Wilde, Maquiavel e as histórias da terra natal

Entre tantas pragas que ameaçam a cidade (ou os países, os continentes, ou cada indivíduo isoladamente) há aquela que é deixar-se entorpecer pela fortuna do passado

Halley Margon

De Barcelona

Alguns livros marcam seus autores tão intensamente que acabam por estigmatizá-los, obscurecendo ou literalmente fazendo desaparecer quase tudo o que fizeram antes ou depois daquele que lhe deu máxima e merecida fama. É o caso, por exemplo, do romance “O Retrato de Dorian Gray”.

Quem, entre o grande público leitor, saberá do que mais haverá escrito Oscar Wilde? Saberá, talvez, porque as colunas de fofocas sempre gostam desses assuntos, que mofou durante dois anos na cela de uma prisão de Sua Majestade a rainha Victoria — sob acusação de sodomia (pelo marquês de Queensberry, pai do seu amante lord Alfred Douglas). Mas não que dali escreveu uma das mais pungentes peças literárias da literatura moderna, a carta endereçada ao ex-namorado, carinhosamente chamado de “querido Bosie” no início da missiva. Escrita entre janeiro e março de 1897 e publicada em 1905, cinco anos após a morte de Wilde, com o título de “De Profundis” (Tordesilhas, 208 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite), a carta contém entre tantas preciosidades o que talvez seja um dos mais lúcidos comentários sobre Jesus Cristo e o papel do cristianismo primitivo na civilização ocidental (na edição de 1982 da L&PM começa na página 71 e termina na 85).

Oscar Wilde: escritor irlandês, que morreu em 1900, aos 46 anos | Foto: Reprodução

Mas o assunto aqui não será Wilde, nem a literatura, o “De Profundis”, os ingleses de sangue azul ou o retrógrado sistema judicial do Reino Unido — onde manter relações homossexuais era tipificado pelo código penal até quase o final do século 20. E onde até os dias atuais uma criança com apenas 10 anos de idade pode ser responsabilizada criminalmente (em 1995, “o comitê da ONU sobre os direitos da criança decidiu que isso era incompatível com as obrigações do Reino Unido em relação aos direitos da criança”, mesmo assim, de lá para cá, 7.057 crianças entre 10 e 14 anos já foram levadas a julgamento e, portanto, tratadas como adultas).

Nicolau Maquiavel e Florença

Tanto quanto “O Retrato de Dorian Gray” se juntou o nome de Wilde, “O Príncipe” se associou ao de Nicolau Maquiavel (1469-1527). E é como se tivessem se tornado uma só coisa ou entidade, e deles têm notícia tanto os que o leram quanto os que mal o situam no tempo. A verdade é que a obra e seu autor têm mesmo algo de atemporal. Para o bem e para o mal, servem aos malvados príncipes do presente da mesma forma que aos virtuosos da Florença do século 16. Ocorre que também o contemporâneo e conterrâneo de tantas outras figuras notáveis daquela notável cidade — que por então não tinha mais os 100 mil habitantes que alcançara por volta de 1342 (boa parte dela dizimada pela peste negra) — escreveu ainda “A Arte da Guerra”, “Discursos Sobre a Primeira Década de Tito Lívio” e o extraordinário “História de Florença” — se é que não o são todos eles. Enquanto aquele que lhe deu grande fama é o que poderíamos chamar de livreto, sem nenhum menosprezo, é claro, o último é um pesado volume que na edição brasileira (Martins Fontes) tem 611 páginas.

A intenção inicial de Maquiavel era, segundo as suas próprias palavras, “começar a narração pelo ano de 1434 da era cristã, quando a família dos Medici, graças aos méritos de Cosimo e de Giovanni, seu pai, ganhou mais autoridade que qualquer outra” na cidade. Mas logo depois de ler cuidadosamente os historiadores que o precederam — “Lionardo d’Arezzo e Messer Poggio (provavelmente Poggio Bracciolini; sua “História Florentina” saiu em 1478), dois excelentes historiadores” — se dá conta que haviam sido: “…muitíssimo diligentes na descrição das guerras travadas pelos florentinos contra os príncipes e os povos estrangeiros, mas que, no que se refere às discórdias civis e às inimizades internas, bem como aos seus efeitos, eles calaram de todo uma parte e descreveram a outra com tanta brevidade que nela os leitores não podem encontrar utilidade nem prazer algum”.

Por isso, muda de propósito e decide começar sua história pelo mais longínquo início da própria cidade. E, escreve, “como não é minha intenção ocupar o lugar alheio, descreverei com particularidades, até 1434, somente aquilo que ocorreu dentro da cidade, e sobre as coisas de fora só direi o que for necessário ao entendimento das de dentro”.

A “História de Florença”, como destaca a introdução do livro, “é a narrativa do declínio, da ruína e da corrupção da cidade”. Maquiavel não está interessado em exaltar os méritos da cidade que foi o berço do Renascimento e que no século que precedeu sua vinda ao mundo era maior que Paris, muito maior que Londres e infinitamente maior que Roma. Na sua história da cidade o filósofo “lamenta a perda do Estado republicano e o ocaso da liberdade”.

Nicolau Maquiavel: filósofo italiano | Foto: Reprodução

O que Maquiavel está descrevendo na sua crítica àqueles “dois excelentes historiadores” tem correspondência com a conhecida expressão de Sartre “o inferno são os outros” (de “Entre Quatro Paredes”). Os problemas estão sempre lá fora, para além das fronteiras (da nação, da cidade, da tribo, da família, do clube, do eu…). O problema (guerras, discórdias, inimizades, conflitos…) é sempre o outro. O que Maquiavel está dizendo é que não é assim e que, na realidade, mesmo a gloriosa Florença tinha e produzia mazelas de grande vulto. No auge do esplendor sinais de tempestade batiam à porta, enquanto imersos na celebridade conquistada mesmo seus mais meritosos cronistas preferiam encontrar apenas no estrangeiro as marcas do malfeito.

Por gloriosa Florença entenda-se o que, no mundo da época, era o que mais aperfeiçoado havia em termos de instituições políticas. Diz-se que o florim de ouro, cunhado pela primeira vez em 1253, “marcava o preço de todos os mercados do mundo” e as finanças, a indústria e o comércio florentino “eram a ponta de lança da economia europeia”. Os mais entusiasmados garantem que as taxas de escolarização da cidade no século 14 só serão alcançadas no resto da Itália e na Europa no limiar do século 20. É a cidade de Giotto e Masaccio, de Dante e Brunelleschi, que lá fincará o símbolo arquitetônico máximo da Renascença, do domo de Santa Maria del Fiori — além do nosso autor. Os melhores que não nasceram lá, para lá se dirigiam (Miguel Ângelo, por exemplo). Era, portanto, o centro difusor e eventual foco de resistência do que costumamos chamar civilização ocidental — uma espécie de Europa da contemporaneidade. Essa era a Florença que Maquiavel decide “em boa paz”, garante, mas como um arúspice, remexer as entranhas, sem condescendência ou medo “de ofender os descendentes”.

O que talvez intuísse o florentino é que entre tantas pragas que ameaçam a cidade (ou os países, os continentes, ou cada indivíduo isoladamente) há aquela que é deixar-se entorpecer pela fortuna do passado.

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