15 de maio marca 148 anos do nascimento de Totó Caiado e 20 anos da morte de seu filho Edenval Caiado

 

É preciso um debate de ressignificação da história de Goiás, sem as paixões políticas exacerbadas após a Revolução de 30

Alexandre Ramos Caiado*
Especial para o Jornal Opção

Hoje, 15 de maio, marca os 148 anos do nascimento de Antônio Ramos Caiado, conhecido como Totó Caiado, um grande goiano que pautou sua vida nos mais puros ideais republicanos, e de seu filho Edenval Ramos Caiado, advogado e líder político na região de Anápolis. 

Nascido em 1874, filho do senador estadual Torquato Ramos Caiado (1848-1906) e de Dona Claudina Fagundes Caiado, Totó Caiado viu e participou de inúmeras e profundas transformações que fizeram a história e o desenvolvimento de Goiás e do Brasil. Foi aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, colega de turma e amigo pessoal do poeta Castro Alves, de Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, todos abolicionistas convictos, além dos futuros presidentes Rodrigues Alves e Afonso Pena; e colega de república do futuro presidente Hermes da Fonseca, seu companheiro de caçadas às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. 

Seu pai, ao retornar de São Paulo com ideias iluministas e abolicionistas, converteu o avô de Totó, senador da República Antônio José Caiado (1825-1899), ao abolicionismo e ao republicanismo. Torquato fez questão de que seus filhos estudassem e concluíssem curso superior e sua viúva Claudina impregnou a todos os seus genros, noras, filhos e filhas o dever de seus descendentes formarem e concluírem seus estudos. O avô Antônio José Caiado, tornou-se abolicionista (vide “Obra Apostólica do Araguaia”) e foi presidente do Estado de Goiás por quatro vezes, duas no Império e duas na República. 

Infância, formação e política

Totó Caiado nasceu na Cidade de Goiás (15/05/1874), onde estudou as primeiras letras. Fez o curso de Humanidades no Liceu de Goiás, o preparatório em Ouro Preto-MG, e o superior na Faculdade de Direito de São Paulo-SP (Largo do São Francisco), tornando-se advogado desde 08/12/1895 (com a instalação da OAB/GO em 12/04/1932, lhe foi deferida a inscrição nº 48), jornalista e fazendeiro. 

Para estudar em São Paulo, viajava a cavalo da Cidade de Goiás até a cidade de Jundiaí, SP, onde pegava o trem para a Capital. Totó Caiado foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto e, em 1893, formou e comandou o Batalhão Acadêmico de São Paulo, que marchou para a Capital Federal, colocando-se ao lado do governo do Marechal Floriano. Ali, tomou parte nos combates que se travavam diariamente na fortaleza de São João e, em Niterói, contra os revoltosos, quando foi ferido na cabeça por um estilhaço de granada. Esteve muito próximo da morte, não por arroubo da juventude, mas guiado pelos ideais republicanos que inflamavam a mente e o coração dos melhores brasileiros daquela época. Foi então promovido por atos de bravura aos postos de Alferes e Tenente, sucessivamente. Terminada a revolta, tornou-se Tenente Honorário do Exército. 

Recebeu o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 8 de dezembro de 1895, ocasião em que sua tese de doutorado obteve o grau 10, com distinção e louvor, sendo o único goiano, até o ano de 1965, a ter essa nota cumulada com as duas menções honrosas. 

Como jornalista, foi fundador e redator de “A República” (Cidade de Goiás, 1896-1899; 1905-1907), redator de “A Imprensa” (Cidade de Goiás, 1904-1905) e fundador e diretor de “O Democrata”, antológico jornal do Partido Democrata, que circulou de 1916 a 1930.

Trilhando os passos de seu pai e avô, Totó Caiado tornou-se deputado estadual (1897), conselheiro municipal da Cidade de Goiás (1899-1902), secretário do Interior, Justiça e Segurança Pública do Estado de Goiás (1º de março de 1904 – junho de 1908, em duas administrações) e foi um dos fundadores do Partido Democrata, em 10 de janeiro de 1909.

Durante a “Revolução Goiana de 1909”, Totó Caiado foi comandante das forças revolucionárias – a Legião Rubra, assim denominada por seus participantes trazerem no pescoço um lenço vermelho –, que, após combates travados entre a fazenda Quinta e a Serra Dourada, entraram triunfantes na Capital de Goiás em 1º de maio, depondo o então presidente Miguel da Rocha Lima.

Com o triunfo da Revolução, tornou-se deputado federal, eleito pela oposição (o mais votado de todos) em 30 de janeiro e reconhecido em 24 de maio de 1909, sendo reeleito sucessivamente por três legislaturas até 1921, quando se tornou senador. Foi senador da República de 30/04/1921 a 01/04/1930, reeleito para um novo período de nove anos, quando foi cassado pela revolução de 1930, no primeiro ano de seu segundo mandato de senador. 

Família e profissão

Ainda solteiro, em 1898, teve um filho natural – que reconheceu e registrou –, Ubirajara Ramos Caiado, que seria fundador do Jóquei Clube da cidade de Goiânia e emprestaria o seu nome ao atual Hipódromo da Lagoinha. 

Parte dos filhos, genros e netos de Totó Caiado e Mariquita, ao centro. De pé, coronel Itamar Viana (genro) e Elcy Caiado; Edenval Caiado; José Starling (genro) e Enery Caiado; Alcion da Rocha Lima (genro) e Eugesy Caiado; Emival Caiado e Maria Fleury; Elcival Caiado e Antônio Ramos Caiado Filho (“Caiadinho”). Sentado no chão, à esquerda, Ronaldo Caiado, abaixo de sua mãe, Maria, com o filho Roberto, no colo. A mulher à direita, com a criança no colo é Terezinha esposa de Elcival Caiado | Foto: Arquivo pessoal

Totó Caiado foi casado em primeiras núpcias com Dona Iracema de Carvalho Caiado, com a qual teve seis filhos – Codory, Jupira, Corival, Consuelo, Comary e Cory – todos Ramos Caiado, sendo que os três primeiros faleceram ainda jovens. 

Enviuvando-se, em 1907, casou-se em segundas núpcias com Dona Maria Adalgisa de Amorim Caiado (Mariquita), filha do comerciante Luiz Astolpho de Amorim, neta de José Gonzaga Sócrates de Sá, deputado provincial em várias legislaturas; bisneta do padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, chefe do Executivo goiano no Império (1837-1839) e redator de “A Matutina Meiapontense”, primeiro jornal de Goiás. 

Do seu casamento com Dona Mariquita, teve onze filhos, quatro dos quais faleceram prematuramente (Ereny, Emy, Edenvalzinho, Eldory) e sete que sobreviveram a seus pais: Enery, Edenval, Emival, Elcy, Elcival, Elgezy e Antônio, filho (Dr. Caiadinho), todos Ramos Caiado. Hoje ainda vivem Elcival, Elgesy e meu pai Caiadinho. 

Após formar (1895) regressou a Goiás, sua terra natal, assentando então sua banca de advogado. Goiás, nessa época, era palco da mais intensa paixão partidária. Herdou de seus antepassados o atavismo pela política, a inteligência, a resolutividade e forte personalidade, aliadas a uma energia ímpar. Contra a sua pessoa se desencadearam os primeiros ataques da situação dominante, pois os dirigentes políticos daquela época enxergavam um sério e perigoso antagonista naquela figura moça e simpática de lutador, dotado de qualidades de liderança. Desencadearam contra ele as maiores hostilidades, a fim de arruiná-lo politicamente. 

Assim, os seus primeiros passos na vida pública foram íngremes e espinhosos. Nem a sua profissão de advogado podia livremente exercer, pois no sufocante e apaixonado ambiente político daquela época as garantias constitucionais se anulavam pela paixão e pelo rancor partidário. Mas, à medida que as dificuldades cresciam e as perseguições aumentavam, Ramos Caiado sentia crescer no seu íntimo uma resistência de aço, precursora de grande liderança política que iria exercer em seu Estado. 

Toda essa resistência culminou com a dissidência política de Totó Caiado – juntamente com seu pai Torquato e o avô Antônio José Caiado, em 1º de abril de 1897 – do clã dos Bulhões, grupo dominante liderado por Leopoldo de Bulhões. Houve perseguições e seu pai, foi transferido (era delegado fiscal do Tesouro Nacional) para o Ceará, sendo surpreendido em sua chegada com nova transferência, agora para o Amazonas. Seu avô, Antônio José Caiado, continuou no Senado da República até a sua morte, em 08 de agosto de 1899. 

Moço pobre, não tendo como advogar, Ramos Caiado tomou um empréstimo com Dona Quininha Berquó, com o qual se deslocou até o Vão do Paranã (Nordeste Goiano), onde comprou 400 cavalos. Retornando à Cidade de Goiás adquiriu duas tropas de burros (uma tropa é igual a 12 lotes de 12 burros). Daí, com mercadorias e tocando esses animais, atravessou o Brasil, por trilhas, florestas, vales e rios, comerciando até no Chaco Boliviano. Totó relatava que suas maiores dificuldades encontravam-se nas travessias dos grandes rios – as pessoas e os animais a nado, e as mercadorias nas pelotas feitas de couro de boi. 

Por duas vezes viajou ao estado do Mato Grosso para abastecer as tropas do então Capitão Cândido Rondon, que abria as linhas telegráficas naqueles sertões, sendo que na primeira viagem amargou prejuízo com uma carga de toucinhos, que derreteram no calor abrasador daquele estado. Serviu também ao Correio Nacional no transporte das correspondências. 

Revolução Rubra

Essas perseguições duraram sete anos, e a 1º de março de 1904, nas recomposições de forças do governo Xavier de Almeida, que se distanciava do Bulhonismo, foi nomeado Secretário do Interior, Justiça e Segurança Pública do Estado de Goiás, ficando no cargo até a cisão política ocorrida em 1908, entre Xavier de Almeida e Gonzaga Jayme, quando se exonerou em apoio às pretensões senatoriais do segundo. Gonzaga Jayme – que era tio de sua esposa Mariquita – tinha o endosso de Totó desde os idos 1901. Nas recomposições de forças uniram-se os grupos Jayme-Abrantes-Caiado-Jardim-Bulhões.

O então deputado federal Totó Caiado (de pé ao centro) e a bancada goiana no Congresso Nacional em 1917. Ao seu lado, da esquerda para a direita, os também deputados Francisco Ayres e Tullo Hostíllio Gonzaga Jayme. Sentados, os senadores Luiz Gonzaga Jayme (tio de sua esposa e a quem Totó sucederia no senado em 1921), Eugênio Jardim e Hermenegildo de Moraes e o também deputado Olegário Pinto. Foto: Arquivo de Patrícia Gonzaga Jayme Tanure

 

 

 

 

 

Do período de 1º de maio de 1909 até a revolução de 1930, além de vários fatos políticos ocorridos em Goiás, destacamos alguns de cunho pessoal em que esteve à frente, como, por exemplo, a proibição a todos os católicos de não receber a Folia do Divino, feita por um bispo que acabara de chegar ao Estado. Devoto fervoroso do Divino Espírito Santo, Ramos Caiado mandou fazer uma salva de prata, e, junto com o cetro, a coroa e a bandeira, percorreu toda a Cidade de Goiás com a folia, sendo que algumas casas nem abriram as portas com medo de represálias da Igreja. 

Por liderar aquela afronta, Totó Caiado foi excomungado, pena revogada pelo próprio bispo tempos depois, ao compreender a expressão de fé daquela gente. Por este ato, até hoje ainda há esta bela festa, que em todos os anos ocorre na Cidade de Goiás. Importante lembrar que a última Cavalhada ocorrida na Cidade de Goiás foi no ano de 1929, pois no ano seguinte ocorreu a Revolução e, depois, o Governo pós-30 e a Igreja não levaram adiante aquela tradição, tão goiana, infelizmente desaparecida.

Em 1926, o senador Ramos Caiado assumiu o comando das forças legalistas, conclamando os chefes municipais, e organizando uma tropa civil que ficou conhecida como “Camisas Vermelhas” ou “Coluna Caiado”.  (Totó dispôs de capital próprio para compra de armas e confecção de mais de mil camisas vermelhas, usando dinheiro que estava reservado para construir a casa nova de sua família, fato que deixou Dona Mariquita muito contrariada). Com sua tropa parte para confrontar e repelir a Coluna Prestes, que, conhecedora da força goiana, desvia-se de sua rota, fugindo de Goiás rumo ao Mato Grosso. 

No Congresso Nacional, no Rio de Janeiro, foram seus companheiros: Rui Barbosa, Venceslau Brás, Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa, Washington Luiz, Getúlio Vargas, Arthur Bernardes, Pinheiro Machado, seu cunhado Eugênio Jardim, seu irmão Brasil Ramos Caiado, dentre muitos outros vultos que fizeram parte da História deste País.

O período em que liderou a política goiana (1909-1930) – mais apropriadamente 1912 a 1930 – primou pela liberdade de expressão e respeito à imprensa, pois, detentor do poder maior, nunca impediu a circulação de qualquer jornal oposicionista, vide “A Voz do Povo”, que sistematicamente o atacava. Era um político carismático, ardoroso, inteligente, franco, de lealdade incondicional para com seus correligionários, que não transigia quando tratava da defesa das aspirações republicanas e democráticas. 

Revolução de 1930
Sua força foi tamanha que só pode ser suplantada por um movimento revolucionário partido dos altos escalões da nação, que a princípio não objetivou a sua derrubada, por incipiente a oposição goiana à época. E, por lealdade ao regime deposto, telegrafou ao comando revolucionário e foi atendido, pois mandaram o Dr. Pinheiro Chagas, que recebeu e assumiu em palácio o governo do Estado de Goiás das mãos do vice-presidente em exercício, Dr. Humberto Martins Ribeiro. A revolução de 30 não triunfou em Goiás.

No fervor revolucionário, chegou à Cidade de Goiás o Dr. Zacheu Crispim que, por ordens de Ramos Caiado, pôs em liberdade o prisioneiro que conduziu desde Rio Verde, o então vencido Pedro Ludovico Teixeira. 

Logo após o triunfo da Revolução de 1930, seguiu Ramos Caiado para sua fazenda Tesouras quando foi preso por uma Companhia de Guerra do Exército, armada de metralhadoras. Prenderam inicialmente seu filho Ubirajara e este deu grito de alarme a seu pai, anunciando a presença de grande Força Federal. Ramos Caiado, que era vaqueano e velho sertanista, teria se evadido na mata sem possibilidade de ser detido. Entretanto, num gesto varonil, em carreira violenta, de revólver na mão, entendeu vir morrer junto de seus companheiros (seu filho Ubirajara e seu irmão Leão Caiado) e avançou sobre as metralhadoras assestadas. 

O comandante desta força, que era um bravo, na presença de Pedro Ludovico e Domingos Velasco, proferiu a seguinte: “Um brasileiro que avança de peito empolado sobre uma Companhia de Guerra, de oitenta metralhadoras engatilhadas, é um brasileiro que não pode morrer!”, impedindo que fosse ele fuzilado em desigualdade de forças. Velasco perguntou por que Caiado não podia morrer, ao que respondeu o comandante: “Eu, velho soldado, nunca vi ato igual de bravura!”.

Conduzido pela Força Federal ficou detido sob palavra de honra, por cerca de dois anos, sem poder ausentar-se da cidade do Rio de Janeiro, à disposição do Tribunal Revolucionário, que apurou crime nenhum ter cometido, sempre negada a autorização de seu retorno pelos ocupantes do poder local. 

Entretanto, em abril de 1932, voltou sob a aclamação do povo de Goiás, em todas as cidades e estações da Estrada de Ferro por onde passou. No período que ficou detido no Rio sua casa foi varejada; o escritório e as oficinas jornalísticas, empastelados; suas correspondências e seus diários sumiram, ocorrendo a destruição de grande parte da História de Goiás na queima feita pelos novos detentores do poder. 

Algumas cartas reapareceram décadas depois no Museu Pedro Ludovico Teixeira. Então, em 9 de julho de 1932, foi preso juntamente com vários expoentes e políticos goianos, ficando incomunicáveis de 09/07 a 31/10/1932, sem poder ver nem escrever às famílias respectivas, e toda sorte de violências foram praticadas contra os detentos. Ocasião em que sua família providenciou uma marmita de fundo falso, comunicando-se assim, pois os soldados revolviam a comida com as mãos, em busca de bilhetes. Por ordem do chefe de polícia Estelita Campos as pessoas foram proibidas de fornecer, vender ou comprar qualquer coisa à família de Totó Caiado. Não fosse o amigo Dr. Adelmar Henrique de Macedo (Fú), que vendia o gado nos açougues como seu e, ao receber o pagamento, repassava-o à dona Mariquita, esta não teria como sustentar os seus filhos. 

Adversários políticos instauraram inquéritos e mais inquéritos contra o Senador Ramos Caiado, formando-se assim, na tentativa de encontrar algum crime ou erro cometido, a Comissão de Sindicância, que devassou exaustivamente sua vida, num momento em que estavam suspensas todas as garantias e todos os direitos. E contra ele nada foi apurado. Nenhuma acusação, de nenhuma natureza, prevaleceu. O presidente desta Comissão, Desembargador Emílio Póvoa (que também foi membro do triunvirato que governou o Estado pós 30), disse em carta-resposta ao senador Ramos Caiado: “… quanto a sua vida pública disse a última palavra à extinta Comissão de Sindicância nesta cidade, antiga Capital do Estado, que, apesar da boa vontade que tinha nada conseguiu apurar em desabono de sua conduta pública”. Esta resposta de sua total inocência em todos os processos só veio no ano de 1944, e não tendo como publicá-la, levou para registro no 2º Ofício da Comarca da Cidade de Goiás, às folhas 268, 268 verso e 269 do livro “B”, em 17 de fevereiro de 1944. Foi o único meio encontrado de deixar para a História prova da sua conduta ilibada na condução da coisa pública, contraditando todos que tentaram destruir sua história, munidos de falsas alegações. 

Em 1934 o juiz eleitoral doutor João de Abreu negou a capacidade eleitoral do senador Ramos Caiado, sob o argumento de ter sido este revolucionário em São Paulo. Negou-lhe o título eleitoral, apesar de ciente que, durante aquele período, Ramos Caiado estava preso por perseguição política do ditador estadual e incomunicável, no quartel de polícia do Estado. Assim, o inabilitou para candidatar-se ao Congresso Nacional.

Em 1937, com o golpe de Estado Novo e a nomeação de Ludovico como Interventor Federal, as perseguições e hostilidades aumentaram. Nessa época não era permitida qualquer menção honrosa a ele ou à sua família. Só podia ser mal falado. Muitos conseguiam cargos e prestígio só por atacarem a família de Totó Caiado através dos jornais. A primeira vez que lhe foi permitido responder à imprensa foi a 29 de outubro de 1945, após 15 anos de ataques sistemáticos à sua pessoa e família. 

Após 1945 Totó Caiado dedicou-se ao apoio político de companheiros, às cavalgadas, às lidas rurais e, sobretudo, à advocacia e aos seus poemas. Sim, Totó foi um poeta, sensível e apaixonado, que o diga sua doce e amada esposa Mariquita. 

Este grande vulto de Goiás, faleceu em sua casa, na Cidade de Goiás, no dia 14 de janeiro de 1967, aos 92 anos de uma vida plenamente dedicada à Goiás, à sua pátria e à sua família. Escreveu Alfredo Nasser sobre Totó Caiado: “Nada me honra mais do que ter iniciado a vida pública privando da amizade desse grande goiano, em cuja existência as gerações mais novas poderão encontrar fartos exemplos de austeridade, compostura e elevação no trato dos negócios públicos”.

Na apresentação de seu livro, “Alfredo Nasser – o Líder não morreu”, Consuelo Nasser fala de várias pessoas que ajudaram a construir a História goiana e dela foram depois excluídos, dentre os citados, Totó Caiado. Passados 113 anos do início do apogeu do líder goiano Totó Caiado, conclamo os nossos historiadores para um debate de ressignificação da História de Goiás, como ela realmente se deu, sem as inconvenientes paixões políticas – exacerbadas após a Revolução de 1930 – que macularam a verdade dos fatos e legou ao estado uma História de conveniências.

Edenval Ramos Caiado
O dia de hoje muito representa para a família de Totó Caiado, pois as datas de nascimento e morte sempre são mencionadas nesse intervalo chamado vida. Entre uma e outra, temos oportunidade de mostrar a que viemos, e para onde iremos. Meu avô Totó teve dois netos nascidos nesta mesma data, este que escreve o presente artigo e a prima Elaine Caiado Rocha Lima Spenciere, e também um trineto de nome Thales Caiado Ribeiro Lucas.  

Também nessa data temos o crepúsculo da brilhante trajetória de seu filho Edenval Ramos Caiado (nascido em 01/06/1916 e falecido em 15/05/2002), primogênito do casamento com minha avó Mariquita. Há exatos vinte anos nos deixou esse cidadão de destaque na vida pública do estado de Goiás.

Foi um dia de comoção para todos, especialmente para os cidadãos anapolinos que conheceram e conviveram com esse grande homem. Edenval era advogado, formado em Ciências Jurídicas pela Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, inscrito com o número 276 da OAB-GO. Militou profissionalmente em todo o estado de Goiás, especialmente na Comarca de Anápolis, onde residiu toda sua vida após sua formatura.

Edenval Caiado foi atuante líder partidário da União Democrática Nacional (UDN) e siglas que a sucederam, como a Aliança Renovadora Nacional (Arena), Partido Democrático Social (PDS) e Partido da Frente Liberal (PFL), liderança marcada pela coerência e lealdade aos companheiros de caminhada política.

Lembro-me bem do tio Edenval em sua fazenda Furna da Onça, onde criava um maravilhoso gado Gir e cavalos Manga-larga Marchador, tendo em seu plantel inúmeros animais premiados nas mais diversas exposições agropecuárias do Estado de Goiás. Tinha um lindo cavalo campeão que se chamava, salvo engano, Jeito do Passatempo.

Assim que me inscrevi na OAB-Goiás, fui lhe fazer uma visita em sua casa em Anápolis para mostrar a carteira de advogado e fui pego no contrapé, pois me intimou a fazer um júri de defesa do filho de um amigo em Goianápolis, não aceitando qualquer recusa. Procurei então o meu mestre, o hoje saudoso professor Laerte de Amorim Mendonça, que se prontificou de fazermos juntos, sem qualquer paga de honorários, aquele que seria o meu primeiro júri. Sei que fomos bem-sucedidos na defesa de nosso constituinte. Mais uma vez agradeço ao professor Laerte, pois seria impossível não atender a um chamado do tio Edenval.     

Edenval Ramos Caiado gerou seis filhos, dentre eles o hoje governador Ronaldo Ramos Caiado, que no momento da sua oração de despedida assim se referiu ao pai: “Transmitiu tudo isso a nós filhos e aos amigos de uma maneira muito forte, o que ele herdou de seu pai senador Totó Caiado, que vale a pena ser leal, ser honesto, ser companheiro, porque esse é o grande patrimônio que um homem pode construir aqui na terra”.

Totó Caiado anotou em seu diário, na data de 1° de junho de 1960 (quarta-feira) a seguinte frase sobre o filho: “Aniversário de Edenval. Passei-lhe um telegrama de felicitações para Anápolis. Este filho é o que se mostra mais dedicado a mim”.

Quis o destino unir pai e filho no mesmo 15 de maio, sempre lembrado e festejado por nossa família.

Alexandre Ramos Caiado, neto de Totó Caiado e sobrinho de Edenval, é advogado e pesquisador, presidente do Sindicato dos Advogados do Estado de Goiás – SAEG, Conselheiro Seccional da OAB/GO, presidente da Comissão de Acompanhamento Forense – CAF/OAB/GO, titular da cadeira nº. 46, patronímico de Antônio Ramos Caiado, do Instituto Cultural Bernardo Élis – ICEBE, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI).

4 respostas para “15 de maio marca 148 anos do nascimento de Totó Caiado e 20 anos da morte de seu filho Edenval Caiado”

  1. Avatar Salatiel Soares Correia disse:

    Excelente reportagem. Repleta de dados a respeito do importante líder político anterior a Revolução de 1930, Totó Caiado.
    É do meu conhecimento o excelente nível cultural de muitos integrantes da família Caiado.
    Ao ler essa reportagem, tomei conhecimento da liderança estudantil de Totó Caiado exercida num dos templos da cultura jurídica no país: o tradicional Largo do São Francisco em São Paulo .Parabéns ao autor da matéria.

  2. Avatar fleurymar de souza disse:

    Muito esclarecedor o seu relato. São fatos históricos que muito nos esclarecem por reportar episódios esquecidos pelo tempo, mas rememorados com ricos detalhes que ganham fundamental importância. Parabéns!

  3. Avatar Nilson Gomes-Carneiro disse:

    Que aula de História! Parabéns, Alexandre Caiado

  4. Avatar Aguinaldo Caiado de Castro Aquino Coelho disse:

    Parabéns Alexandre. Excelente! Que artigo estupendo! Fico orgulhoso pelo trabalho do primo e pelos feitos dos parentes!

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