Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

A desonestidade do fura-fila

O jeitinho brasileiro ganhou destaque até na vacinação contra Covid-19. A carteirada pelas doses é ato criminoso que empurra quem é mais vulnerável para o fim da fila

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”. O ditado popular usado por minha avó para exemplificar o egoísmo foi o melhor termo que consegui para comentar a prática dos fura-filas da vacina contra Covid19. Não se pode dizer que roubar as doses de quem realmente precisa se trata de um fato isolado. A todo momento as denúncias pipocam no Ministério Público, jornais e redes sociais. Registros lamentáveis de desonestidade espalhada por todos os cantos do Brasil. 

No primeiro momento me surpreendi com a existência do fura-filas de vacina. Mas após o primeiro choque e detalhamento de como pessoas de caráter duvidoso tem se articulado para conseguir antecipar na imunização que prioriza os mais vulneráveis, entendi que é algo já tão praticado no Brasil que até nos rendeu fama internacional. É o tal jeitinho brasileiro. A famosa carteirada que políticos, apadrinhados, alguns empresários e servidores públicos usam para ter seus interesses individuais antes do coletivo.

Refletindo, me acho um desavisado por passar por supresso em uma situação de fura-filas. Afinal, estamos acostumados desde sempre a ouvir e ver fatos de comportamento sem caráter que indicam que furar a fila da vacina é só uma para o currículo do desonesto. Com o tamanho do estrago que a pandemia ainda causa na vida dos brasileiros esperava-se que a priorização da vacina fosse respeitada. Mas mesmo com o contador ultrapassando a marca 235 mil mortes causadas por Covid, cujo as vítimas acima de 70 anos representam 14%, os egoístas não tomam a vez dos idosos e dos profissionais de saúde. 

Esses exemplos de egoísmo e demonstração de má índole são tantos e proliferam quase tão quanto o vírus chegando. Desde o início da vacinação contra a Covid-19 no país, em 17 de janeiro, já foram registradas ao menos 2.982 denúncias de possíveis casos de “fura-fila” da imunização — o que significa que uma em cada 1.341 doses aplicadas no país teria sido endereçada a alguma pessoa fora dos padrões de prioridade estabelecidos. Só na cidade goiana de Ceres o MP investiga que uma família inteira (ao menos 20 pessoas) furou a fila. Fazendeiros que se passam por encarregados de limpeza de hospitais para se vacinarem. 

São fatos de causar revolta pelo tamanho da hipocrisia que mora em quem grita aos quatro cantos os absurdos das corrupções, mas que de frente com uma  oportunidade se prestam dar “carteiradas da vacina”. Soa com zombaria saber que as doses disponíveis não dão para atender todo grupo mais vulnerável, ou seja, uma dose roubada pode representar uma vida perdida para Covid. O pior, é que diante da situação e para não se perder as tão escassas doses, os fura-filas, mesmo que descobertos e processados, ainda receberam a segunda dose. Ao final, vão atingir o seu objetivo, vão estar à frente mesmo sem merecer. 

A desonestidade do fura-fila mora na prática patrimonialista São pessoas que conseguem usar de artimanhas e do em público sem a distinção do privado. Fato que o sociólogo Max Weber já tinha nos alertado. Mas a turma de oportunistas que se aproveita até de tragédias está aí, servindo apenas de mau exemplo. Não à toa, muitos dos “fura-filas” são políticos de cidades pequenas, confrontados com o constrangimento de terem sido imunizados antes da população à qual servem, se apressaram em justificar que o fizeram para “dar o exemplo”.

Entre tantas características negativas que estão presentes em quem se presta a furar fila da vacinação e roubar a vez de uma pessoa que realmente precisa está a falta de empatia. Os fura-filas não tem em seu vocabulário as palavras solidariedade e respeito. Esse comportamento resulta em prejuízos coletivos e danos que podem não ser reparados. Essas pessoas são capazes de deixar profissionais de saúde sem vacina para poderem se passar por bacanas que mesmo sem ser sua vez recebem as doses –  alguns até posam para fotos e esperam receber comentários de apoio em suas redes sociais. Desejam receber a vacina antes das pessoas mais frágeis e daqueles que oferecem a própria vida em defesa da dos outros. 

Espera-se dos órgãos investigadores uma apuração rigorosa, não importando quem são os fura-filas ou o cargo que ocupam. E que mais adiante, a sociedade possa vê-los punidos. É preciso que o Ministério Público de fato investigue se houve desvios da vacina. As doses iniciais sequer vão dar para imunizar todos os profissionais de saúde. Não é justo que ricos, poderosos que deram suas festas, viajaram para aglomerar em praias, ocupem espaço na fila da vacinação que não lhes pertence. São seres que não merecem o mínimo respeito e consideração.

Lembro-me de que ainda no começo da pandemia, os mais otimistas tratavam o ”novo normal”, como uma oportunidade de mudança. De fato muitos bons exemplos sociais surgiram e ganharam destaque. Atitudes que denotam preocupação com o próximo e que realmente nos levavam a crer que num mundo pós-pandemia algo de bom nos esperava. Lá se vai um ano e estamos a testemunhar egoísmo e ignorância –  males que ainda não temos vacina.

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