Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

A campanha já começou, mas a cautela ainda dita o ritmo do jogo político

Janela partidária e federações ainda não mexeram significativamente com o cenário eleitoral

Desde que se findou as eleições de 2018 relatamos que a campanha para 2022 já havia começado. No decorrer desses pouco mais de três anos as articulações e movimentos no tabuleiro se intensificaram, em outros, esfriou-se, dando espaço a outras agendas, como, por exemplo, o combate a pandemia – e até mesmo a Covid-19 lançou candidatos. Entretanto, conforme vai se aproximando do dia 2 de outubro os movimentos tendem a se intensificar. E de fato isso tem ocorrido. Ao afunilar as conversações, os rumos vão sendo dados, mas ainda há muito para se acertar e os prazos para as principais mexidas estão chegando ao final.

Em menos duas semanas a janela partidária vai se fechar. O político que quer mudar de partido sem perder o mandato tem até dia 1º de abril. Neste ano muito está em jogo ao falar das filiações e desfiliações. O ponto principal está na formação das chapas que vão disputar as eleições para deputado estadual ou federal. Os partidos não podem se coligar, e precisam lançar uma chapa completa. Os cálculos dos candidatos não serão só sobre a quantidade de votos. Agora é preciso calcular se uma legenda tem espaço de mais ou de menos, para que assim a candidatura tenha mais chance de ser vencedora. 

Muitos candidatos já anunciaram que vão trocar de sigla, mas ainda não acertaram seus destinos. Um partido com muitos políticos com potencial de voto pode tirar a oportunidade de um que tenha uma capacidade eleitoral mediana –  segundo alguns políticos experientes, em Goiás, um deputado federal só será eleito se alcançar 170 mil votos. Em contrapartida, caso se filie a um partido que não tenha nomes com potencial para se lançar ao cargo, não terá uma chapa para se lançar.

A janela se abriu, mas aos olhos de quem vê a política de fora não há os movimentos mais esperados. Os anúncios de filiações não tomaram a agenda política. Candidatos demonstram ainda ter receio por definições que podem colocar em xeque uma candidatura.

Ainda sobre a janela partidária e as filiações em novas siglas, há um fator que todos os candidatos que já haviam planejado fazer a troca de sigla, agora aguarda para ver como ficará. Falo do fundo eleitoral, que neste ano chega bem mais robusto para as legendas. Políticos querem saber se podem conquistar uma parcela desses recursos para seu projeto eleitoral. Assim, vale deixar para última hora a decisão e quem sabe fazer “valer o passe” –  como se diz na gíria futebolística. O financiamento empresarial está proibido, o privado só rende uns caraminguás, então quem tem mais dinheiro público para investir na eleição tem mais argumentos para atrair gente boa de voto.

Há ainda este ano uma peculiaridade que pode fazer toda a diferença. O nome dado é federação partidária. O detalhe que faz toda diferença é que o prazo para formar o bloco de partidos, nacionalmente verticalizadas e vinculantes, ultrapassa a data-limite para as filiações com vista à próxima eleição. O prazo para essas definições vai até o fim do mês de maio. Como isso pode mexer no jogo político? Imagine o cenário em que um político se filia a um novo partido e acaba por descobrir mais adiante, que por definição nacional, está em um coalizão estável de quatro anos e com a qual não concorda ou que o projeto eleição não se encaixa.

Da mesma forma que as movimentações de filiações promovidas pela janela partidária ainda são tímidas, as negociações para formação de federações também não avançam. Mesmo não com um prazo maior para que se estabeleça acordos entre partidos – considerando a baixa temperatura das negociações, o instrumento da federação partidária não decolou. 

Deu certo entre o PSDB e o Cidadania. O partido comandado há mais de meio século por Roberto Freire sempre seguiu a cartilha tucana e vai agora formalizar o casamento, que o protege da cláusula de barreira. Rede e PSOL também acertaram se unir numa federação, o que permitirá aumentar o poder de pressão e influência em causas comuns, como meio ambiente e direitos humanos. Ao PT se uniram partidos que já gravitavam na órbita petista historicamente: PV e PCdoB, mas ainda não vingou a tentativa de atrair o PSB.

Essas poucas federações não mexeram tanto com o cenário político para 2022 quanto se poderia imaginar. As filiações também não mudaram o jogo político. Nada que possa promover alguma virada nos rumos da campanha eleitoral deste ano. Então, embora a campanha eleitoral já tenha começado há mais de três anos, o jogo político ainda tem poucas mexidas. Mas vale aguardar o fim dos prazos.

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