Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Bolsonaro e Crivella dão um passo adiante na briga com a imprensa

A relação entre os presidentes brasileiros pós-redemocratização com os jornais foi cheia de ruídos, mas o atual presidente e o prefeito do Rio tomam medidas perigosas

Granma, Pravda e o Völkischer: jornais controlados por governos ditatoriais

No manual de comportamento do ditador, um dos itens principais é controlar a imprensa. Nenhuma ditadura prescinde de calar as vozes dissonantes – e muitas delas fizeram questão de ter seus próprios veículos, para ter uma plataforma de propaganda do regime de plantão. Na União Soviética, o Pravda foi transformado no órgão oficial do Partido Comunista. Em Cuba, esse papel coube ao Granma. Na Alemanha, o Observador Nacional, principal jornal do Partido Nazista, chegou a mais de 1 milhão de cópias diárias.
Em 1964, boa parte da imprensa hegemônica brasileira chegou a apoiar o golpe civil-militar. Só não contavam que a caça aos “comunistas” da imprensa seria endurecida vigorosamente, especialmente pós Ato Institucional 5 (aquele que anda provocando saudosismo em algumas pessoas). Ainda assim, o regime brasileiro nunca teve um veículo para chamar de seu (ao menos não no sentido literal).
Contudo, não são apenas os regimes ditatoriais que vivem às turras com jornais (numa acepção bem ampla, que extrapola os limites do papel). Mesmo governos ditos democráticos têm dificuldade de convivência com a imprensa livre. Porém, sem os mecanismos que só as ditaduras escancaradas – roubando um termo do Gaspari – fornecem, restam a eles outras medidas, que não deixam de revelar traços de autoritarismo. Ou, em uma análise mais benevolente, a dificuldade de lidar com o contraditório.
Primeiro candidato eleito presidente após a redemocratização, Fernando Collor de Mello estaria por trás de um fato obscuro pouco mais de uma semana após assumir o cargo. É atribuída a ele a autorização para que a Polícia Federal invadisse a sede da Folha de S. Paulo em março de 1990, para averiguação de possíveis fraudes fiscais – caso que foi arquivado pela própria PF meses mais tarde.
Fernando Henrique Cardoso, com toda sua postura aristocrática, não deixou de fazer suas queixas em seus “Diários da Presidência”. Sobraram farpas direcionadas a Carlos Heitor Cony, Janio de Freitas, Clóvis Rossi e outros. FHC deixa escorrer a bílis em relação a Elio Gaspari, a quem atribuía a alcunha de perseguidor.
Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom em relação ao seu antecessor. Ficaram notórias as críticas do petista aos veículos de comunicação, que, segundo ele, são as vozes das elites contra o legítimo representante do povo – ele próprio. Embriagado por uma imensa aprovação popular, o ex-presidente idealizou o Conselho Federal de Jornalismo, que teria o poder de “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício profissional. Uma armadilha disfarçada de boas intenções.
Primeira mulher a ser eleita presidenta, Dilma Rousseff talvez tenha sido a que mais apanhou dos jornalistas – que focaram suas críticas nas características pessoais (a notória dificuldade de falar em público) e não apenas nas suas ações como gestora – na história recente. Um post publicado na quinta-feira, 5, mostra que ela carregou essa mágoa consigo. No Twitter, a petista comparou o tempo dedicado pela Globo a denúncias contra ela, em 2017, ao noticiário sobre sua absolvição, na quarta-feira, 4.
Os entreveros entre ocupantes de cargos do mais alto escalão da república, obviamente, não são privilégio dos presidentes e jornalistas brasileiros. Na vizinha Argentina, Cristina Kirchner travou um duelo ferrenho com grupos de mídia locais, especialmente o Clarín, o maior deles. A ex-presidente editou, inclusive, uma lei para regular o setor com caráter autoritário indisfarçável.
É famosa a frase de Thomas Jefferson, anos antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, em que ele diz: “Se me fosse deixada a decisão sobre se deveríamos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir o último”. No cargo, duas décadas mais tarde, ele havia mudado de ideia. “Não se pode acreditar em nada que seja visto em um jornal”, escreveu, a respeito de denúncias que vinham da imprensa.
Ocorre que os ruídos entre o jornalismo e os mandatários brasileiros têm seguido dentro de parâmetros relativamente aceitáveis. Murmurações à parte, nenhum deles tomou medidas sequer semelhantes às de Kirchner, por exemplo. E se mantiveram muito distantes de seus pares ditadores. Até agora, ao menos.
O atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), deram, nos últimos dias, alguns passos adiante nessa relação conturbada. Como diria o eterno candidato José Maria Eymael, os dois emitiram sinais, fortes sinais.
Apesar de, muitas vezes, apelar para a grosseria, durante muito tempo Bolsonaro havia se limitado ao sagrado direito de criticar. Contudo, quando um veículo, a Folha de S. Paulo, é deliberadamente excluído de uma licitação governamental, por exclusivo desejo do mandatário, a situação muda bastante. O ex-capitão, dessa forma, ignoraria o princípio de impessoalidade que é indissociável do exercício de cargo público. Felizmente, voltou atrás.
O mesmo ocorre quando determina a retirada de anúncios oficiais de um veículo, ignorando a chamada mídia técnica, que leva em consideração o alcance de cada um como critério de distribuição da publicidade oficial.
Crivella, por seu lado, declarou guerra ao jornal O Globo. Nos últimos dias, proibiu jornalistas do veículo de participarem de uma entrevista coletiva. Em solidariedade aos colegas, profissionais da Globo, Globonews, G1 e CBN, todos do mesmo grupo, deixaram o local. Não cabe, obviamente, a um prefeito barrar jornalistas de um evento público. Se quiser, Crivella pode convidar veículos para entrevistas reservadas.
A série The Crown, disponível na Netflix, é didática nesse sentido: por mais poder que tenha em mãos, a rainha Elizabeth II é constantemente lembrada de que mesmo uma monarca não pode fazer tudo o que quer. Simples assim. Em uma república, então, esses limites são ainda mais claros – ou deveriam ser.
Nas redes sociais, atitudes assim ganham aplauso fácil de convertidos e são potencializadas por robôs. Não sabem esses apoiadores o risco que é ter governantes e não ter uma imprensa livre. Quando jornais só publicam o que prefeitos, governadores e presidentes querem ler, deixam de cumprir sua função social. l

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