Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Biden, vacina e eleições municipais antecipam pleito de 2022

O que a derrota de Trump, a pandemia e o resultado das urnas neste domingo sinalizam para corrida presidencial?

Sempre soubemos que o ano de 2020 seria fundamental para a eleição presidencial em 2022. Mas fomos um pouco além e conseguimos incluir ingredientes que fazem dessa antecipação eleitoral ainda mais significativa. Biden, vacina para Covid e o resultado das eleições deste domingo, 15, são temas que tem peso na balança do pleito que ocorrerá daqui a quase dois anos.

Embora ainda estejamos no calor das eleições municipais, estamos falando do pleito que deverá ocorrer só em outubro de 2022. Essa antecipação é posta não só pelo presidente Jair Bolsonaro (Sem partido)  – que sempre que tem uma brecha em seus discursos ou lives reforça o desejo da reeleição. O tema é posto também pela movimentação de nomes que podem fazer frente a Bolsonaro. 

A teimosia do republicano Donald Trump não permitiu ainda que ele reconhecesse à a vitória do democrata Joe Biden na corrida presidencial americana, mas isso é um mero detalhe, pois por aqui sua vitória já movimentou as articulações para 2022. Entre políticos e eleitores (de um extremo ao outro) a pergunta mais repetida na última semana foi: quem será o Biden brasileiro?  

O alinhamento quase servil de Bolsonaro ao Trump, faz a derrota de republicado parecer um revés político ao nosso presidente. E de fato não o deixar de ser. Há uma identificação ideológica e clara lealdade entre eles, que pode até ter sido positivo politicamente dentro do espectro bolsonarista. Mas se finda em janeiro de 2021. E então o Brasil pode passar a pagar um preço alto no momento em que Biden assumir a Casa Branca. Falo aqui das relações e diplomacia que Bolsonaro já manifestou que não deseja ter com o democrata (chegando a citar o uso de pólvora). A questão ambiental no Brasil, principalmente na Amazônica, pode ser o ínicio de um cabo de “guerra” com os EUA, que fatalmente resultará no enfraquecimento político e administrativo de Bolsonaro – os reflexos veremos nas urnas em 2022.

Outro impacto que a vitória de Biden causa em nosso cenário político é o incentivo aos que acreditam que possam surfar nessa onda que a eleição norte-americana provocou. Nomes que se colocam como de centro/ direita já se adiantam nas costuras para formar uma ampla oposição a Bolsonaro no enfrentamento que ocorrerá daqui um ano e 11 meses.

O encontro do apresentador Luciano Huck com o ex-ministro da Justiça Sergio Moro ilustra bem o encorajamento que a eleição norte-americana deu a possíveis candidatos em 2022. O global reagiu rapidamente a vitória de Biden e logo mandou seus cumprimentos pelas redes sociais. Um aceno na busca de um apoio bem interessante para a disputa presidencial no Brasil. É cedo para dizer que a aliança entre o apresentador e o ex-ministro pode mesmo ter força que se sustente até as próximas  eleições, mas não deixa de ser uma antecipação de 2022.

A corrida pela vacina contra Covid-19 tem efeitos parecidos com o resultado da corrida das eleições norte-americanas. A CoronaVac, produzido em parceria entre laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan, é defendida pelo governador tucano João Doria, mas recebe constantes vetos do presidente Bolsonaro. Essa briga não é de fato sobre a imunização contra a doença, e sim sobre a porta que ela abre para 2022. 

Permitir que Doria avance livremente com a vacina é dar palanque ao governador paulista que também mira chegar ao Palácio do Planalto já nas próximas eleições. Essa guerra entre governo paulista e Bolsonaro, que tem no meio uma vacina tão aguardada é na verdade uma briga pelo protagonismo. Isso é evidentemente exposto nas falas do presidente que trata o imunizante como  “a vacina chinesa de João Doria”.

“Vetar” a compra da CoronaVac pelo Ministério da Saúde e apresentar críticas a vacina também é uma forma de Bolsonaro agradar ao seu eleitorado raiz. Não é segredo que o presidente trabalha para reforçar e manter o apoio de sua militância fiel. Manter esse grupo engajado dá a ele a sensação que pode repetir 2018.

Doria também trata a CoronaVac como uma vacina política. Sabendo que não contará com o Governo Federal para comprar as doses, ele já trabalha meios para conseguir financiar as doses com recursos do Estado e vender a outros. Para isso ele aposta que a vacina será a primeira a corresponder a todos os protocolos, o que garantiria ao tucano uma reparação a sua imagem que foi afetada pelos protocolos de isolamento que não agradou boa parte do eleitorado paulista. A vacina também daria ao governador palanque, discurso e exposição nacional na medida certa para lhe cacifá-lo a opositor de Bolsonaro nas eleições de 2022.

Por último,  o resultado das eleições municipais terão sua influência na eleição presidencial que está por vir. Esse é um fator que já consta nos cálculos tanto do presidente Bolsonaro, quanto de seus possíveis adversários.

O que se desenha como resultado nas principais capitais do País gera alerta aos bolsonaristas. O presidente não foi um bom cabo eleitoral. Das três mais importantes disputas a prefeito, Bruno Engler (PRTB), Marcelo Crivella e Celso Russomanno (Republicanos), respectivamente de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, ele não conseguiu transferir sua popularidade.

O cenário não aponta que haja grande renovação, pelo contrário, os nomes que podem ganhar no Rio de Janeiro e São Paulo, indicam que irão fortalecer a oposição ao presidente. O tucano Bruno Covas pode sair vencendo em São Paulo. Ponto para João Dória. Eduardo Paes, do Democratas, deve levar a melhor nas urnas cariocas, garantindo força ao presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia. Mesmo que não haja uma ampla frente montada para enfrentar Bolsonaro em 2022, a vitória dos dois candidatos nas duas principais capitais do País não representam apoio algum ao presidente. Pelo contrário. Não ter apoio dos prefeitos nos dois maiores colégios eleitorais significa, em outras palavras, não ter palanque nestas cidades em 2022.

Vale lembrar que Bolsonaro segue sem partido o que pode representar hoje uma fragilidade, mas uma futura filiação pode mudar algo no jogo.

Ainda não podemos deixar de pontuar o pagamento do auxílio emergencial, que deu uma perspectiva nova a Bolsonaro com relação a 2022. Sua popularidade aumentou significativamente. Em recente declaração, o marqueteiro João Santana chamou a atenção para essa guinada de Bolsonaro, que, segundo ele, “quer deixar de ser o herói moral para ser o herói social.” Mas até quando os cofres do ministro Paulo Guedes conseguiram pagar o auxílio? Quando os recursos cessarem o impacto será sentido de longe –  diria que com a distância de uma eleição presidencial. 

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