Salvo engano, o apresentador sênior do “Jornal Nacional”, William Bonner, nunca disse que irá se aposentar em breve. Pelo contrário, está em franca atividade. Recentemente, ao apresentar o “JN” diretamente de Porto Alegre, às vezes nas ruas e até num navio, mostrou que, aos 60 anos, continua se reinventando.

Se William Bonner não informa que vai se aposentar brevemente, sites especulam que estaria “cansado” e pensando em passar uma temporada no exterior. Talvez seja verdade. Talvez a vontade exista, mas também é provável que permaneça ao menos mais uns cinco anos no comando do carro-chefe do jornalismo da Globo.

De acordo com um dos sites, o contrato de William Bonner com a Globo acaba em agosto deste ano. Ele já teria sido procurado para renová-lo.

Fala-se que William Bonner ganha, mensalmente, de 1 milhão a 1,5 milhão de reais para apresentar o “JN”. Procede? Na verdade, trata-se de especulação. Porque nem ele nem a Globo jamais apresentaram uma cifra.

Para permanecer na Globo, William Bonner, segundo o “indefectível” Alessandro Lo-Bianco, teria recebido uma proposta irrecusável: um salário de 2,5 milhões de reais (ou até mais) — o que, se verdadeiro, o consagraria, não exatamente como funcionário, e sim como acionista da empresa.

Ocorre que William Bonner e Globo, apesar de não desmentirem, não confirmaram a cifra espetacular — uma espécie de megasena por mês.

Aos 60 anos, William Bonner não é, a rigor, “velho”. Pelo contrário, sua voz permanece equilibrada e sua disposição para trabalhar — o que prova sua ida para o Rio Grande do Sul, atuando com firmeza na cobertura da enchente — se mantém elevada.

Jornal Nacional: modelo aposentável

O que “envelheceu”, se se pode dizer assim, foi o formato do “Jornal Nacional”. À noite, no conforto de suas casas, os telespectadores querem, de fato, uma síntese das notícias mais importantes do dia.

Entretanto, com a quantidade imensa de jornais, revistas, sites e emissoras de televisão e rádio massificando as principais notícias do dia, desde as 6 horas da manhã, quando o “Jornal Nacional” — mais repetindo do que acrescentando alguma informação nova — vai ao ar, às 20h30, os telespectadores ficam com a sensação de dejà vù.

Há alguma solução? Talvez tenha chegado o momento de, mesmo mantendo o caráter noticioso, acrescentar um pouco de opinião para reforçar o “Jornal Nacional”. Em dois minutos, Demétrio Magnoli poderia explicar a crise do Oriente Médio — o que o noticiário, por si só, não consegue fazer. As notícias, sobretudo a respeito de assuntos, digamos, “longínquos”, ficam soltas… no ar. A análise abalizada pode costurá-las. Maria Cristina Fernandes, um sopro de vida no “Em Pauta”, da GloboNews, poderia examinar as notícias políticas.

Finalmente, a questão talvez mais importante. O “Jornal Nacional” precisa deixar de ser “Jornal de Brasília”, “Jornal de São Paulo” e “Jornal do Rio de Janeiro”. Precisa, de fato, ser nacional. Noutras palavras, a Globo precisa “descobrir” o Brasil.

Antes das enchentes, o que sabíamos, se informados apenas pela Globo e outras emissoras, a respeito do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre e do Rio Guaíba? Quase nada. O presidente Lula da Silva espantou-se ao saber que na terra dos gaúchos há muitos negros. Outras pessoas, muitas, certamente pensaram o mesmo. Terra “de” alemães — certamente concluíram.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso publicou, pela Editora Civilização Brasileira (384 páginas), um livro notável: “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional — O Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul”. Trata-se de sua tese de doutorado.

Há pouco tempo, com registro nos principais jornais do país, uma vinícola importante do RS foi denunciada por manter trabalhadores em situação análoga à escravidão. Culpou-se, como sempre, os contratantes — os “gatos”, como se dizia antes. Mas o dono da empresa sugerir que “desconhecia” o que estava acontecendo na sua terra é de um cinismo imperdoável.

Não condenemos Lula da Silva, porque não apenas o presidente não sabia da existência — em grandes quantidades — de negros no Rio Grande do Sul. Lá, como em várias partes do país, negros foram usados — num genocídio sistêmico — como escravos.

E não se deve “condenar” apenas a Globo por não mostrar o Brasil, na sua inteireza, para os brasileiros. Os demais jornais ditos nacionais — inclusive o “Estadão”, a “Folha de S. Paulo” e “O Globo” — mostram o país apenas de maneira episódica, sobretudo quando ocorre uma tragédia ou um escândalo. O muro de Berlim caiu na Alemanha, mas os muros de Berlim não caíram no Brasil.

Então, voltando a William Bonner, talvez seja necessário aposentar um modelo de jornalismo, e não o jornalista.