Woody Allen deve ser criticado como abusador sexual. Proibir sua autobiografia não é democrático
15 março 2020 às 00h00

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O diretor de cinema fez filmes extraordinários e sua obra pode ser criticada mas não deve ser censurada. Já o indivíduo merece as críticas que vem recebendo

Julguem Woody Allen. Condenem Woody Allen. Prendam Woody Allen. Há indícios fortes de abuso sexual contra uma filha, Dylan Farrow, quando ela era uma criança de 7 anos. Aos 34 anos, ela mantém a mesma posição, e um irmão, o jornalista Ronan Farrow, postula que está falando a verdade. O cineasta nega, mas não é convincente.
Portanto, se é um diretor de cinema “genial” — na verdade, parece ter perdido a mão, e seus últimos filmes são fracos, até muito fracos —, não deixa de ser um “assediador”, para não usar um termo mais pesado. A execração pública que vem sofrendo não deixa de ser justa. Um criminoso sexual não merece “perdão” só porque é um criador cultural de respeito (há, entre certos intelectuais, uma certa condescendência com o diretor de “Manhattan”). Merece mesmo o desprezo da sociedade.
Ainda assim, sua obra cinematográfica merece ser vista? Sim, merece. Recentemente, sob pressão da sociedade, uma editora dos Estados Unidos recuou de publicar sua autobiografia.
Caracterizou-se uma espécie de “censura do bem”. Mas é justa? Não. Ele tem o direito de publicar o que quiser, assim como, lido o livro, alguém, se se sentir agredido, pode processá-lo. E quem discorda de suas ideias e, sobretudo, de sua conduta, no lugar de trabalhar para vetar o livro, deveria, no máximo, deixar de lê-lo. A obra vai acabar saindo — agora ou depois da morte do cineasta, hoje com 84 anos. Deixá-la “mofar” nas livrarias seria o maior “castigo”. Mas é provável que aqueles que a condenam serão os primeiros a lê-la.

Céline, Ezra Pound, Drieu La Rochelle e Knut Hamsun
Não há a menor dúvida de que Louis-Ferdinand Céline era um homem execrável. Seu combate sistemático aos judeus o coloca na lista dos canalhas universais. Mas sua obra literária, de grande qualidade, deve ser proibida? Não. Nem mesmo o panfleto que escreveu contra os judeus deve ser proscrito. É preciso conhecê-lo. Até para criticá-lo e, se se quiser, combatê-lo. Winston Churchill combateu Hitler, desde o início, e rejeitou a política de apaziguamento de Neville Chamberlain porque havia lido “Minha Luta”, de Adolf Hitler. Ele soube, pela leitura, que Hitler iria à guerra, devido à ideia de espaço vital, e que os soviéticos, mais do que os ingleses, eram o seu principal alvo.

No caso de Céline, é possível distinguir o escritor, grande, do indivíduo, execrável. Erza Pound defendeu o fascismo de Benito Mussolini e, igualmente, atacou os judeus. Sua história merece ser contada de maneira completa, mas é preciso ressalvar que fez uma poesia e uma crítica literária de primeira linha. Merece louvor por ter “revisado” o romance “Ulysses”, de James Joyce, e “A Terra Devastada”, do poeta T. S. Eliot. As duas principais obras, na prosa e na poesia, do século 20.

Pierre Drieu La Rochelle é autor de boa literatura, como o romance “Fogo Fátuo” (que deu origem a um belo filme, “Trinta Anos Esta Noite”, dirigido pelo francês Louis Malle, em 1963), mas apoiou o nazismo, na França, e sua história é execrável (com algumas ressalvas). Ele se matou, em 1945, para “escapar” de ser penalizado pelos Aliados (alguns colaboracionistas foram condenados à pena de morte).
La Rochelle deve ser lido? Deve. Há um romance de sua autoria, “O Homem a Cavalo” — publicado pela Editora Tchê!, com tradução de Paulo Hecker Filho —, que precede a literatura sobre coronéis-ditadores de García Márquez e outros. De 1943, o livro é sobre um país da América do Sul. O interesse pelo continente sul-americano tem a ver, possivelmente, com sua paixão pela escritora, editora e mecenas argentina Victoria Ocampo, a criadora da célebre revista “Sur”, na qual pontificaram Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo (excelente contista).

Assim como o norueguês Knut Hamsun, Prêmio Nobel de Literatura, que escreveu sobre a morte do nazista Hitler: “Ele era um guerreiro, um guerreiro pela humanidade e um profeta da verdade e da justiça para todas as nações”. Mas sua literatura (Carlos Drummond de Andrade é tradutor de “Fome”) é maior do que o fascista.
O julgamento de uma obra literária — ou filme — deve começar por sua qualidade e não pelo caráter de seu autor. Mas o indivíduo, como Woody Allen, não precisa ser admirado e respeitado. Pode ser execrado. Porém a democracia, que em tese todos defendem — mesmo quando sugerem censura para aquilo de que divergem —, tem de ser “aplicada” a todos e a tudo. Se é assim, vale publicar a autobiografia do diretor de “Annie Hall”. Não ler é democrático. Criticar é democrático. Proibi-la não é democrático.

