Euler de França Belém
Euler de França Belém

Versátil põe no mercado brasileiro o belo filme Juramento de Vingança, de Sam Peckinpah

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“Juramento de Vingança” (“Major Dundee”, de 1965), que sai pela Versátil, é um belo faroeste de Sam Peckinpah, com atuações fortes de Charlton Heston e Richard Harris, com participação de James Coburn. A versão restaurada acrescenta “mais de 10 minutos de cenas inéditas”, além dos extras (que, sim, acrescentam).

O major Amos Dundee (Heston) lidera soldados da União e confederados, em 1864, numa caçada aos apaches que, depois de um massacre, haviam levado crianças brancas. É quase uma guerra particular, a de Dundee e de um inimigo quase cordial, dentro de outra maior, a Guerra Civil Americana. As tropas que combatem o apache Sierra Charriba têm dois comandos, o de Dundee e, sobretudo, o do capitão confederado Tyreen (Harris).

Costuma-se tratar Peckinpah, com razão, de “poeta da violência”, um lídimo precursor de Tarantino. Talvez seja apropriado acrescentar que se trata de um poeta da imagem. Além da violência, conta-se uma história, às vezes desconjuntada, porque a vida é assim, ambígua e complexa, com textos e belas imagens. Peckinpah trata seus heróis quase que como anti-heróis, tornando-os mais humanos do que alguns heróis do western, que, mesmo quando duros e implacáveis, carregam certa santidade. No Oeste de Peckinpah os homens são o que são, não são meramente idealistas, construtores de uma nação.

O diálogo entre Dundee e o reverendo Dalhstrom é um dos melhores do filme. O religioso diz: “Qualquer homem com uma causa justa deve viajar com a palavra de Deus”. O militar replica, seca e friamente: “Com todo o respeito, Deus não tem nada com isso. Eu pretendo derrotar os maus, não salvar os pagãos”. O reverendo integra-se ao batalhão brancaleônico de Dundee.

Dundee é sulista, mas luta ao lado dos ianques, contra os confederados, daí ser considerado “traidor” por Tyreen. Depois da caçada aos apaches, este jura matar aquele. No ótimo “Publique-se a Lenda: A História do Western” (Rocco, 220 páginas), A. C. Gomes de Mattos escreve que, ao perseguir os apaches, nortistas e sulistas trabalham juntos e, assim, ganham uma identidade: se tornaram “americanos”. A caçada aos índios, os primeiros americanos, consagra os novos americanos — incluindo a participação dos negros e, por intermédio da bela humanista Senta Berger (o major e o capitão a disputam), das mulheres.

Com ou sem filosofice, um belo filme. Os críticos profissionais certamente dirão: “Heston” atua como o canastrão de sempre. Quem sabe acrescentem que Harris não fica atrás. Não deixarão de ter razão. Ainda assim, os dois estão muito bem no filme, muito bem dirigidos. Nos extras, Senta Berger conta que Heston e Harris, antes das filmagens, ficavam se medindo, disputando até quem era mais alto (Heston). O depoimento de James Coburn (o batedor Sam Potts no filme) é divertido. Peckinpah, bom copo, aprontava antes e durante as filmagens.

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