Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Bolsonaro promete um Ministério de técnicos, mas não gosta de ouvi-los

Ministro da Saúde, Mandetta teve de engolir um pronunciamento à nação que contraria boa parte do que tem feito até agora para conter o novo coronavírus

Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro em live no Facebook | Foto: Reprodução/Internet

Uma das principais bandeiras do presidente Jair Bolsonaro, quando ainda era candidato, é que montaria um ministério de técnicos, sem conchavos políticos. À parte o fato de que tal promessa beira o impossível, já que governar é dividir o poder, há nomes na equipe de governo que têm, sim, esse perfil. São os casos, por exemplo, do ministro Tarcísio Gomes (Infraestrutura), da ministra Tereza Cristina (Agricultura), do ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e do ministro Paulo Guedes (Economia).

É possível discordar do trabalho de cada um. É verdadeiro que nenhum deles deixa de ter, também, atuação política (é da natureza dos governos). Mas é inegável que cada um tem expertise em suas áreas respectivas.

Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, entra nesse time – e, com a pandemia do novo coronavírus, tem se mostrado de primeira linha. É médico ortopedista, foi deputado federal. Portanto, une o conhecimento técnico com o político. Sabedor de que infectologia e virologia não são suas especialidades, cercou-se de especialistas no assunto e traçou uma estratégia até aqui digna de elogios.

O problema é que Bolsonaro não gosta de ouvir seus próprios técnicos. Para elaborar o esperado pronunciamento à nação, na terça-feira, 24, preferiu ouvir o filho, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, conforme foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo. O resultado foi uma fala cheia de furos, que contradiz as próprias orientações de Mandetta.

O governo não pode se fiar na tese de que basta reabrir o comércio e fechar os idosos que tudo está resolvido. A crise econômica que veio como efeito colateral da Covid-19 será dura e longa. Bolsonaro tem de confiar em seus técnicos para encontrar uma forma de atravessá-la com o menor estrago possível. Deve ouvi-los ao invés de se basear no senso comum. Caso contrário, não era preciso nomeá-los.

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