Na evoluída sociedade das formigas cortadeiras todas as castas ativas são femininas, e os machos inertes são preservados unicamente para garantir a fecundação das princesas e a perpetuação da espécie

No filme ítalo-francês “A cidade das Mulheres” (1980), de Frederico Fellini, o personagem Snàporaz – alter-ego do diretor, vivido na tela por Marcello Mastroianni – apaixona-se por uma dama (Bernice Stegers) num vagão de trem e passa a segui-la, chegando a uma cidade só de mulheres, onde acontecia um congresso feminista. Uma cidade governada e dominada por mulheres! A tragicomédia erótica de Fellini, a princípio sonho, depois pesadelo de machistas – com mulheres voluptuosas, mas empoderadas e dominadoras, vestidas com botas salto alto e pisadas firmes – se inicia com o comboio de trem penetrando um túnel escuro, numa clara alusão fálica em princípio de coito. O hedonismo para por aí! No mais, é um pesadelo do qual não se acorda.

Saúvas

Tal qual no onírico filme de Fellini, o início da formação de um formigueiro se dá com uma princesa recém fecundada – por isso já rainha – preparando-se para penetrar um túnel de 5 mm de diâmetro no solo, que ela própria perfurara com as mandíbulas vigorosas. Ali se inicia a formação de uma sociedade cujo funcionamento é definido e as castas são formadas quase que exclusivamente por fêmeas. Uma sociedade matriarcal!

Com suas mandíbulas, a “içá” cortara seus dois pares de asas usados durante o voo nupcial, que doravante constituir-se-ia um empecilho para a vida subterrânea no formigueiro. Uma única rainha fertilizada das formigas cortadeiras (Hymenoptera: Formicidae: Attini) dos gêneros “Atta” (“saúvas”) ou “Acromyrmex” (“quenquéns”) é capaz de formar uma colônia com dezenas e até centenas de milhares de indivíduos, todas fêmeas, a princípio.

A “içá”, ou “tanajura”, futura rainha de uma das 70 espécies e subespécies de formigas cortadeiras conhecidas (15 espécies de “Atta” e 55 de “Acromyrmex”), penetra o túnel de 8 a 15 cm de profundidade que ela própria perfurou, e onde permanecerá por 90 dias, fazendo ali sua primeira oviposição. Ao sair do formigueiro antigo para o acasalamento, a nova rainha traz no aparelho bucal a “isca” com o micélio do fungo que suas irmãs “jardineiras” cultivaram no formigueiro original, e que ela utilizará para desenvolver seu próprio jardim de fungos, com os quais alimentará todas as fases jovens e as formigas internas da nova colônia. As formigas “cortadeiras” e “carregadeiras”, que saem do formigueiro, se alimentam em parte dos exsudatos liberados durante o corte (ricos em energia), fazendo apenas a complementação nutricional proteica com fungos, no interior da colônia.

No caso das saúvas (“Atta”), após três meses a rainha e suas primeiras crias perfuram uma segunda câmara, à profundidade aproximada de 60 a 80 cm. Em colônias com 10 meses de formação, ainda há apenas duas câmaras de fungo; com 14 meses já são quatro e aos 18 meses cerca de oito câmaras de fungo. Aos trinta meses, podem-se contar cinco dezenas de câmaras de fungo e cerca de quinze câmaras de lixo. Os orifícios, ou “olhos” do formigueiro – apropriados para a aeração, ventilação e saídas das operárias e soldados da colônia – são em número crescente, chegando a até 1.000 aos três anos, quando o formigueiro se torna adulto. Já foram observados até 7 milhões de indivíduos fêmeas em um único formigueiro.

O mirmecologista (cientista que estuda as formigas) Mário Autuori (1906-1982) – que se tornou conhecido do Brasil na década de 1970, após participar do educativo programa “8 ou 800” (1976/1977), da Rede Globo de Televisão –, chegou a encontrar 1027 “panelas” em um formigueiro adulto de “saúva limão” (“Atta sexdens rubropilosa”), sendo 300 ativas, ou seja, com fungos; 226 com terra; 14 com lixo e 397 vazias. Autuori foi o primeiro ganhador do prêmio máximo de oitocentos mil cruzeiros, após 17 semanas respondendo sobre as formigas no programa global, nos bons tempos em que os reality shows eram curtos e educativos, e o cérebro determinava o vencedor.

Origem

As formigas surgiram há pelo menos 110 milhões de anos, durante o período Cretáceo da Era Mesozóica. Já o hábito de cultivar fungos se deu há 50 milhões de anos, durante o Eoceno do período Terciário Paleógeno. Juntamente com o Homem, as formigas cortadeiras são os únicos seres que praticam a “agricultura” e dela obtém seu alimento. A diferença é que essa tecnologia entre os seres humanos surgiu há apenas 12 mil anos, no período Neolítico, contra os 50 milhões de anos de evolução das “formigas agricultoras”.

Entre as formigas e os fungos desenvolveu-se uma relação harmônica interespecífica denominada “mutualismo”. As saúvas e quenquéns maceram folhas e ramos vegetais que são substrato para o cultivo de um fungo que lhes servem de alimentação. Tanto as formigas quanto o fungo conseguem vantagens da relação, já que o segundo se perpetua a cada geração e os insetos obtêm alimentação nutritiva para si e suas crias.

A aparência de uma colônia de saúvas (“Atta”) adulta, com suas dezenas de “panelas” esponjosas de fungo, cor branca, e milhares de metros de túneis, remete à “Árvore Cinzenta” (1911) e à “Macieira em Flor” (1912), óleos sobre tela do artista plástico Holandês Pieter Mondrian (1872-1944), em sua fase cubista. Formigueiros com até 8 metros de profundidade já foram encontrados, ocupando várias dezenas de metros cúbicos de volume.

Castas

As formigas, assim como os cupins, vespas e abelhas são insetos eusociais, os mais desenvolvidos na escala evolutiva. A Eusocialidade se caracteriza por três características bem definidas: sobreposição de gerações (em qualquer tempo há ovos, larvas e adultos); divisão do trabalho, por meio de castas; e cooperação no cuidado com a prole, já que a vida da colônia consiste em preservar, alimentar, defender e garantir a sobrevida dos filhotes e de todos os membros da colônia. Um formigueiro pode permanecer ativo por vários anos, até a morte da rainha.

Na evoluída sociedade das formigas cortadeiras todas as castas ativas são femininas, e os machos inertes são preservados unicamente para garantir a fecundação das princesas e a perpetuação da espécie. Todas as castas são estéreis, exceto as rainhas e as princesas que constituirão futuros ninhos.

As “cortadeiras” – operárias maiores – saem da colônia com o fim de cortar e transportar folhas e fragmentos vegetais que serão utilizados como substrato para a criação de fungos. Da mesma forma, a casta das “formigas-soldados”, que se destacam pelas cabeças e mandíbulas hipertrofiadas, apropriadas para a defesa da colônia. As “soldados” são facilmente distinguíveis das companheiras, transitando em todos os sentidos, por entre as trilhas marcadas com feromônios e delimitadas pelo caminho limpo, devido ao vaivém dos formicídeos. As formigas preferem transitar à noite, ou em dias nublados ou chuvosos, a fim de evitar a desidratação de seus corpos.

Outra casta de formigas, espécie de “fiscais”, cuidam de fazer a seleção dos substratos que chegam do exterior, direcionando os vegetais frescos e inócuos para a câmara de cultivo de fungos e os substratos inapropriados para as câmaras de lixo. Entre as operárias menores, as “faxineiras” se ocupam da limpeza da colônia e transporte dos refugos vegetais e cadáveres para as câmaras específicas de descarte, denominadas “panela” de lixo.

No interior da câmara de cultivo de fungo, as “agricultoras”, ou “jardineiras” maceram e distribuem o substrato vegetal, fazem a poda do micélio fúngico e direciona o alimento para os “berçários”, onde “enfermeiras” cuidam de alimentar e virar os indivíduos jovens. O fungo, rico em proteínas constitui o cardápio ideal para as larvas. O ciclo de vida das formigas é holometabólico completo, ou seja, ovos dão origem a larvas (três instares sucessivos) que se transformam em pupas, que originam adultos: as várias castas de operárias estéreis e ápteras e as fêmeas e machos alados e férteis.
Após 1.001 noites, quando o formigueiro se torna adulto, milhares de “Sheherazades-formigas” se inquietam, excitadas por feromônios secretados pela rainha, enquanto aguardam o momento culminante de sua vida no formigueiro, quando poderão voar, selecionar por exaustão os machos vencedores e, assim, acasalar várias vezes e formar uma nova colônia.

Voo nupcial

No momento de penetrar o pequeno túnel que dará origem ao novo formigueiro, a “içá” traz, no avantajado abdome, ou “bunda de tanajura” – iguaria cobiçada pelos índios e sertanejos –, uma massa amarelada de proteína e gordura. Nela, a espermateca, repleta de espermatozoides dos machos, que fecundará seus ovos pelo resto da vida. Entre as “Atta” e “Acromyrmex”, existe a poliandria, ou múltiplo acasalamento, diferentemente de outros gêneros de formigas.
Tudo começara alguns meses antes. A rainha intensificou a produção de ovos que deram origem às princesas aladas e aos príncipes que haveriam de fertilizá-las. Milhares de Jovens príncipes alados, os “bitus”, ou “içá-bitus”, esperam o momento de alçar voo – desejo contido por feromônios secretados pela rainha – e desempenhar o papel que lhes foi reservado para o clímax de sua curta vida: vencer as intempéries, os inimigos naturais, a fadiga e a exaustão, e ser um entre cada duzentos machos que alçaram voo a conseguirem fertilizar uma “içá”. Mário Autuori chegou a encontrar, em um único formigueiro, 43.819 formas aladas, sendo 38.481 “bitus” e 5.338 “içás”, proporção de 7 machos para cada fêmea.

A revoada das fêmeas e machos alados acontece em dias de elevada umidade relativa do ar, no início ou durante o período chuvoso. Em Goiás e toda a região do Cerrado, normalmente nos meses de setembro, outubro ou novembro. As “formigas-soldado” se agitam em volta dos olheiros, prontas a atacar qualquer animal que se aproxime. As fêmeas agitam vigorosamente as asas e alçam voo, às centenas e até milhares. O momento do voo chega e as fêmeas deixam o solo. Os machos as seguem, evitando anus brancos e anus pretos, bem-te-vis e uma infinidade de outros pássaros que fazem o repasto com a proteica iguaria. Machos e fêmeas têm que evitar tempestades, ventos fortes, cursos de água, sapos, tamanduás e o próprio homem. O vencedor, 1 em 200, já terá fertilizado a rainha em pleno voo, antes de perecer. Estudos indicam que uma içá pode ser fertilizada por vários bitus.

Com as espermatecas cheias, as “tanajuras” ou “içás” pousam ao solo, arrancam as próprias asas e começam um novo ciclo, escavando e penetrando um túnel. Como no filme de Fellini, o orifício levará a uma sociedade composta e movimentada por fêmeas. Uma sociedade evoluída e matriarcal.

“Post-scriptum”: o sistema de comunicação das formigas, baseados em mensagens químicas, através de feromônios; uma formiga “goiana”, que apesar de ter sido encontrada em apenas uma ocasião na Região do Araguaia, há 80 anos, recebeu o nome de “Atta goiana”, sendo até hoje reconhecida como uma espécie; e as formigas na alimentação humana serão motivos de outros artigos neste Periscópio.