Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Coronavírus chega à Lua, onde estão Lady Diana e John Lennon

Pandemia de Covid-19 fornece matéria-prima preciosa para teorias da conspiração, que encontraram no WhatsApp um forte hospedeiro para disseminação

O homem nunca pisou na Lua – é uma armação dos Estados Unidos. A CIA matou John Lennon – aliás, Paul MacCartney está morto há anos, como comprova a capa de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band. Lady Di foi assassinada naquela noite de agosto de 1997, quando foi montada a farsa do acidente de carro. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek foram assassinados. O Brasil vendeu a final da Copa do Mundo de 1998 para a França – a convulsão de Ronaldo Fenômeno foi apenas uma simulação.

Teorias da conspiração existem aos montes. Elas são deliciosas e funcionam porque são muito mais interessantes que a realidade. Que graça tem um pequeno passo para a humanidade, um fã maluco, a barbeirada de um motorista e uma derrota acachapante diante de Zidane e companhia diante de todas as possibilidades de uma fantasia?

Código Da Vinci

No início dos anos 2000, o escritor Dan Brown tornou-se fenômeno de venda ao especular que Jesus Cristo de Nazaré a Madalena – a pecadora a quem atribuem a pecha de prostituta, ainda que as Escrituras nunca tenham dito isso – tiveram um caso e que, de sua linhagem, descendiam reis francos.

O enredo revela mistura especulações de textos apócrifos, lendas como a do Santo Graal e segredos do Vaticano. Tudo bem amarrado, com dados históricos, arte, economia. A fórmula mágica para o sucesso, que realmente veio na forma de milhões de cópia de Código Da Vinci vendidas, filme, obras derivadas. Um belo exemplo de como a indústria cultural funciona.

Teorias da conspiração colam também por isso: elas têm cara de verdade. Uma teoria que dissesse, por exemplo, que os moradores de Bacurau encontraram uma forma de transformar caçadores brancos em servos zumbis não pegaria – no máximo viraria enredo de filme cult para o público que frequenta o Cine Cultura, na Praça Cívica, em Goiânia.

O vírus chinês

Seria pedir muito que o novo coronavírus, batizado Sars-CoV-2, ficasse dentro da caixinha dos cientistas, médicos, estatísticos, autoridades governamentais. Esse ser minúsculo é matéria-prima boa demais para os conspiracionistas. Além de causar morte e medo, sua origem é perfeita para quem enxerga conspiração em todo canto: surgiu na China, país comunista, provavelmente pelo manuseio de morcegos para consumo humano. E, com as novas ferramentas de comunicação, especialmente o WhatsApp, a propagação dessas histórias é mais rápida que a disseminação da doença.

A principal estória tendo o vírus como protagonista é de que ele foi desenvolvido em laboratório e espalhado pelo mundo. O objetivo dos chineses é enfraquecer as economias globais para depois comprar de empresas multinacionais em insolvência, ao mesmo tempo em que lucraria vendendo remédios e vacinas. Ou seja: os chineses não só criaram, como já têm o antídoto ao vírus mortal.

As “provas” são muitas. Circula no WhatsApp uma mensagem que compara os números da pandemia em centros como Xangai, Pequim e Hong Kong, muitos mais próximos ao foco inicial da Covid-19 que Milão, Madrid, Nova York e São Paulo. Outro “indício” de que tudo fora programado pelos malvados do Partido Comunista chinês – que, sim, tem responsabilidade no caso, ao esconder o surgimento da doença nova e qual era sua verdadeira extensão e ameaça – é que a doença já teria sido controlada por lá.

Teses mirabolantes

As teses são elaboradas meticulosamente, de forma a parecerem verídicas. Quem se informa apenas por redes sociais, especialmente o WhatsApp, tende a acreditar, porque os argumentos são convincentes. Ignoram, porém, que cientistas de todo o mundo têm em mãos o sequenciamento genético do Sars-CoV-2 e o compararam com outros da família dos coronavírus, atestando sua origem natural. Não se lembram – ou preferem não lembrar – que a Covid-19 matou milhares de chineses e que os números por lá devem ser ainda maiores, dado à falta de transparência do governo chinês.

Alguns segmentos religiosos enxergam na China a ponta-de-lança do Governo Mundial, globalista, único, central e autoritário. Uma mistura de profecias apocalípticas e geopolítica, escatologia bíblica e paranoia de direita.

Curiosamente, os chineses fazem hoje exatamente o que os norte-americanos fizeram desde o final da Segunda Grande Guerra: dominam economicamente os demais países. Naqueles tempos, eram eles os acusados de imperialismo – a novidade foi a pitada de religião colocada como tempero dessa discussão.

Cloroquina

A hidroxicloroquina e a cloroquina alimentam uma teoria da conspiração doméstica. A tese é de que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, se uniu a governadores que querem derrubar Jair Bolsonaro. Nesse enredo, que, como não poderia deixar de ser, inclui os tucanos como aqueles que mexem as peças nos bastidores, haveria um combate ao uso dos compostos para curar a Covid-19 para prejudicar o presidente, ferrenho defensor da aplicação delas como terapia. Tudo, obviamente, com vistas à eleição de 2022.

Ocorre que não existe veto algum à cloroquina e à hidroxicloroquina. Ao contrário, vários pesquisadores, do mundo todo, estão testando seus efeitos contra o coronavírus. No Brasil, centenas de pessoas serão submetidas ao tratamento.

O que está havendo é cautela por boa parte do meio científico e médico. A liberação de um medicamento costuma levar anos, pois é precedida de muitas fases, que começam com análises in vitro, testes em animais (quando necessário), testes de segurança, eficácia e, enfim, em grande escala, pois resultados em pequenos grupos podem não se confirmar em populações inteiras em vários continentes.

Resultados

No caso da hidroxicloroquina e da cloroquina, esse procedimento está sendo acelerado, diante da necessidade. Além desses compostos, vários outros estão sendo tentados, como antirretrovirais e combinações com antibióticos. A queima de etapas tem sido possível porque todos esses medicamentos já são utilizados. Portanto, os especialistas já têm conhecimento sobre como eles agem no organismo humano.

Ainda assim, é preciso um tempo razoável até que os resultados sejam conclusivos. Por enquanto, há indicadores positivos e outros nem tanto. A torcida de todos é que dessas análises saia a tão esperada cura.

Porém, a politização não deixa que os pesquisadores trabalhem em paz. De um lado, bolsonaristas querem o uso imediato da cloroquina e da hidroxicloroquina, como se elas fossem uma fórmula milagrosa. De outro, há que se reconhecer, existem adversários políticos torcendo pelo quanto pior, melhor. Nesses casos, é melhor deixar a ciência seguir seu fluxo – e ele está em processo acelerado.

Acreditar nessa conspiração contra Bolsonaro requer uma fé quase religiosa, pois seria preciso combinar com os russos, os franceses, os chineses, partes dos brasileiros. Nem os Illuminati, que são uma espécie de Ursal (a paranoia do candidato à Presidência Cabo Daciolo) de proporções planetárias, teria tanta influência para juntar tanta gente contra nosso Messias.

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