr em prática o Plano de Vacinação Contra Covid-19

Logística, aquisições, aglomerações, calendário e negacionismo pode atrapalhar planos do Governo Federal para imunização

A vacina para Covid-19 deixou de ser uma esperança. Se tornou algo palpável. Encerramos o ano assistindo aos britânicos e norte-americanos recebendo suas primeiras doses de imunização. E saber que a corrida pela vacina parece chegar ao fim nos torna ansiosos para saber quando será nossa vez. No entanto, há um descompasso entre os anúncios de vacinação e a estrutura para sua aplicação.

Um total de 300 milhões de doses de imunizantes já foram negociadas pelo Governo Federal, conforme anunciado. Apresentado na última quarta-feira, 16, o Plano Nacional de Vacinação Contra Covid-19 não apresenta uma data prevista para se iniciar – o governo afirma que é preciso esperar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o registro de vacinas. A expectativa é de que comece em março próximo.

A primeira visão é até positiva. Afinal o Brasil tem um histórico de vacinação em massa, com distribuição de vacinas para o País inteiro. As campanhas sempre tiveram sucesso. Os profissionais do SUS têm orgulho de contar com um dos melhores programas de vacinação que há no mundo – exemplo são as campanhas anuais de imunização contra H1N1, sarampo e febre-amarela. 

Não há dúvida de que o Programa Nacional de Imunização tem capacidade reconhecida em campanhas de vacinação. Mas também são claramente conhecidas as barreiras que limitam a atual estrutura usada para a vacinação em meio a uma crise sanitária de proporções tão grandes quanto a gerada pela Covid-19.

Em geral, as vacinas que compõem o calendário nacional estão armazenadas entre 2° C e -8° C. Como temos visto até aqui, as doses contra Covid-19 exigem temperaturas mais baixas O Ministério da Saúde há muito sabe disso, mas ainda não trata com clareza o que há de estrutura – que devia estar em fase final de preparação.

Os alertas não faltam desde o início da pandemia e a corrida pela descoberta da vacina. Um dos mais alardeados é a capacidade de se adquirir insumos para campanhas de vacinação.  Há de se pensar em seringas, ampolas e agulhas. Tivemos dificuldades com máscaras e álcool no começo da pandemia, demonstrando que a capacidade de produção não se torna ampla com apenas uma canetada. É preciso planejamento. E nesta preparação para vacinar contra a Covid-19 precisa-se calcular que sendo duas doses, será necessário o dobro dos insumos.

Estamos encerrando 2020 com uma boa expectativa de que a vacina esteja disponível logo aos brasileiros, assim como está para os britânicos, mas o Ministério da Saúde ainda não decidiu sobre compras de seringas e agulhas – tem tentado empurrar essa responsabilidade para os Estados e Municípios. O plano nacional entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF ) cita a compra de 300 milhões de seringas e agulhas, ao custo de R$ 62 milhões, mas não especifica quando, como e de quem adquirirá o material. E com essa apatia da pasta, quem fez o sinal de alerta foi o setor industrial. Há um temor de que não se consiga produzir o suficiente para a demanda caso os contratos sejam fechados em cima da hora. Uma encomenda volumosa de insumos, como se espera, pode demorar até três meses para ser entregue – isso coloca em xeque a campanha que se planeja para um País de dimensões continentais, como o Brasil. A indústria nacional diz ter dificuldades para fabricar o produto em tempo hábil diante da necessidade urgente de vacinação e dos atrasos do governo. Já falta seringa no mercado internacional, com a corrida de diversos países para vacinar sua população. 

Compare: em julho o governo do Reino Unido já havia pedido 65 milhões de seringas para utilizar na campanha de vacinação.

Para além dos insumos, haverá outro desafio grande a ser enfrentado: aglomerações para se vacinar. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, apontou a barreira logística para colocar em prática essa campanha. “Ela precisa ser muito rápida, muito eficiente, tem de ser feito um planejamento eficaz para garantir que a busca pela vacina não gere aglomerações e, assim, contaminação”, afirmou, em um programa de TV, no começo da semana anterior. 

Essa é uma situação que precisa estar muito detalhada no planejamento do Ministério da Saúde. Imagine que com a vacinação já ocorrendo, em seu curto período inicie a fase dois e ainda ter de vacinar quem já foi vacinado na fase um. Tudo isso requer, sim, planejamento detalhado. 

Assim como houve preocupação com o quantitativo de pessoal para atender nos hospitais quando a pandemia chegou ao País, há agora com a vacinação. Goiânia é nosso exemplo próximo. Há um déficit de profissionais da área da saúde  que trabalham com a imunização. Há na capital 110 pessoas que trabalham diretamente nas salas de vacina. O ideal, segundo a própria secretaria Municipal de Saúde seria 300 profissionais.

A campanha de vacina contra a Covid-19, no Brasil, ainda não tem data para começar, mas será longa e o governo estipula que vai levar 16 meses para vacinar toda sociedade. É aí onde mora outra limitação. Há um calendário de vacina a ser seguido no Brasil, que tem por objetivo imunizar contra doenças graves. As doses contra a Covid deverão ser aplicadas em meio a outras vacinas que precisam ser dadas à população, e que não podem ser deixadas de lado. 

Por fim, depois de tantas dúvidas colocadas nas vacinas contra Covid-19, o Governo Federal precisará tratar com seriedade as campanhas de conscientização para que a população busque se imunizar e assim a vacina tenha o efeito esperado por todos. A medida é prevista no Plano Nacional de Vacinação Contra Covid, mas o presidente Jair Bolsonaro é o principal garoto propaganda do negacionismo, chegando a dizer que não vai se vacinar – a declaração dá força a parcela da sociedade que já declaram não querer se imunizar (pesquisa aponta que 22% da população não quer se vacinar).

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