Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Vendo a democracia ser golpeada, a imprensa tem dever de se posicionar

Não dá para fechar os olhos: desde que Bolsonaro tomou posse, o alerta golpista já passou de amarelo a laranja e de laranja a vermelho

Sem máscara e no auge da pandemia, Jair Bolsonaro discute com jornalistas que o abordavam em evento em Sorocaba (SP) | Foto: Edilson Dantas

Quando um presidente da República que nunca perdeu uma eleição em toda a carreira política insiste em falar em fraude e vulnerabilidade do sistema – sendo que na maior parte dela teve suas vitórias conquistadas por meio de urnas eletrônicas –, em meio a uma dianteira de seu arquirrival político nas pesquisas de intenção de voto, não pode haver dúvida: está detectada a gestação de um golpe. No caso, um autogolpe.

Não se pode dizer que tenha sido por falta de aviso: Jair Bolsonaro (PL) nunca negou seu amor por ditadores e autoritários em geral – não escapou nem o “comunista” venezuelano Hugo Chávez.  Pelo contrário, ele sempre dobrou a aposta: não apenas louvou o regime militar, como incensou o mestre dos torturadores do período, Brilhante Ustra, “o terror de Dilma Rousseff”, ao declarar seu voto pelo impeachment da presidente petista em 2016.

Mas bem antes disso, em 1999, ele já deveria ter sido punido por seu comportamento no mínimo de desordeiro – para ser bem eufemista –, ao sugerir o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à TV aberta na qual também declarou que se eleito presidente, fecharia o Congresso imediatamente e faria um serviço que seus louvados militares não fizeram: matar “uns 30 mil”. O desprezo pelo voto que sempre recebeu também aparece na mesma sequência da fala, concedida à retransmissora da Band no Rio de Janeiro.

“Através do voto você não vai mudar nada nesse País, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, quando um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazer um trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando pelo FHC. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem. Em tudo quanto é guerra morrem inocentes.”

Quem já conhecia o deputado e sua coleção de declarações grosseiras – pelas quais a extrema-direita tem sensações orgásticas e a quais a direita convencional insiste em chamar de “é o jeito dele” – sabia do perigo duplo que sua eleição traria: afinal, sua obsessão paranoica somada à falta de produtividade parlamentar eram apenas credenciais negativas.

É óbvio que não é a imprensa culpada por quem está estar no poder, mas ela tem sua parcela de responsabilidade na origem da ascensão do “mito”. Não fosse sua exposição “caça-pontos de Ibope” em programas de TV em rede nacional como CQC e Superpop, o raio de alcance midiático teria sido reduzido. Foi o melhor exemplo da eficácia do “falem mal, mas falem de mim”.

Desde que tomou posse, o alerta golpista já começou amarelo. Com a tragicomédia de 7 de setembro, passou para laranja. Nas últimas semanas, o alerta sinaliza para uma nova mudança de cor: o vermelho da iminência de um golpe.

Bolsonaro sabe que sua situação eleitoral é extremamente complicada. À exceção de sua cota de fanatizados, que veem no presidente um bastião contra o “comunismo” – tem de ser entre aspas porque é um conceito muito particular de extremistas sobre a ideologia –, não existe razão positiva para o voto. É que de onde menos se espera é mesmo de onde nada vem.

Se tem algo que Bolsonaro construiu foi a destruição. Material, por exemplo como no caso do desmatamento e das queimadas na Amazônia e no Pantanal; e imaterial, com o sucateamento da estrutura de setores da Educação, do Meio Ambiente e das Relações Exteriores. Isso em termos de medidas de governo, tomadas ou omitidas.

No cenário de seus arroubos pessoais, a coisa piora, porque foi e é um desejo pessoal de Bolsonaro atentar contra a ordem e as regras, sejam elas eleitorais ou sanitárias. Quantos mortos teriam sido evitados se sua postura não tivesse sido contrária ao isolamento social e em favor do tratamento precoce? E se tivesse tido a agilidade na compra de vacinas que bastaria ao SUS para uma campanha de imunização primorosa e a tempo? E que custo terá par a Nação sua fábrica de fake news sobre o sistema eletrônico de votação, até ontem orgulho dos brasileiros?

Quem ainda minimiza o risco que Bolsonaro é para o futuro do País em décadas somente pelo que já cometeu não entendeu nada ou joga no time dele. Isso vale para a imprensa, como um todo. O atual presidente nem faz mais questão de esconder que é, sim, uma ameaça. Até porque ele ameaça. E insinua que as Forças Armadas estão e estarão com ele de houver um resultado desagradável nas eleições. Ou até antes delas, se as pesquisas não lhe satisfazerem.

Não há pecado nenhum em ser parcial contra quem está contra o Estado democrático de Direito. E, novamente, pela enésima vez: não há de se fazer falsas analogias entre o que perigo que está importa e qualquer outro vencedor das eleições. Até porque Lula, como Bolsonaro, já governou. Basta comparar como cada um lidou/tem lidado com a democracia e as instituições.

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