Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Coronavírus, iFood, Goiânia e a sociedade que criamos

A vida nas grandes cidades, como a capital goiana, é cheia de contradições: milhares de pessoas convivem e se evitam diariamente

Avenida Anhanguera, em Campinas: fachadas terão de ser padronizadas | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Entre um pedido e outro no iFood (ou Uber Eats, ou Rappi), o controle remoto passa nervosamente pelo noticiário televisivo. Por mais que os especialistas digam que não há motivo para alarmismo, a cobertura intensiva sobre a epidemia de Covid-19, o nome da doença causada pelo novo coronavírus (batizado SARS-COV-2), faz o expectador pensar diferente – e reforçar a tendência de se fechar em casa, solicitando comida em alguns toques de dedo na tela do celular. Lá fora, Goiânia dá motivos para que seus moradores se encastelem.

A doença, os aplicativos e a capital goiana são o diagnóstico do modelo de sociedade que construímos: por um lado, vivemos cada vez mais rodeados de gente – a ponto de um vírus surgir em uma província chinesa e em menos de um mês desembarcar no Brasil –, por outro não queremos olhar nos olhos dessas pessoas ou trocar algumas palavras que sejam – nem mesmo para indicar no cardápio qual o prato escolhemos para o almoço.

O iFood transforma a alimentação em uma experiência cada vez mais individual. Ainda que o pedido seja para um grupo, não é incomum que cada um peça um prato diferente. Nem mesmo existe o trabalho de se discutir a divisão da conta. Com um “bônus” extra: eliminamos o intermediário humano do processo, o garçom, a quem costumamos nos dirigir apenas para reclamar do ponto da carne ou da temperatura da cerveja.

“Comer não é um ato solitário ou autônomo do ser humano, ao contrário, é a origem da socialização, pois, nas formas coletivas de se obter a comida, a espécie humana desenvolveu utensílios culturais diversos, talvez até mesmo a própria linguagem”, ensina Henrique Carneiro, professor de História Moderna da Universidade Estadual de São Paulo (USP), no artigo “Comunidade e sociedade: significados na história da alimentação”.

Não é à toa que uma das representações artísticas mais conhecidas do cristianismo, a Santa Ceia, se dá em torno de uma mesa. Em nome da comodidade abrimos mão de nosso processo civilizatório. Mas, ao mesmo tempo, a globalização, levada ao paroxismo com avanço tecnológico, faz com que estar só não seja uma opção.

Nunca estivemos tão juntos e misturados. A volta ao mundo é feita em um punhado de horas e não mais em 80 dias – como na narrativa fantástica de Júlio Verne. Nossas cidades estão abarrotadas de gente. Em muitas delas, é impossível não esbarrar nas pessoas num simples caminhar pela calçada.

Por isso, um novo vírus cruza os continentes em poucos dias. A infecção pelo novo coronavírus é exemplar de como as distâncias estão cada vez menores. O intervalo entre a descoberta do SARS-CoV-2 e sua chegada a todos os continentes foi de menos de um mês e meio. Uma velocidade muito maior que nas epidemias de H1N1 e Sars.

Um pouco de conforto visual em Goiânia

Assim como a tecnologia e as epidemias virais, a poluição visual é parte constitutiva do modelo de sociedade que construímos. Especialmente nas metrópoles e megalópoles de países em desenvolvimento, andar pelas ruas centrais é se deparar com a vitória do feio sobre o belo. Goiânia é exemplo disso.

Constituído de um dos maiores acervos de art déco do planeta, o Centro de Goiânia tem sido negligenciado ao longo dos anos. Elogie-se algumas ações recentes da Prefeitura em sentido contrário: a Praça Cívica e a Estação Ferroviária foram revitalizadas e o prefeito Iris Rezende sancionou há pouco mais de um mês a Lei da Fachada Limpa.

A Lei primeiro incentiva, por meio de dedução no IPTU, depois obriga, sob pena de multa, que os comerciantes e proprietários em geral requalifiquem as fachadas de seus imóveis – além do Centro, a obrigação vale para alguns trechos de Campinas e da Vila Nova.

Uma boa medida, sem dúvida. Mas pode-se fazer mais. O paradigma mundial é Barcelona, mas o Programa da ONU para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) identificou boas práticas na América Latina. A rede viária de Buenos Aires, por exemplo, tornou-se uma das mais amigáveis do planeta para ciclistas. A revitalização da região portuária do Rio de Janeiro é outro exemplo positivo, segundo o órgão das Nações Unidas.

O investimento é alto, requer compromisso de longo prazo e criatividade. Só uma cidade atrativa, onde os seus habitantes ocupem seus espaços, pode acabar com o paradoxo de que nunca estivemos tão perto, mas ao mesmo tempo tão distantes uns dos outros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.