Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Bolsonaro segue sem partido e aliados sem articulações

Briga interna no comando do Patriota pode levar o presidente a reconsiderar sua filiação,  fato que atrasa as negociações de apoio aos bolsonaristas que prometem segui-lo para uma outra legenda

O comando do Patriota sempre foi pautado por uma guerra interna, mas os conflitos ganharam um novo elemento a partir das negociações para filiação da família Bolsonaro. Os embates ganharam contornos que podem afastar o presidente da sigla e adiar as articulações que seus aliados também anseiam – já com os olhos em 2022.

A convenção Nacional do Patriota decidiu, por unanimidade, afastar o presidente da sigla, Adilson Barroso, por 90 dias -o que pode complicar a pretensão de Jair Bolsonaro de se lançar à reeleição pelo partido. Isso porque Barroso foi afastado justamente por promover mudanças e negociar individualmente a filiação do clã Bolsonaro, sem ouvir a maioria dos dirigentes do diretório nacional.

A articulação de Bolsonaro para se filiar ao Patriota e controlar diretórios estratégicos deflagrou uma guerra entre correligionários. Barroso, por exemplo, já promoveu duas convenções com o objetivo de abrir caminho para a filiação de Bolsonaro, mas uma ala contesta a validade dos encontros. O desconforto pode ser sentido também em Goiás. O presidente da sigla no estado, Jorcelino Braga, acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra mudanças feitas pela direção nacional.

Desde que deixou o PSL, em novembro de 2019, Jair Bolsonaro procura uma sigla para abrigar sua candidatura a um novo mandato, em 2022. Tentou montar o Aliança pelo Brasil, mas a empreitada não deu certo. O Patriota surgiu como sua melhor opção. Em reunião com seu grupo no PSL, ele  chegou a afirmar que estava “a meio caminho andado” da filiação. Mas depois disso, o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), que foi o primeiro a se filiar ao Patriota, apontou que as brigas internas são “desrespeitosas”, indicando que há um incômodo que pode deixar o presidente sem partido por mais tempo.

A briga revela a Bolsonaro que ele não terá tão facilmente no Patriota o que teve no PSL de 2018, ou seja, o controle, mesmo que seja de um partido pequeno. O presidente, sua família e aliados vislumbram a filiação em um partido que lhes dê poderes de financeiros e ideológicos. São pontos fundamentais para a reeleição de Bolsonaro: o fundo partidário, fornecido aos partidos para fazerem campanha de filiação, formação política, material de divulgação do partido, será importante para o intento do presidente. Também tem o fundo eleitoral, que financiará as campanhas de candidatos a governador, deputado, senador e do próprio presidente da República. 

Apesar de ser um partido pequeno e com poucos eleitos, até abril de 2021, segundo dados do TSE, o Patriota havia recebido quase R$ 7,5 milhões do Fundo Partidário. Em 2020, esse montante ficou em cerca de R$ 21 milhões. Além disso, o partido ainda recebeu R$ 27,48 milhões do Fundo Eleitoral, utilizado para bancar os candidatos nas eleições municipais de 2020.

A família Bolsonaro deseja assumir um partido para que também possa liderar as ações ideológicas, como a doutrina conservadora cristã e a valorização da pátria – discursos que lhes garantem a sintonia com os eleitores bolsonaristas. Tendo um partido para chamar de seu, o presidente poderá negociar alianças, base de apoio, trabalhar pelos palanques nos estados e já começar a calcular seu tempo de propaganda no rádio e TV.

As condições que a família Bolsonaro deseja impor para a filiação do grupo passa por negociações, ou, como mesmo diz o presidente, é um namoro para depois vir o casamento. Entretanto, quando o relacionamento entre os bolsonaristas e o Patriota esfria, os adversários avançam em suas ações partidárias.

A indefinição de Bolsonaro acaba por travar articulações locais de congressistas que pretendem seguir os passos do presidente e se filiar ao mesmo partido que ele. Em Goiás, é esperado, ocorrendo a filiação ao Patriota, do deputado federal Major Vitor Hugo é cotado para assumir o comando regional. Não só isso, já há um movimento para lançá-lo candidato ao governo do Estado. 

Quem também o aguarda a definição do presidente com certa ansiedade é o deputado federal por Goiás, Fábio Sousa (PSDB). Ele que já confirmou que seguirá o Bolsonaro para o partido que ele for, também necessita de iniciar suas articulações, trabalhar suas bases e calcular sua chances de ser reeleito à Câmara Federal –  situação que preocupa ainda mais ao considerar que, caso não alterem as regras, não há coligações para disputas proporcionais. 

O deputado estadual Paulo Trabalho (PSL) também aguarda a filiação do presidente. Embora não externe, possivelmente o parlamentar tenha alguma preocupação, pois seus possíveis adversários já estão articulando junto a seus partidos suas candidaturas e os apoios que terão.

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