Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Com viadutos e mutirões, Iris é tão candidato quanto sempre

Prefeito aposta no mesmo receituário que marca sua trajetória política; resta saber se o eleitor ainda se convence com os mesmos argumentos

Iris Rezende no mutirão do fim de semana em Goiânia | Foto: Jornal Opção
Iris Rezende no mutirão do fim de semana em Goiânia | Foto: montagem

No dia 16 de outubro de 1983, Goiânia foi palco de um evento histórico. Naquele dia, o então governador Iris Rezende liderou uma mobilização jamais vista no País e, acompanhado de milhares de auxiliares e populares, construiu mil casas populares, inaugurando a primeira etapa da Vila Mutirão.

Trinta e seis anos depois, Iris Rezende segue o mesmo. Neste final de semana, realizou mais um mutirão, desta vez na região Oeste de Goiânia. Contudo, ao contrário daquele mítico dia, as atuais edições limitam-se a levar açoes que deveriam ser rotineiras: coleta de lixo, limpeza de ruas, pintura dos meios-fios, cuidados básicos de higiene (como corte de cabelo) e, em parceria com o Estado, emissão de documentos.

O anacronismo do modelo é um reflexo do próprio gestor. Hoje, o que se vê pelas ruas de Goiânia, o que se ouve das pessoas e o que emerge das pesquisas em mãos de políticos e marqueteiros é um desgaste jamais vistos na vitoriosa carreira política de mais de meio século.

Quando foi derrotado por Marconi Perillo em 1998, Iris não teve suas qualidades de gestor contestadas. O que havia era um cansaço por parte do eleitor, que não suportava mais ver as mesmas figurinhas carimbadas dando as cartas no Estado e clamava por mudanças.

Hoje, está em xeque a imagem de bom administrador de Iris Rezende. Os buracos nas ruas, as falhas na coleta de lixo no início do mandato, a crise na saúde e a interminável obra do BRT corroem a fama do emedebista. As pessoas começam a pensar se não é chegada a hora de mudar.

Abraços e apertos de mãos

Ainda assim, na cabeça do decano, sempre é possível ir um pouco mais adiante. E, ainda que negue, a pouco mais de um ano e meio para as próximas eleições, Iris Rezende é candidatíssimo.

Neste fim de semana, o emedebista fez o que gosta: tomou um banho de povo no Mutirão. Abraçou, apertou mãos, tirou fotos. Contudo, quem acompanhou de perto percebe que, ainda que uma certa aura ainda o acompanhe, o entusiasmo das pessoas não é mais o mesmo. O eleitor de Iris envelheceu.

Com dinheiro no bolso, Iris lançou uma de suas estratégias prediletas. Está, como diz o jargão, transformando Goiânia em um canteiro de obras. Viadutos começam a ser construídos na região Sul de Goiânia, uma tentativa clara de agradar a classe média.

Enquanto isso, crianças morrem por falta de atendimento médico – conta que deve ser dividida com o Estado. O problema nao é de hoje, mas todos os analistas confirmam que a situaçao piorou quando Iris acabou com o atendimento pediátrico na rede Cais e o concentrou no Cais Campinas.

Agora, a Prefeitura corre para refazer o que não deveria ter sido desfeito. Abriu chamamento para contratação de pediatras para distribuir nas unidades de saúde das diversas regiões da capital. Talvez sem querer, assim a secretária Fátima Mrué está assumindo que errou quando desmantelou o atendimento nessa especialidade. Até agora, poucos pediatras mostraram interesse nas vagas ofertadas.

Derrota do PSDB serve de alerta para o emedebista

Resta saber se a estratégia dará certo mais uma vez. O eleitor, se ainda não se desapegou totalmente de seus ícones políticos, está mais arisco. As redes sociais (ambiente desconhecido pelo emedebista) estão aí para refrescar a memória dos eleitores.

A última eleição estadual só fortalece essa tese. Mesmo com um bilionário pacote de obras nos últimos dois anos, o chamado Tempo Novo sucumbiu fragorosamente nas urnas.

As pesquisas internas mostram uma enorme rejeição ao prefeito. Tanto que os partidos se assanham com a possibilidade real de tomar o Paço Municipal das mãos do emedebista e os atores políticos apostam em uma quantidade recorde de candidatos.

Pessoas próximas a Iris acreditam que o seu recall histórico seja o suficiente para alcançar ao menos 20% dos votos, o que lhe garantiria uma vaga em um hipotético segundo turno. Os demais apostam que quem chegar a essa etapa teria amplas possibilidades de vitória.

Falta um ano e meio para as próximas eleições. Para ter algum efeito, o pacote de obras de Iris tem de funcionar como um relógio. Atrasos, nessa altura do campeonato, serão fatais. Para ele, cada dia pode não ser um a mais, mas um a menos para que chegue competitivo a outubro de 2020.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.