Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Ações pontuais são necessárias, mas não salvarão o Rio Meia Ponte

Crise hídrica mostra que medidas governamentais têm efeito limitado e que só mudanças na produção e nos hábitos de consumo pode torná-la mais suportável

Meia Ponte: vazão em nível crítico | Foto: Reprodução

A vazão do Rio Meia Ponte, na quinta-feira, 12, chegou onde se imaginava desde o início do ano: com pouco mais de 1,4 mil litros, atingiu o nível crítico quatro. Esse patamar é o sinal verde para o rodízio na Região Metropolitana de Goiânia, caso seja mantido por sete dias consecutivos.

Em março, quando as chuvas ainda caíam sobre o Estado, o Jornal Opção já havia alertado do estava por vir. Em pleno período chuvoso, a precipitação estava 60% abaixo da média para o período. Conforme outra reportagem do jornal, na semana passada, esse é um fenômeno que se repete há pelo menos cinco anos.

O governo de Goiás, por meio da Secretaria do Meio Ambiente, e a Saneago se mexeram. Outorgas para o uso de água foram restringidas, descargas de reservatórios foram abertas para melhorar a vazão do Meia Ponte. Sua bacia percorre uma região altamente adensada – os 39 municípios que abrigam o leito do rio concentram aproximadamente 48% da população do Estado.

Durante a semana, o governador Ronaldo Caiado [DEM] conclamou a população a consumir menos água. Um chamado que nem deveria ser necessário mas, em tempos de estiagem e reservatórios quase vazios, ainda se vê muita gente lavando calçadas e carros com água potável. A secretária de Meio Ambiente, Andrea Vulcanis, intensificou a fiscalização em cima dos produtores, inclusive com apoio policial.

A Saneago está com campanha de conscientização em vários veículos de comunicação. O Ministério Público também tem feito sua parte, cobrando ação das autoridades responsáveis.  O delegado Luziano Carvalho, da Delegacia do Meio Ambiente, tem feito, há anos, um trabalho comovente de recuperação de nascentes e de luta contra a devastação da mata ciliar.

Portanto, não há que se falar em inação.

Cerrado já perdeu quase sua totalidade

Contudo, essas ações, necessárias, serão sempre paliativas sem uma mudança profunda no paradigma de produção e consumo e, é claro, de uma compreensão maior sobre o comportamento climático do planeta. É de conhecimento amplo que a Terra tem seus ciclos de aquecimento e esfriamento. Mas a maioria esmagadora dos estudiosos mais respeitados concorda que a ação humana está acelerando esse processo, nesse exato momento.

Vejamos o exemplo do Cerrado. Considerado a savana com maior biodiversidade do planeta, conserva em Goiás apenas 10% de sua fauna e flora intactos. Pouco mais de 1% de todo o território goiano ainda tem a vegetação nativa. Durante séculos, esse espaço foi ocupado pela produção agrícola e pecuária.

O bioma abriga, também, um importante repositório das águas brasileiras. De acordo com um levantamento da Agência Nacional de Águas (ANA), 15% de toda irrigação do País estão concentrados nos três Estados do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e no Distrito Federal. O Cerrado contribui com 50% da vazão da bacia do Paraná, com 62% com a bacia do Tocantins e a 94% da bacia do São Francisco. O riquíssimo Pantanal depende exclusivamente da água do Cerrado, que também fazem girar as turbinas que geram boa parte da energia elétrica produzida no Brasil.

Todo esse delicado ecossistema tem sofrido ao longo dos séculos de ocupação. Por outro lado, é impossível não levar em conta que a região é o berço da produção de alimentos e participa ativamente da geração de riquezas do Brasil. O minério, os grãos e a carne do Cerrado são responsáveis por uma parcela significativa da balança comercial brasileira.

Cada quilo de carne demanda 15 mil litros de água | Foto: Arquivo

Consumo tende a aumentar

Portanto, encontrar o equilíbrio entre o uso da água e sua preservação não é tarefa fácil. O consumo só tende a aumentar. Segundo a Agência Nacional de Águas, o volume aumentará 44% em Goiás até 2030. A maior parte dessa demanda virá da indústria e da agropecuária (para se produzir um quilo de carne, se gasta mais de 15 mil litros de água). A estimativa é de que, atualmente, já são 3,3 mil pivôs centrais em operação no Estado, boa parte deles funciona irregularmente.

Essas projeções só anunciam o desafio que vem pela frente. Os governos podem lançar suas estratégias, as pessoas podem fazer sua parte economizando. Mas, repetindo, somente uma profunda mudança nas técnicas produtivas (que precisam ser cada vez mais eficientes) e dos hábitos de consumo podem, senão evitar, ao menos fazer com que as constantes crises hídricas sejam mais suportáveis.

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