Euler de França Belém
Euler de França Belém

Volta às livrarias O Vento da Noite, livro de poemas de Emily Brontë, com tradução de Lúcio Cardoso

A obra conta com análise de Denise Bottmann e apresentação de Ésio Macedo Ribeiro

o Vento Da NoiteA Civilização Brasileira republica “O Vento da Noite” (151 páginas, edição bilíngue), livro de poesia da inglesa Emily Brontë (1818-1848), com tradução elogiada pela tradutora Denise Bottmann (autora das orelhas, que, para além da apologia, é uma crítica muito bem feita, ainda que resumida, às versões) e apresentada por Ésio Macedo Ribeiro.

“O que vemos ao abrir as páginas dos poemas é um verdadeiro deslumbre”, escreve Denise Bottmann. “E não se fale em transfusão, transcriação, recriação. Fale-se em diálogo, às vezes talvez áspero, fale-se em irmanamento, às vezes talvez conflituoso, fale-se num inesperado e fulgurante encontro entre remotos parentes, apartados no tempo e no espaço”, acrescenta a tradutora.

Ésio Macedo Ribeiro assinala que Lúcio Cardoso diz, “na apresentação” do livro, que “faz uma ‘tradução livre’ dos poemas. Mas o que realmente faz não é mera tradução, é ‘transcriação’”.
O livro contém 33 poemas, selecionados por Lúcio Cardoso. “O título geral da coletânea provém do poema que abre o livro, ‘The night-wind’”, afirma Ésio Macedo Ribeiro.
“A tradução de Lúcio Cardoso — segundo pesquisei, a primeira e única edição da poesia de Emily Brontë no Brasil — foi publicada, com capricho, em 1944, pela Livraria José Olympio Editora, na prestigiosa e história Coleção Rubáiyát”, informa o apresentador.

A Relógio D’Água lançou, em 2014, “Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë” (tradução de Ana Maria Chaves, 179 páginas), de Charlote Brontë, Emily Brontë e Anne Brontë.
A seguir, transcrevo o poema “The night-wind” com duas traduções: a brasileira, de 1944, e a portuguesa, de 2014.

O vento da noite

À meia noite de verão, mole como um fruto maduro,
A lua sem véus lançou a sua luz
Pela janela aberta do parlatório,
Através dos rosais onde o orvalho chovia.

Sentada e perseguindo o meu sonho de silêncio,
A doce mão do vento brincava em meus cabelos
E sua voz me contava as maravilhas do céu.
E a sua terra era loura e bela de sono.

Eu não tinha necessidade do seu hálito
Para me elevar a tais pensamentos,
Mas um outro suspiro em voz baixa me disse
Que os negros bosques são povoados pelas trevas.

A folha pesada, nas águas da minha canção,
Escorre e rumoreja como um sonho de seda;
E, ligeira, sua voz miriápode caminha,
Dir-se-ia levada por uma alma fagueira.

E eu lhe dizia: “Vai-te, doce encantador.
Tua amável canção me enaltece e me acaricia,
Mas não creio que a melodia desta voz
Possa jamais atingir o meu espírito.

Vai encontrar as flores, as tuas companheiras,
Os perfumes, a árvore tenra e os galhos débeis;
Deixa meu coração mortal com suas penas humanas,
Permite-lhe escorrer seguindo o próprio curso.”

Mas ele, o Vagabundo, não me queria ouvir,
E fazia seus beijos ainda mais ternos,
Mais ternos ainda os seus suspiros: “Oh, vem,
Saberei conquistar-te apesar de ti mesma!

Dize-me, não sou o teu amigo de infância?
Não te concedi sempre o meu amor?
E tu o inutilizavas com a noite solene,
Cujo morno silêncio desperta minha canção.

E quando o teu coração achar enfim repouso,
Enterrado na igreja sob a lousa profunda,
Então terei tempo para gemer à vontade,
E te deixarei todas as horas para ficar sozinha…”

(Tradução de Lúcio Cardoso)

Vento Nocturno

No estival e amena meia-noite,
Brilhava a lua inteira
Na janela aberta do salão
E nas gotas de orvalho da roseira.

Sentada em silêncio eu reflectia,
O vento brando ondeava-me o cabelo:
Dizia-me que o Céu era glorioso,
E que o Mundo adormecido era tão belo.

Não precisava do seu sopro
Para me dar ideias tais,
Mas ele sussurrava mesmo assim
“Que a noite cobriria os matagais!

“A densa fronde em meu murmúrio
É sonho rumorejante
E as suas mil vozes
De ânimo parecem transbordantes.”

E eu disse: “Vai, gentil cantor,
Tua voz galante é calma,
Mas não cuides que sua música
Tem força para chegar à minha alma.

“Brinca com a flor cheirosa,
O ramo da árvore jovem,
Deixa meus humanos sentimentos
Que seu próprio rumo seguem.”

Porém, não me atendeu o vagabundo;
E mais quente ainda se tornou seu beijo —
“Ora, ora”, suspirou mui docemente;
“Vou conquistar-te contra o teu desejo.

“Não somos nós amigos desde a infância?
Não em amo eu desde então?
Há tanto tempo como tua amas a noite,
Cujo silêncio desperta minha canção.

“E quando teu coração repousar
Sob a laje no adro da capelinha,
Terei então tempo para chorar,
E tu tempo para estar sozinha.”

(Tradução de Ana Maria Chaves)

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Adalberto De Queiroz

Bravo!