Márcio M. Cunha
Márcio M. Cunha

18 de Brumário; e as lições para o presente

Ao invés do parlamento governar para o povo, buscar o consenso e formas para minimizar o abismo social, preferiram até o fim conservar os privilégios obtidos

No século XIX a classe proletária francesa combalida e extenuada pela constante exploração dos burgueses, iniciou em 1848 articulações para desapossar a monarquia autocrática. 18 Brumário de Luís Bonaparte, é uma das obras mais céleres de Karl Marx e vale a pena refletirmos sobre as lições que podemos tirar sobre disputas de ego em poder ultimam a democracia.

Em 1789, proêmio da chamada Revolução Francesa, onde a população derrubou a monarquia absolutista em 1792, fazendo com que Luís XVI fosse deposto e se iniciasse uma era de revoluções. Lembrando que, apesar dos ideais burgueses presentes na Revolução Francesa, esta contou também com forte apoio dos populares da época.

Borbulhando uma nova revolução, Marx passou a estudar esse período tecendo certos pensamentos, teorizando por exemplo, a luta de classes, onde dividiam-se entre burgueses e proletários. A luta de classes entre monarquistas, Partido da Ordem, republicanos e proletários foi intensa, ante o caos político em que a França se encontrava e a ascensão de Luis Bonaparte era iminente.

Sem dinheiro ou condições de adequadas de vida, os proletariados reivindicavam reformas sociais mais profundas pelo Estado, vez que, os valores da Revolução Francesa iniciada em 1789, não os serviam adequadamente, contrários à esse transformação Monarquistas e Republicanos que eram compostos em sua maioria por burgueses, que se afeiçoaram com Luis Bonaparte e se uniram para manter as benesses conquistadas a partir do desmantelamento da monarquia.

Em 1848 então se iniciava a Segunda República, com um governo provisório, até a constituição de uma nova Assembleia Constituinte em maio daquele ano foi possível a participação do proletariado socialista, em sua minoria, e dos burgueses, latifundiários e monarquistas, em sua maioria. Consequentemente, os proletariados que queriam ver instauradas suas reformas sociais, como por exemplo o controle das empresas aos trabalhadores, era constantemente refutada pela maioria burguesa.

Os desencontros argumentativos levaram a uma nova onda de protestos em paris, lideradas por alguns burgueses que pretendia ver algo parecido com movimentos de outras partes da Europa (poloneses) e pelos proletários que viam constantemente suas propostas recusadas em assembleia. Mais tarde, os proletariados foram destituídos da Assembleia, e seu líder preso, piorando o cenário político, e reforçando ainda mais o conservadorismo da Assembleia.

O Voto universal, recuperado outrora, voltou a ser censitário, instituindo renda mínima, consequentemente ignorando os proletários e favorecendo burgueses e monarquistas. Isso causou uma insurreição, fazendo com que toda a classe operária lutasse sozinha contra as demais classes que se uniram (burgueses, aristocratas e burgueses). Marx entendia isso como a verdadeira luta de classes.

Com o fim da Assembleia e as eleições presidenciais, Luis Bonaparte se candidatou e venceu com 5,5 milhões de votos de um total de 7 milhões, se aliou com o partido da ordem (aristocratas e alta burguesia) enquanto remanescentes socialistas se aliavam com os burgueses republicanos (baixa burguesia).

Com Luis Bonaparte eleito presidente, e o passar dos anos, várias foram as tentativas de impeachment para destituí-lo, contudo, todas falhas, e com várias manobras, conseguiu ir retirando poderes do legislativo e fortalecendo o executivo. O parlamento passa a entrar em ruptura entre seus próprios integrantes, ao mesmo tempo que desafiam Bonaparte, até que em dezembro de 1851, o parlamento sucumbe a Luis Bonaparte, que convoca um plebiscito sobre a volta do voto universal. Com a volta do voto a todas as classes, e com amplo apoio da população mais pobre, Luís Bonaparte aprova uma nova constituição, lhe dando o título de consul e poder ditatorial por dez anos. No ano seguinte, e com apoio da grande burguesia, convoca um novo plebiscito e com 95% dos votos, institui a volta do Império, repetindo o golpe de seu tio avô, 50 anos antes.

Em suma, o 18 Brumário, escrito por Karl Marx, não só evidencia a luta de classes entre proletariado e burguesia, como também as várias classes oriundas da burguesia e outras que a cercavam, e como Luis Bonaparte se aproveitou dos constantes conflitos entre essas classes que compunham o parlamento francês (Assembleia Nacional Constituinte – ANC e Assembleia Nacional Francesa – ANF) para repetir o golpe feito pelo seu tio, e com amplo apoio da população.

O fator determinante para a queda do parlamento, não partiu das manobras inteligentes de Luis Bonaparte, mas sim na disputa de egos que acontecia no parlamento francês. Como as classes queriam governar para si em detrimento das demais, enquanto tinham interesses em comum se aliavam e iam suprimindo as vozes da minoria, até que no fim, suas forças se anularam. Entre constantes embates contra o executivo e contra as demais classes, o legislativo perdeu suas forças, favorecendo então um novo golpe de estado.

Ao invés do parlamento governar para o povo, buscar o consenso e formas para minimizar o abismo social, preferiram até o fim conservar os privilégios obtidos, não dar voz a ampla maioria da população francesa (ao manter a todo custo o voto censitário) e assim, abriram caminho para as manobras políticas de Luís Bonaparte que culminou em seu próprio 18 Brumário.

Marx trouxe lições importantes estudando esse conturbado período da história francesa, sendo um dos mais importante ao longo dos anos. Inacreditável como o legislativo pôde destoar dos demais poderes da república, e ao mesmo tempo, ruir e facilitar um golpe de estado. Contudo, a partir do momento em que, se perdem sua principal função (legislar para o povo) e passam a usar de seu cargo para conseguir privilégios, demonstrou assim, que a revolução contra os excessos e abusos pode significar a derrocada da democracia.

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