Lupicínio Rodrigues e a eternidade da dor de cotovelo
30 setembro 2025 às 10h45

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Há poucas semanas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.204/2025, que concede a Lupicínio Rodrigues, ao lado de Pixinguinha, o título de Patrono da Música Popular Brasileira. A escolha é simbólica e reveladora: Lupicínio, mestre do samba-canção e criador confesso da chamada “dor-de-cotovelo”, agora divide com Pixinguinha, pai do choro, o lugar de guardião da nossa memória musical. É a consagração oficial de um legado que o povo brasileiro já havia elegido há décadas, ao cantar em uníssono versos como:
“Esses moços, pobres moços…”
Do ponto de vista histórico, o reconhecimento não poderia ser mais oportuno. Em um país que por muito tempo relegou a música popular ao lugar de entretenimento menor, ver os nomes de Lupicínio e Pixinguinha inscritos no panteão dos grandes criadores reafirma que a MPB é, sim, uma das mais refinadas expressões de nossa cultura. Como bem pontuou a ministra da Cultura, Margareth Menezes, ao celebrar a sanção da lei:
“Importantes atores na construção da nossa identidade cultural estão sendo reconhecidos. Viva Lupicínio. Viva Pixinguinha. Viva a cultura brasileira!”.
O título de patrono é destinado a brasileiros falecidos há pelo menos dez anos e que tenham se destacado por contribuição excepcional ao segmento homenageado. Com isso, o Brasil transforma em lei aquilo que o povo já sabia de cor:
“Lupicínio é eterno”.

O documentário Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor, dirigido por Alfredo Manevy, revela um homem que fazia da própria biografia matéria-prima de sua música. Boêmio, gremista apaixonado, proprietário de bares e churrascarias, Lupicínio escreveu mais de 150 canções, inclusive o hino do Grêmio. Foi capaz de traduzir o abandono amoroso em versos de beleza lapidar, criando um gênero em si mesmo. A expressão “dor-de-cotovelo” tornou-se quase um conceito sociológico, a imagem do sujeito encostado ao balcão, cotovelos fincados, pedindo um uísque duplo para anestesiar a perda.
Do ponto de vista estético, o samba-canção de Lupicínio expande o lirismo da música urbana brasileira. É sofisticado, mas popular; é coloquial e ao mesmo tempo poético. Suas harmonias são simples, suas melodias cantáveis, e é exatamente aí que reside seu gênio: ele sabia que a canção deveria ser memória compartilhada, que a dor só se cura quando é cantada em coro.
Ao celebrar Lupicínio Rodrigues, celebramos também a vitória de uma política cultural que reconhece a centralidade da música na formação de um país. Ao lado de Pixinguinha, ele não apenas compôs canções, ajudou a construir a sensibilidade brasileira.

Para mergulhar no universo de Lupicínio, ouça Nervos de Aço na voz de Paulinho da Viola. Nesta gravação, fique atento à delicadeza com que Paulinho constrói cada frase: sua voz é contida, quase íntima, e os silêncios entre os versos funcionam como parte da narrativa. Antes de cantar, Viola conta um episódio interessante sobre “um novo olhar” para essa obra. Observe como ele procura “servir à música do compositor”, respeitando o espírito original da canção.
Note como o acompanhamento de violão é minimalista, deixando espaço para que cada palavra se assente e reverbere no ouvinte. Essa interpretação de Paulinho da Viola transforma a dor em contemplação, quase em oração, um convite a sentir, em silêncio, a beleza triste de Lupicínio. É a síntese perfeita da estética do compositor: resignação, elegância e um lirismo que transcende o sofrimento individual para se tornar experiência coletiva.

