Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Bolsonaro deseja usar RRF como moeda de troca para 2022

Para forçar apoio de Ronaldo Caiado, presidente ameaça atrasar renegociação de dívidas do Estado

“Jair Messias Bolsonaro iniciou uma transmissão ao vivo”. Esse é o alerta que todo seguidor do presidente recebe em seus celulares durante as noites de quinta-feira. As lives são uma maneira dele assumir o controle da comunicação, passar recados, criticar ou rebater adversários e reportagens. Em geral essas transmissões servem para plantar polêmicas, mas do ponto de vista político sempre querem dizer mais do que o reduzido vocabulário do presidente deixa transparecer. 

Entre as estratégias das lives de Bolsonaro, duas estão bem delineadas. A primeira é se eximir de responsabilidades que o governante tem. É recorrente o uso do “a culpa não é minha”. E em um período complicado para o governo, com problemas na economia, uma pandemia ainda em andamento e a popularidade em baixa a menos de um ano da eleição, o presidente tem procurado empurrar suas responsabilidades para outros. A outra estratégia é  “jogar para a plateia”, ou seja, falar aquilo que o público quer ouvir, sem muita preocupação com as consequências, mas mirando resultados eleitoreiros

Pois, falando em inconsequência, na última semana houve mais dessas falas que têm mais interesse em garantir os votos daqueles que ainda o apoiam, do que de fato buscar soluções para um Brasil que segue uma sequência de desconcerto, sendo levado para o rumo das incertezas. Mais uma vez o presidente tenta se colocar no jogo político em Goiás, mas de forma a fazer de ato de gestão, em um sequestro de apoio político.

O alvo é o Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Goiás pleiteia ser beneficiado com a renegociação das dívidas do Estado desde 2019. Ainda no primeiro semestre deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) votou de forma unânime a adesão ao plano de recuperação, uma demonstração de que Goiás apresentou todas as exigências e se credenciou para o benefício. Na última quarta-feira, 14, houve um passo importante, o ministro da Economia, Paulo Guedes, assinou o Plano RRF goiano. chegou a ligar para o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) para dar a notícia e dizer que o Estado foi o único a conseguir o ingresso até o momento. Mas para concluir esse processo há necessidade de aprovação do próprio presidente. E segundo ele, isso não vai ser feito de forma técnica, mas de maneira política. 

Na sua live de quinta-feira, disse que vai “esperar um pouco mais” para “tomar conhecimento do assunto e então dar prosseguimento a esse pedido do governador de Goiás”. O tom usado pelo presidente é de que o ato será político e que isso precisa estar relacionado a apoios para 2022. 

Ultimamente, todos os discursos e falas de Bolsonaro caminham para uma única conclusão: todos os problemas nasceram nas medidas de distanciamento social para conter a Covid-19. O presidente conseguiu comparar o lockdown com a tragédia das enchentes no sul da Bahia. Não foi diferente ao tratar do RRF goiano “Estamos sofrendo as consequências na economia e lá atrás vocês lembram quando muitos governadores, prefeitos e o povo também falavam ‘fique em casa, a economia a gente vê depois’. Bem, está chegando aí a questão da economia. É uma situação no mundo todo, entre outros problemas. Mas tem estados, como Goiás, que está numa situação complicada financeira. Fique em casa e a economia a gente vê depois e daí o estado pede uma recuperação fiscal, que passa por uma assinatura minha”,  argumentou o presidente.

A fala de Bolsonaro é claramente motivada por 2022, tanto é, que encontrou ressonância em seu aliado e possível candidato bolsonarista em Goiás, o deputado major Vitor Hugo. O parlamentar, que estava ao lado do presidente durante a live, teceu críticas ao governador Ronaldo Caiado. Cobrou pelo leilão do saneamento para entrada de capital privado no setor e voltou a falar na redução do ICMS sobre os combustíveis.

O deputado bolsonarista encontra na fala do presidente uma onda para surfar seu desejo de concretizar a candidatura ao governo. Entretanto, ainda não conseguiu se viabilizar em pesquisas e apoios. E as ameaças de Bolsonaro em “atrasar” o RRF goiano não visam minar o governo de Ronaldo Caiado e atrapalhar seu projeto de reeleição. Mas, do modo deturpado que o presidente costuma lidar com suas gestão e política, suas palavras dão o tom de que ele tenta forçar uma moeda de troca para ganhar o apoio ou neutralidade no palanque de Caiado. 

O que Bolsonaro precisa pesar em sua balança política, é que o RRF não é uma cortesia da União para o Estado. Sem renegociar suas dívidas, Goiás não consegue honrar suas responsabilidades fiscais, perde poder de investimentos em pontos estratégicos – como social, saúde, segurança e geração de emprego. Quem pagará mais caro pela estratégia presidencial de buscar apoios em Goiás serão os pobres, que a cada dia mais precisam da presença e investimento público para subsistir.

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