Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Ao brigar com o Congresso, Bolsonaro repete Dilma e Collor

Há quem diga que ele não aceita o “toma l,á dá cá”, mas o diálogo com o parlamento faz parte dos sistemas republicanos em todos os cantos do mundo

Montagem com fotos da Agência Brasil, Isac Nóbrega (PR) e Jefferson Ruddy (AS)

A história recente brasileira tem exemplos de presidentes que não se relacionaram bem com o Congresso. Sabemos como terminaram os mandatos de Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff. Vaticinar qual será o desenrolar do mandato de Jair Bolsonaro nos próximos três anos e dois meses e meio é um exercício de futurologia, mas os movimentos do presidente mostram que ele, definitivamente, não tem a mínima vocação ao diálogo com os parlamentares.

O que é intrigante, pois Bolsonaro tem quase três décadas de Câmara dos Deputados. Os três filhos mais velhos (Flávio, Eduardo e Carlos) constroem carreiras no parlamento. A palavra tem origem no francês parlement, cujo significado é “falar, dialogar”, que, por sua vez, vem do latim parolare. Ou seja, é por meio da conversa que os membros dos legislativos, no mundo todo, se entendem – ou se desentendem.

Bolsonaro foi um parlamentar, digamos, discreto. Em seus vários mandatos, passou a maior parte do tempo despercebido para a maior parte do país. Certamente deve ter tido uma atuação que atendia as expectativas de seus eleitores, caso contrário não teria sido reeleito consecutivamente.

Hoje, Bolsonaro não é mais um simples parlamentar. É o presidente da República. E o sistema político brasileiro é presidencialista no papel, na prática, vigora uma espécie de parlamentarismo tupiniquim. Não se governa sem o Congresso.

Há quem diga que essa distensão seja fruto da recursa do presidente em fazer o toma lá, dá cá. Essa tese carece de comprovação. Mas dialogar e negociar com a Câmara dos Deputados e o Senado não significam, necessariamente, aderir ao troca-troca. Todas as repúblicas funcionam assim.

Veja-se o exemplo da reforma da Previdência: foram deputados e senadores que preservaram alguns direitos do trabalhador mais pobre, como o benefício de prestação continuada, e que impediram perdas maiores para os professores na questão da idade mínima.

Nos últimos dias, o ruído na relação do presidente com o Congresso teve novo capítulo, com a crise instalada dentro do PSL, partido de Bolsonaro. Caso se concretize a ruptura, ele irá se filiar à décima legenda desde que obteve o primeiro mandato de vereador no Rio de Janeiro.

Cada vez mais o presidente se fecha em um grupo restrito formado por pessoas que ele tem estrita confiança – incluídos os filhos. Caso saia do PSL, estima-se que será seguido por 30 parlamentares. Assim, a base bolsonaristas vai se enfraquecendo. E os fantasmas voltam a assombrar.

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