*Carlos César Higo

Em julho de 1946, o Brasil vivia os agitos da Assembleia Constituinte que iria elaborar uma nova Constituição. Seria a quinta de nossa história e a quarta somente no período republicano. O fim da Segunda Guerra Mundial e a queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas no ano anterior animaram os políticos a elaborarem uma Carta que restituísse os direitos fundamentais e as liberdades aniquiladas pela ditadura varguista e fosse condizente com o espírito democrático predominante no mundo ocidental.

Além disso, outro assunto pautava as discussões dos constituintes: a mudança da capital federal. A primeira Constituição republicana, de 1891, já trazia um artigo a esse respeito. A Segunda Guerra mostrou a vulnerabilidade do Brasil ao ter sua capital no litoral. Era preciso transferir a sede do Poder Federal para o interior promovendo a sua segurança e o desenvolvimento do interior brasileiro. Muita gente que morava perto do mar não conhecia o restante do seu próprio país. Desde a década de 1920, com a Missão Cruls, que já se conhecia o lugar onde seria construída a nova capital sede dos poderes da União.

Durante as discussões sobre a transferência, em 1946, várias opções de cidades surgiram. Goiânia foi colocada na pauta das discussões. Diógenes Magalhães, deputado por Goiás, fez um discurso na Assembleia Constituinte defendendo a capital goiana como sede dos Três Poderes. Segundo ele, Goiânia era uma cidade nova, construída seguindo todos os novos preceitos de urbanismo e levaria o desenvolvimento econômico para o Brasil Central. O deputado conclamou as classes produtoras goianas a fazerem campanha pela causa. Até uma comissão foi criada. Caso Goiânia se transformasse em capital do Brasil, a capital de Goiás passaria a ser Anápolis. Promulgada a Constituição de 1946, Goiânia continuou sendo a capital de Goiás, mas o artigo 4º dos Dispositivos Transitórios trazia novamente a transferência da capital federal para o Planalto Central. Só faltava um Presidente da República cumprir o que o artigo mandava.

E esse Presidente foi Juscelino Kubitschek. Em sua campanha presidencial em 1955, ele prometeu cumprir a Constituição artigo por artigo e, perguntado quando esteve em Jataí (GO), se eleito cumpriria o artigo 4º das Disposições Transitórias que falava sobre a mudança da capital federal, ele disse que a cumpriria. E de fato Kubitschek cumpriu o que prometeu e não somente inaugurou Brasília em solo goiano como transferiu o poder para o seu sucessor eleito pelo voto popular. Se Goiânia não virou a capital federal, pelo menos Goiás confiou uma parte do seu território para abrigar a capital do país.

Mas a ideia de Goiânia ser a capital federal não parou em 1960, quando Brasília foi inaugurada. No ano seguinte, durante a crise desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros e a negativa dos militares em dar posse ao vice João Goulart, Goiânia voltou aos debates nacionais como possível capital federal. Caso o impasse continuasse, a capital goiana seria a sede dos Três Poderes e daria posse ao Presidente Jango. Pensou-se, a priori, em transformar o Cine Teatro Goiânia para ser a sede do Congresso. Até o prédio onde funcionava o Instituto de Educação de Goiás, hoje é a Secretaria de Educação, na Vila Nova, foi cogitado para abrigar as possíveis sessões parlamentares. Como o governador goiano Mauro Borges apoiou a imediata posse de Jango, Goiânia voltou a ser vista como possível capital federal provisória para dar posse ao novo Presidente da República.

A crise de agosto e setembro de 1961 foi contornada com a implantação do Parlamentarismo no Brasil limitando os poderes presidenciais de João Goulart. E Goiânia continuou sendo a capital de Goiás enquanto Brasília continuou sendo a capital do Brasil. Como sempre foi.