Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Adelita dá um rosto à pandemia de Covid-19 em Goiás

À medida que aumentam os casos e as mortes em decorrência do novo coronavírus, a doença que era apresentada em números se torna mais real e assustadora

Poucos dias antes de morrer, Adelita postou mensagem para que todos permaneçam em casa

As coisas aconteceram rapidamente para Adelita Ribeiro. Técnica de enfermagem, no dia 27 de março, trabalhou normalmente – era servidores do Centro de Atenção Integrada à Saúde (Cais) do Jardim Novo Mundo, na Região Leste de Goiânia, e no Hemolabor, no Setor Oeste, Região Central da capital. Três dias depois, voltou ao trabalho, mas sentiu-se mal e foi internada no próprio local. Mais cinco dias e foi sepultada em Goianápolis, sem cerimônia, acompanhada pelos pais a uma distância de 20 metros.

Vítima da Covid-19, que já fez mais de 400 mortes no Brasil e mais de 65 mil em todo o mundo – de acordo com os números da Universidade Johns Hopkins neste sábado, 4 -, Adelita faz parte do grupo que começa a dar nome e história para a tragédia. Com cada vez mais vítimas, a pandemia fica mais próxima de todos. Os números, agora, têm rostos.

O mundo contemporâneo não conhece inimigo tão assustador. Invisível, o Sars-CoV-2, membro mais novo da família dos coronavírus, amontoa cadáveres em todos os cantos do planeta. Ironicamente, começou na locomotiva econômica do planeta, a China, e encontrou lugar nas grandes potências ocidentais, como Itália, Espanha, Estados Unidos. O adversário de dimensões microscópicas coloca de joelhos os líderes mundiais.

Um a um, Giusepe Conti, Pedro Sánchez, Emmanuel Macron, Boris Johnson, Donald Trump foram sucumbindo diante da escalada da Covid-19. Em comum, todos subestimaram a força do vírus e depois tiveram de se curvar – com milhares de cadáveres em suas nações. Paralelamente à contabilidade dos mortos, as grandes economias planetárias calculam os prejuízos, que, a se confirmarem as previsões de economistas em todos os quatro cantos do globo, serão os piores desde a grande recessão da década de 1930.

Antes de Adelita, duas mortes provocadas pela Covid-19 haviam sido confirmadas em Goiás. O que diferencia o caso da técnica de enfermagem é que ela foge das características identificadas como complicadoras para a doença. Ela não tinha diabetes, hipertensão, doenças coronárias, nem tinha mais de 60 anos de idade. Porém, fazia parte da linha de frente do combate à Covid-19, por ser uma profissional da saúde.

A morte da técnica de enfermagem destrói a convicção de quem considera a Covid-19 inofensiva para jovens com saúde perfeita. Há vários exemplos no Brasil e no mundo que corroem essa tese.

Ainda que a maioria das vítimas graves realmente tenha idade avançada ou alguma outra comorbidade, ninguém está livre de integrar os famosos 3% que não sobrevivem à infecção – taxa que só será realmente convalidada, ou não, em alguns meses, já que tudo é muito novo em relação ao coronavírus.

Existem muitas perguntas que ainda não encontraram respostas. Não se sabe, ainda, se os curados ficarão imunes ao vírus. A experiência mostra que essa é uma grande possibilidade, mas não há uma certeza absoluta. Basta lembrar no H1N1, que exige vacinação anual. Também não há como cravar categoricamente as taxas de mortalidade e letalidade, visto que grande parte dos contaminados não são testados e que muitos nunca serão diagnosticados.

Teorias da conspiração

Enquanto a ciência corre atrás de um arsenal efetivo nessa guerra, como vacinas ou medicamentos, o mundo imagina os impactos que a pandemia trará no cotidiano das pessoas. Há quem aponte mudanças profundas nos hábitos de consumo, nas relações pessoais, nos modos de produção. Enfim, em todas as esferas da vida humana. Arriscam-se várias especulações sobre como será o novo normal, daqui em diante.

A pandemia também mexe com o inconsciente coletivo. Teorias da conspiração são elaboradas – a mais popular diz que o vírus foi criado artificialmente em laboratórios chineses. A China toma o lugar dos Estados Unidos como o grande vilão cujo objetivo é dominar o planeta. Em determinados ciclos religiosos, enxerga-se o cumprimento de previsões apocalípticas.

Nas mentes ideologicamente paranoicas, a pandemia é instrumento do globalismo de esquerda. Ou tática para desestabilizar governos, arquitetadas com ajuda de determinados veículos de comunicação. As teses prosperam, ainda que para colocá-las em prática seja necessária mais engenhosidade que a trama do Código da Vince, o já esquecido bestseller de Dan Brown.

Teste para detectar o coronavírus | Foto: Warley de Andrade / Agência Brasil

Economia

O que se tem de concreto, até agora e além dos mortos e hospitais abarrotados, é que haverá uma grande recessão econômica quando o planeta se adaptar ao Sars-CoV-2 (sim, ele veio para ficar, como o HIV, o ebola, o Sars-Cov-1, o H1N1, o Mers e vários outros vírus que estão por aí, à espreita).

A diretora-administrativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, estima que a crise econômica será muito mais profunda que a iniciada em 2009 (aquela “marolinha”), cujos efeitos são notados até hoje. Mais de 90 países já recorreram aos cofres da malfadada organização, que tem mais de 1 trilhão de dólares disponíveis para enfrentar os efeitos colaterais da Covid-19.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que 25 milhões de postos de trabalho evaporem. Nos Estados Unidos, 700 mil pessoas foram demitidas, só em março. A Áustria registrou o maior nível de desemprego desde a segunda guerra mundial: 504 mil pessoas perderam os postos de trabalho.

Paulo Guedes: projeção de PIB zero | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No Brasil, o governo recalculou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 0,02% (o que, na prática, significa crescimento zero). A Organização das Nações Unidas (ONU), contudo, calcula retração de 0,3%. Algumas consultorias apontam até 3% de queda.

Todos esses exercício de futurologia apontam cenários trágicos em um país cuja economia que está há anos na UTI, sem trocadilho, e que, em 2019, havia mostrado alguns sinais vitais que, diante dos novos acontecimentos, lembra a “melhora da morte” – termo popularmente usado para descrever o estado da pessoa que apresenta uma melhora súbita, só para morrer pouco depois.

O número de desempregados no Brasil patina na casa dos 12 milhões há ao menos três anos. O de informais é recorde, na casa dos 20 milhões. Gente que já sentia na pele os efeitos da falta de renda e que terá, em breve, a companhia de muitos outros brasileiros. O governo deve agir para amparar os mais necessitados e evitar uma quebradeira geral, mas é inevitável que muita gente fique pelo caminho.

Esperança

A humanidade, contudo, tem sido resiliente em sua trajetória. Sobreviveu à peste negra, à gripe espanhola, à tuberculose, à varíola, à tifo. Recentemente, descobriu estratégias para enfrentar a aids, a gripe suína e a sars. É um eterno jogo de gato e rato, em que a ciência costuma sair, se não vitoriosa, ao menos com o empate no jogo.

Pesquisadores no mundo todo correm em busca de um tratamento para a Covid-19 e uma vacina ao coronavírus Sars-CoV-2. Os resultados do uso de medicamentos já conhecidos, como a hidroxicloroquima e antirretrovirais, começam a sair. Testes com o plasma sanguíneo de quem foi curado estão em andamento. Quase 250 mil pessoas foram curadas.

Não será dessa vez que a humanidade sucumbirá. Mas ninguém pode se esquecer do luto pelas Adelitas no mundo todo.

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