Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

A menina Ághata e o soldado Wallison: crônicas de mortes anunciadas

No infantilizado debate sobre nossas mazelas, o Brasil perde a chance de promover um verdadeiro pacto nacional em torno da segurança pública

Ágatha e Wallison: vítimas da mesma roda de sangue | Foto: montagem sobre arquivos pessoais

Comoveu o Brasil a morte da menina Ágatha, vítima de bala perdida no Rio de Janeiro (há quem diga que não há balas perdidas, pois elas têm como alvo um perfil bem definido de vítima). Ao mesmo tempo, houve a reação de parcela da sociedade, cobrando que o mesmo sentimento de indignação seja o mesmo quando a vítima é um policial.

Esse é um dos grandes problemas brasileiros: a discussão infantilizada de nossas mazelas, como se houvesse hierarquia na perda de vidas. É compreensível que a vida de uma criança seja mais sentida. Até o século 15, não era assim. Meninos e meninas nada mais eram que homens e mulheres em miniatura.

A partir daí, e especialmente no século 18, a maioria das sociedades começou a entendê-las como seres que mereciam cuidados especiais. No caso de Ágatha, há ainda uma série de circunstâncias que levaram as pessoas a chorar com a família da menina.

Isso não significa que o tombo de um soldado não seja, também, um retrato de nosso fracasso como sociedade – e por isso ele deve ser lamentado: quando um policial morre em serviço, é também o representante do Estado que sucumbiu durante sua missão de proteger a todos os outros cidadãos.

A morte de Ághata e dos policiais em serviço é o reflexo de um país cuja segurança pública está ferida de morte. A lógica de guerra permeia as políticas do setor – e boa parte das vítimas são os próprios agentes de segurança. Cria-se um clima de cisão entre policiais e população. Os primeiros sentem-se, muitas vezes com razão, injustiçados e sozinhos. A segunda não enxerga nos policiais um aliado.

Assim a roda de sangue continua a girar. Na última noite, a vítima foi o soldado Wallison, baleado na cabeça durante uma ocorrência em Aparecida de Goiânia. Além do risco inerente às ações policiais, outros caem por depressão: somente este ano, ao menos cinco policiais militares goianos cometeram suicídio.

Mortes violentas não deveriam ter ideologia. Enquanto não houver um verdadeiro pacto social em torno da segurança pública, enquanto os cadáveres forem instrumentalizados de um lado e de outro, o Brasil não sairá desse beco escuro em que se meteu.

 

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