Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Com redes sociais, governantes não têm trégua

Tradicional prazo de 100 dias para presidentes, governadores e prefeitos mostrarem serviço não resiste à velocidade das mídias digitais

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Há na política algumas “leis” não escritas que se tornam vigentes a partir da repetição. Uma delas refere-se ao início dos mandatos no Poder Executivo: tradicionalmente, há uma espécie de armistício nos 100 primeiros dias após a posse de prefeitos, governadores e presidentes. Esse é um prazo que se costuma dar para que mostrem suas credenciais antes de maiores cobranças. Mesmo a imprensa, em suas análises, sempre ressalva, nesse período, que ainda há muito chão pela frente antes de vaticinar qualquer avaliação mais definitiva – no que está absolutamente certa.

Bom, as coisas já não são bem assim. A velocidade das redes sociais, onde os haters, se não são maioria, com certeza são os mais barulhentos, está aí para fazer tremer tudo o que era sólido. Sob esse clima, não há lua de mel que perdure – seja a das celebridades, invadidas ou se deixando invadir, ou a dos políticos, extremamente expostos à opinião pública. Se ainda é verdade que político só tem medo do povo na rua, para citar Ulysses Guimarães, no Twitter e no Facebook o povo causa certo calafrio na coluna.

Exemplo mais notório, até pelo cargo que ocupa, é o do presidente Jair Bolsonaro. Eleito com uma enorme força nas redes sociais (não tinha tempo na tevê e no rádio, não tinha coligação partidária forte, mas era vitaminado por milhões de voluntários e por impulsionamentos mal explicados), Bolsonaro hoje enfrenta nelas um grande burburinho. O sucesso financeiro do motorista Fabrício Queiroz (atípico, segundo o Coaf); as declarações e atitudes controversas dos ministros Damares Alves, Onyx Lorenzoni e Ricardo Vélez Rodríguez; e as peripécias de campanha do ministro Marcelo Álvaro Antônio ocupam o noticiário e ganham musculatura nas redes.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado também não teve tempo para usufruir dessa trégua dos 100 dias. É certo que o democrata assumiu um Estado com dificuldades financeiras – a folha de dezembro aberta, dívidas com fornecedores, prestadores de serviço, Organizações Sociais, etc. Mas as explicações, justificativas e medidas tomadas até agora, especialmente em relação ao salário atrasado, não acalmaram os ânimos do funcionalismo e reverberam na sociedade em geral.

Com a rapidez das redes sociais, as verdades são efêmeras. O político ungido nas urnas vê seu capital derreter rapidamente. O que era novo torna-se antigo na volatilidade de uma hashtag. Twitter, Facebook, WhatsApp e mídia tradicional retroalimentam-se e a insatisfação popular não mais hiberna por 100 dias.

Jair Bolsonaro ainda tem um exército de defensores virtuais – sejam eles pessoas de carne e osso (espécie obsoleta e em extinção), sejam robôs. E o clã Bolsonaro gosta do campo de batalha digital. Mas essa estrutura de defesa precisa de suporte para se armar e isso passa pela antiga agenda positiva. O pacote anticrime do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, apesar de não ser unanimidade, parece que caiu no gosto da maioria dos bolsonaristas.

No mais, eles usam as armas de sempre: críticas à imprensa, o combate aos “comunistas” e a pauta sobre costumes com viés conservador. O governo precisa engrenar, senão a munição não será suficiente para atravessar quatro anos de combate.

Já o governador Ronaldo Caiado não conta com tanta gente espontaneamente disposta a defendê-lo na arena digital, mas tem tempo de sobra para fazer um bom governo e reverter o desgaste do primeiro mês. Só que as boas notícias têm de começar logo, pois, na era das redes sociais, governantes não têm sequer um dia de trégua – que dirá 100.

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