Na noite do ultimo domingo, 8, o mundo assistiu a algo que ultrapassou em muito a categoria de entretenimento. O espetáculo de Bad Bunny, apresentado no intervalo do Super Bowl, inscreve-se naquele território raro em que a música deixa de ser apenas linguagem estética para se tornar gesto histórico, cultural e político. Foi um concerto que se impôs menos pela pirotecnia, embora ela estivesse lá, e mais pela densidade simbólica de cada escolha: repertório, idioma, corpo, imagem e silêncio.

Benito Antonio Martínez Ocasio, nascido em Vega Baja, Porto Rico, não chegou a esse palco por acaso. Sua trajetória, do SoundCloud ao topo das paradas globais, é paradigmática de uma virada civilizatória na música pop contemporânea: pela primeira vez, um artista não anglófono não apenas ocupa o centro da indústria, como o redefine a partir de seus próprios códigos. Bad Bunny não traduz sua cultura para caber no mercado global; ele obriga o mercado global a escutá-la em espanhol, em ritmo caribenho, em referências locais, em feridas abertas.

Um casamento real aconteceu durante a apresentação | Foto: divulgação

O show de domingo foi exemplar nesse sentido. Ao longo de 13 minutos, Bad Bunny construiu uma narrativa visual e sonora que devolveu ao palco do Levi’s Stadium imagens do cotidiano porto-riquenho e latino-americano: casas simples, mercados, plantações, danças populares, idosos jogando dominó, casamentos comunitários. Não se tratava de folclore estetizado, mas de memória viva, uma afirmação clara de pertencimento. O artista não performou “para” a América; ele expandiu o significado do que é América.

A opção radical de manter o espanhol como língua principal do espetáculo não foi detalhe técnico, mas afirmação política. Em um dos maiores palcos midiáticos do planeta, Bad Bunny afirmou que o idioma do poder não precisa ser único. Quando, ao final, proclamou “God bless America” e imediatamente nomeou Chile, Argentina, Brasil, México e tantos outros países do continente, ele desmontou, com precisão poética, a ideia restritiva de uma América reduzida a fronteiras nacionais. A América, ali, era continente, história partilhada, diversidade irredutível.

Essa dimensão política não se deu por slogans explícitos, mas por aquilo que a arte faz de mais potente: deslocar imaginários. Ao trazer bandeiras, ritmos, corpos e narrativas historicamente marginalizadas para o centro da cena, Bad Bunny transformou o espetáculo em uma tomada de posição estética. Lembremos a célebre frase do crítico Mário Pedrosa: “Em tempos de crise, fique perto de um artista.” No ultimo domingo, o mundo esteve perto de um.

Rick Martin, Bad Bunny e Lady Gaga nos bastidores do Super Bowl | Foto: Reprodução/@Instagram/ @rick_martin /

A presença dos convidados Lady Gaga a Ricky Martin, passando por figuras da cultura pop e do cinema, reforçou não uma hierarquia, mas uma comunhão. Lady Gaga, ao adaptar sua canção ao ritmo latino, não foi “traduzida” por Bad Bunny; foi incorporada ao seu universo. A salsa, o reggaeton, os gestos corporais coletivos ocuparam o centro da cena com naturalidade, sem pedir licença.

Não é casual que Bad Bunny seja hoje reconhecido não apenas por números impressionantes, recordes de streaming, prêmios, lideranças nas paradas, mas por sua postura ética e simbólica. Ao longo de sua carreira, ele tensiona os limites de um gênero frequentemente associado ao machismo e à homofobia, afirmando outras masculinidades, defendendo corpos dissidentes e denunciando violências, como fez em apresentações marcantes na televisão norte-americana. Sua arte opera no cruzamento entre mercado e resistência, visibilidade e dissenso.

O espetáculo de domingo não foi consensual e não deveria ser. A arte que importa raramente é confortável. Ao ser chamado de “afronta”, revelou-se exatamente aquilo que o tornou necessário. Afrontar, aqui, não no sentido vulgar da provocação vazia, mas como gesto de questionamento profundo:“ a quem pertence o centro? Quem pode falar? Em que língua? Com que corpo”?

Bad Bunny | Foto: divulgação

Bad Bunny não incendiou o palco apenas com hits. Incendiou-o com sentido. E, ao fazê-lo, lembrou ao mundo que a música pop, quando atravessada por consciência histórica e densidade cultural, ainda pode ser uma das formas mais sofisticadas de pensamento contemporâneo.

Vamos revisitar o espetáculo a partir da escuta. Fique atento a Bad Bunny  em um show se organiza como uma suíte contínua, sem cortes bruscos; à centralidade do ritmo sobre a melodia, com células curtas e repetitivas que funcionam como mantras coletivos; ao uso do espanhol não apenas como idioma, mas como matéria sonora integrada ao beat; à fusão entre reggaeton e tradições caribenhas, especialmente nos momentos de salsa; ao papel do corpo e da dança como extensão percussiva da música; e, sobretudo, à forma como som, imagem e silêncio constroem uma dramaturgia que transforma entretenimento em discurso cultural.

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