Eu acordava cedo e via o Paulo Francis na televisão
05 fevereiro 2026 às 12h21

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Desde pequeno eu sempre acordei cedo. Levantava da cama, tomava café e ia para a sala assistir televisão. Para se ter uma noção do quão cedo eu acordava, as emissoras não tinham começado a programação do dia quando eu ligava a TV. Tenho comigo a teoria que eu ligava a televisão logo cedo para não perder a hora do Xou da Xuxa. Eu assistia o Bom Dia Brasil e uma figura me chamava a atenção. Um cara, de cabelo meio grisalho, com os óculos grossos, falava de um jeito engraçado. Eu não entendia nada do que esse cara falava, mas eu achava engraçado.
O nome desse cara era Paulo Francis. Com o passar do tempo, eu fui crescendo e conhecendo mais sobre aquele cara que me chamava a atenção quando eu assistia o Bom Dia Brasil. Francis era jornalista, foi um dos fundadores do Pasquim, jornal que debochava da ditadura, e crítico de teatro. Aliás, o seu papel de crítico lhe rendeu alguns dessabores como no dia que Paulo Autran deu uma cusparada em seu rosto após uma crítica à atuação de Tônia Carreiro.
Francis viveu os tempos áureos do Rio de Janeiro ainda capital do Brasil. Na época do golpe de 1964, ele trabalhava no Última Hora e, em sua coluna, descia a ripa nos opositores de João Goulart, em especial, no Carlos Lacerda. Atire a primeira pedra quem nunca trabalhou no Última Hora e não falou mal do ex-governadores da Guanabara. Em 1969, lá estava Paulo Francis se juntando a Millor Fernandes, Jaguar, Tarso de Castro e outros bambambans do jornalismo para criar o Pasquim.
Nos anos 1980 e 1990, Francis se mudou para os Estados Unidos onde abandonou as ideias de esquerda e abraçou o liberalismo. Contratado pela Globo para fazer comentários culturais, Francis caiu no gosto do público. Sua inteligência misturada à voz tão característica o fez ganhar muitos admiradores e detratores também. Em 1996, quando era a estrela do Manhattan Connection, na GNT, Francis fez severas críticas aos diretores da Petrobras. Isso lhe rendeu um processo que amargou os últimos meses de sua vida. Mas, a Operação Lava Jato mostrou que Francis tinha razão.
O coração de Paulo Francis parou de bater no dia 4 de fevereiro de 1997. O Jornal Nacional prestou uma bonita homenagem colocando frases de Francis a cada intervalo. Ali eu vi que a figura da voz esquisita que me chamava a atenção quando eu era pequeno faria uma falta danada.

