Frases de impacto chamam a atenção, chegam a convencer incautos, mas nem sempre são verdadeiras

Li “Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade — A Dura Vida do Jornalista Carlos Castello Branco (Record, 560 páginas), de Carlos Marchi. A biografia é mesmo muito boa, pois, ao contar a história do colunista político piauiense, formado em Direito em Belo Horizonte (MG), também relata a história do país.

Mas a história, comprada pela maioria dos resenhistas, de que, na ditadura, a vida política do país não passava pelo Congresso Nacional, e sim ocorria na sua coluna, é apenas uma boa piada de salão, nada mais do que isto. Castelinho de fato escrevia muito bem e revelava os bastidores do que ocorria na ditadura — sempre de maneira palatável para contornar a censura, mas também acatando sua maneira moderada de ver o mundo. Mas a vida política do Brasil passava mesmo era pelo Congresso Nacional, pelas assembleias legislativas e pelos governos, além do fato de que, mesmo sob pressão, a sociedade civil não era amorfa.

O Brasil é um país curioso. Como há profundo desprezo pela atividade política, embora não se possa prescindir dela, costuma-se valorizar a atividade da esquerda guerrilheira (nas décadas de 1960 e 1970) ou as ações de heróis jornalistas e políticos, alguns supostamente outsiders. Entretanto, na ditadura, quem comandou mesmo a oposição, dinamizando a vida política, foi o MDB velho de guerra. Devido às suas pressões, a ditadura, de algum modo, foi se moderando e se abrindo, até chegar à distensão do governo do presidente e general Ernesto Geisel e à Abertura do governo do presidente e general João Figueiredo. Vale acrescentar que a Arena (a de Petrônio Portella), embora governista e sob pressão dos militares, eventualmente contribuiu para conter os ranços mais autoritários do regime civil-militar.