Nilson Gomes

Acha que o clima político está quente, com aliados do poder atacando a Polícia Federal a fuzil e tiros no interior do Rio de Janeiro e queimando a sede da instituição em Brasília? Você precisava ter vivido no Brasil do início da segunda metade do século passado. Contraditoriamente, o mundo pegava fogo com a Guerra Fria. Em meio a essa confusão, o governo da União Soviética escolheu três militantes de Goiás para treinar guerrilha em Moscou: José Moraes, Tabajara Póvoa e Clóvis Monteiro. Às 4 da madrugada de quarta-feira, 14/12, Moraes morreu em casa, no Parque Itatiaia, em Goiânia, aos 94 anos. Velório (a partir das 7 da noite de hoje) e sepultamento (às 9 da manhã desta quinta-feira) no Cemitério Jardim das Palmeiras, na Fama. Ficam as lembranças e as histórias, muuuuuitas histórias.

No movimento comunista internacional, Moraes ganhou o apelido que no Brasil é tão famoso que virou aplicativo de entrega de bebidas patrocinador de transmissões da Copa do Qatar: Zé. Quando embarcou para a URSS, Zé já estava casado com Sebastiana Moraes, que na esquerda era a Fiíca. Tinham uma filha, Lígia. Hoje, Zé deixou Lígia, mais oito filhos, 31 netos, 29 bisnetos e quatro tataranetos. Fiíca e Lígia ficaram em Goiânia enquanto Zé era capacitado para a revolução que nunca veio. Ele, sim, voltou em 1955, após dois anos fazendo cursos teóricos e práticos pós-período de Ióssif Stalin. Até que…

Até que Carlos Marighella, capitão do Exército Brasileiro, convocou Zé e Fiíca para reunião em Campinas, São Paulo. Marighella virou filme dirigido pelo ator Wagner Moura em 2021, com o cantor Seu Jorge interpretando o militar. Mas àquela época, entre o suicídio de Getúlio Vargas e a ascensão de Juscelino Kubitschek, Marighella era tão bem recebido nos círculos da política quanto sua cinebiografia foi recepcionada pelos bolsonaristas. O subtítulo do livro de Mário Magalhães, que embasou a obra de Moura, resume bem: “O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”. Nada bombeiro, o casal compareceu ao aparelho (local de encontros clandestinos de adversários do governo) e recebeu de Marighella a ordem de retornar para Goiás, se estabelecer em duas cidades-gêmeas, Ceres e Barranca, hoje Rialma (200km a norte de Goiânia) onde já estavam diversos comunistas, como José Sobrinho Fernandes, Dirce Machado, Geraldo Tibúrcio, o Geraldão. Ao trazer a experiência, Zé enriqueceu o cabedal da companheirada, que em seguida iria se unir a seu xará José Porfírio, que havia tempos estava à frente da chamada Revolta de Trombas e Formoso, composta por trabalhadores da Liga Camponesa no Norte de Goiás.

José Moraes: ligações com Carlos Marighella | Foto: Arquivo da família

O movimento foi desfeito com o golpe civil-militar de 1964, que já encontrou o casal Morais vivendo em Goiânia, onde Zé chegou inicialmente em 1943, junto com a família do agora recém-eleito deputado estadual Mauro Rubem, atualmente vereador na Capital. Trabalhador desde a infância, Zé aprendeu um ofício engenhoso, a linotipia. Numa comparação meio esdrúxula, é como se você aí digitasse num teclado em conexão com um tambor de chumbo derretido e as letras se tornavam palavras numa barrinha escritas às avessas. Zé nasceu em Uberaba, Minas Gerais, e aprendeu a profissão a 100 km dali, em Uberlândia, na tipografia da família Jonas.

A Segunda Grande Guerra (1939-1945) estava no auge, mas a economia mundial passava pela decadência absoluta. As novidades demoravam a chegar ao interior, porém as más notícias andam longe e depressa. Crise, crise, crise. Os empregadores, de ascendência árabe, resolveram mudar residência e loja para a florescente Capital goiana, cuja expansão também era sabida a distância. Os Jonas praticamente adotaram Zé, que veio com eles e a gráfica. Cresceu juntamente com Rubem Jonas, pai de Mauro Rubem. Estudioso, logo entendia de política, estimulado pelo clã Jonas (Mauro Rubem não foi o primeiro comunista da casa) e começou a participar de conversas sobre a representação classista. Em pouco tempo virou liderança da categoria. Eis a explicação para, dez anos depois, o selecionarem para passar uma temporada na então grande potência do comunismo, do outro lado do planeta.

Carlos Marighella: líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) | Foto: Reprodução

Quando estavam em Moscou, José Moraes, Tabajara Póvoa e Clóvis Monteiro foram informados da morte do grego Nikos Beloyannis, estudante de Direito ligado ao Partido Comunista da União Soviética. Em conjunto, decidiram homenagear o camarada: os primeiros filhos que tivessem seriam batizados em sua lembrança. Cumpriram. Hoje, um Beloyanis (com um “n” a menos), Pedro Beloyanis, filho de Zé Morais, é repórter-fotográfico em Goiânia. Outro Beloyanis, filho de Tabajara, jogou no meio de campo do Atlético Goianiense nos anos 1970, ao lado de um atacante, seu irmão Tung (cujo nome, claro, era Mao Tsé-tung, em tributo ao líder chinês, um genocida à altura de Stálin). O terceiro Beloyanis, filho de Clóvis, é um dos diretores da ONG ambientalista SOS Mata Atlântica, no Rio de Janeiro.

A fidelidade de José Moraes a sua ideologia durou muito, mas ficou abalada desde a revelação, no ano seguinte à volta para o Brasil, dos “Crimes de Stálin”, um combo de atrocidades cometidas pelo monstro contra seu próprio povo. Ainda assim, sou testemunha de sua militância. Fomos vizinhos no setor Fama e colegas de gráfica no “Cinco de Março”, eu ainda meninão, ele com quatro décadas e muito currículo a mais. Na era pré-e-mail e WhatsApp, recebi um panfleto de sua candidatura a vereador em Goiânia. Título do sonhador: “Aos operários”. Mais tarde, passado dos 70 anos, montou uma tipografia, com maquinário que de forma alguma conseguiria concorrer com as gráficas modernas da Goiânia que iniciava o novo milênio.

Outra história maravilhosa de José Morais é a de amor com Sebastiana de Oliveira Morais, que gerou sete mulheres e dois anos. Fiica era filha de Juca Ferreira, um farmacêutico formado pela Universidade Federal Fluminense que virou sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro e depois ajudou a refundar o renovado Partido Comunista em Goiás. Zé Morais foi preso algumas vezes, porém não sofreu agruras do nível das suportadas pelo sogro.

Numa vez em que a PM cercou estudantes que protestavam no Centro de Goiânia, e Sebastiana estava entre eles, José Morais saiu correndo das imediações da Praça do Bandeirante tentando conseguir algum uniforme. Atravessou a esquina da Avenida Araguaia com a Rua 3 e, perto do Liceu, um secundarista topou vender a camisa do colégio. Zé pagou com tudo o que tinha no bolso, vestiu a blusa, rumou 100% e a mil por hora para onde estavam os estudantes. Quando o policial que o abordou viu o uniforme, perguntou-lhe o que fazia ali e ele disfarçou: “Vim buscar minha namorada”. Teve autorização para ultrapassar o cerco: “Vá logo e tire ela dessa confusão”, aconselhou o militar. Zé foi atrás de Sebastiana e ficou, ficou, ficou e ficaram juntos durante quatro décadas, até 2008, quando ela morreu. Há quatro meses, foi descoberto câncer de pulmão no namorado de Sebastiana. Suportou o que pôde. Saiu do mundo ao qual não mais pertencia, mas que ajudou a formatar desde os componedores da tipografia.

Nilson Gomes é advogado e jornalista. É colaborador do Jornal Opção.