Cezar Santos
Cezar Santos

Agora, Temer tem de mostrar serviço

Presidente de fato — e de direito, é bom reforçar —, o peemedebista deverá fazer o que se espera dele: acertar a governabilidade que Dilma tinha perdido

Michel Temer, presidente do Brasil: é preciso ter sucesso rapidamente na recuperação da economia | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Michel Temer, presidente do Brasil: é preciso ter sucesso rapidamente na recuperação da economia | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O maior problema de Michel Temer é o ex­cesso de expectativa que muitos nutrem em relação ao seu desempenho na cadeira de presidente. Há quem queira que Temer faça o que os presidentes petistas Lula da Silva e Dilma Rousseff não fizeram em 13 anos de mandatos, como as reformas. Entre os que têm essa expectativa exagerada estão os próprios petistas, que, naturalmente sabem ser uma missão impossível, mas cobram porque assim têm uma bandeira para criticar.

O afastamento em definitivo de Dilma Rousseff era um imperativo para que Temer pudesse governar de fato. A interinidade deixava o peemedebista com o “freio de mão” puxado. Temer era, mas não era presidente. Agora, não, ele é presidente e como tal deve liderar o processo político, para o que contará com uma base ampla.

Mas o problema é justamente essa base, que por ser tão ampla, tem também uma gama infinita de interesses, cujo atendimento, na maioria das vezes, não coincide com os interesses públicos. E a votação do impeachment de Dilma Rousseff mostrou que a divisão da base, principalmente no próprio partido do presidente, continuará ou será ainda mais profunda daqui em diante.

Por causa do fatiamento do processo de impeachment, que livrou Dilma de perder os direitos políticos, o PSDB e o DEM ameaçam deixar a barca governista, o que seria simplesmente trágico para a governabilidade de Michel Temer. Recompor sua base é a principal missão no campo político para o novo presidente. E isso terá de ser feito rapidamente, porque quanto mais demorar, mais a crise se agrava.

Mas há desafios mais “nobres”, digamos assim, para Michel Temer resolver. Lembrando que em seu primeiro pronunciamento na condição de presidente interino, Michel Temer pregou o diálogo e a união do povo brasileiro e de todos os poderes para garantir a governabilidade. Foi a parte institucional da fala. Mas já no primeiro dia de interinidade, ele estabeleceu quatro prioridades para seu governo, que continuam válidas: recuperar a economia; restaurar a relação com o Congresso; equilibrar a relação entre União e estado; e mudar a cultura política do país.

O imbróglio com os partidos por conta do fatiamento do im­peachment se insere na segunda prioridade — restaurar a relação com o Congresso, o que significa dizer equilibrar o atendimento dos interesses partidários e privados dos parlamentares —, mas as outras três são as que verdadeiramente farão o Brasil melhorar.

Especialistas consideram que o item contas públicas é o principal desafio do governo Michel Temer. Ajuste fiscal é o nome da coisa. O presidente precisa mostrar que o Brasil voltará a ser capaz de gastar menos do que arrecada e de reduzir a dívida pú­blica. A economia tem dado sinais de início de recuperação, mas a um ritmo ainda muito lento.

Então, a sinalização de controle de gastos precisa ser rápida, para recuperar um pouco da confiança do mercado financeiro e animar investidores que hoje estão em compasso de espera por causa das turbulências na política. Ponto a favor é que Henrique Meirelles é um nome bem aceito pelo mercado.

Os economistas apontam que o principal ajuste nas despesas do governo precisa ser feito na Previdência Social que, junto com benefícios assistenciais, consome mais de 50% dos gastos primários da União. Henrique Meirelles tem defendido a reforma da Pre­vidência e a fixação de um teto para os gastos públicos.

A necessidade de revisão das regras previdenciárias é praticamente consenso, mas muitos parlamentares são refratários a aprovar mudança que seja considerada “prejudicial” aos trabalhadores. Aí, não se pode esquecer que o PT, que não deixou nem Dilma mexer nas regras da Previdência, vai infernizar Temer. O novo presidente terá problema também com parte de sua base de apoio ligada às centrais sindicais.

Outro desafio do peemedebista será equalizar os programas sociais com o corte de despesas que precisa ser feito na máquina pública. Para rebater a acusação dos petistas de que ele, Temer, acabaria com as conquistas sociais do PT, especialmente os programas de inclusão como o Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, o presidente até aumentou o valor do Bolsa. O desafio será achar o equilíbrio nessa equação.

O trabalho de Michel Temer será dificultado pelas circunstâncias mesmas de sua posse. Presidente sem voto (mesmo legitimado após um processo de impedimento legal e constitucional) e com rejeição, ele enfrentará como principal antagonista a esquerda mobilizada nas ruas pelo discurso de que Dilma Rousseff teria sofrido um golpe com o impeachment.

Temer terá de ter sucesso rapidamente na recuperação da economia. Quanto mais demorar, mais combustível ele dará aos inconformados pela derrota de Dilma, que numa bravata, certamente pensando que possui uma liderança que na verdade não tem, já avisou: “fará a mais firme, incansável e enérgica oposição ao governo”.

Se não conseguir um rápido êxito, mesmo que parcial, na recuperação da economia, Temer ficará fragilizado diante de movimentos sociais, oposicionistas no Congresso e toda a resistência que possivelmente será comandada pelo ex-presidente Lula.

Kátia Abreu se expõe ao ridículo

Senadora Kátia Abreu “esqueceu” que Dilma Rousseff guarda dinheiro em casa

Senadora Kátia Abreu “esqueceu” que Dilma Rousseff guarda dinheiro em casa

Há pessoas que não medem o nível de ridículo a que se expõem. A senadora peemedebista Kátia Abreu é uma dessas. Na sessão de votação do impeachment de Dilma Rousseff, em que Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski estupraram a Consti­tui­ção para livrar a ex-presidente da per­da dos direitos políticos, a senadora discursou em defesa da impedida.

Kátia Abreu fez uma revelação “dramática” ao defender a tese de que Dilma Rousseff não deveria ser inabilitada para o serviço público: segundo ela, a presidente que sofreu impeachment lhe deu autorização para revelar que já fez as contas, e que deverá receber cerca de R$ 5 mil pedindo sua aposentadoria pelo fator previdenciário.

A senadora deu a entender que era pouco dinheiro, e que Dilma não conseguiria viver com essa aposentadoria. Kátia Abreu sabe que não é bem assim e que Dilma tem grana sobrando em algum lugar que lhe permitirá viver bem. Como observou o jornalista Augusto Nunes, a senadora, por certo, não se esqueceu que em julho de 2014, Dilma confessou que guardava em casa R$ 152 mil.

Nunes levanta outra indagação pertinente: “por que a latifundiária Kátia Abreu desperdiçou a chance de contratar uma supergerente desempregada para administrar suas muitas fazendas no Tocantins? Talvez por desconfiar que, em apenas cinco anos, o império rural ficaria parecido com o país destruído pelo poste que Lula fabricou.”

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