Euler de França Belém
Euler de França Belém

Vendetta de Bolsonaro contra Mandetta tem a ver com 2022 ou com o governo e as vidas de 2020?

Bolsonaro não precisa do ministro da Saúde? Sabe que precisa. Mas quem precisa mesmo da sensatez de Mandetta somos nós, brasileiros — que queremos sobreviver

—  Olha, o Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo. Não pretendo demiti-lo no meio da guerra. Em algum momento, ele extrapolou. Respeitei todos os ministros, ele também. A gente espera que ele dê conta do recado. Tenho falado com ele. Ele está numa situação meio… Se ele se sair bem, sem problema. Nenhum ministro meu é indemissível — Presidente Jair Bolsonaro

Ronaldo Caiado Luiz Henrique Mandetta - Foto Divulgação Governo de Goiás

Ronaldo Caiado e Luiz Henrique Mandetta: dois médicos e políticos sérios e focados em salvar vidas | Foto: Divulgação/Governo de Goiás

Jair Bolsonaro entrou para o time dos inventores. O presidente acaba de inventar a demissão sem-demissão.

O chefe do governo deixou claro que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, “está” no governo. Mas não “é” mais (do) governo. Deixou o clube do Bolinha do número um do Palácio do Planalto.

No governo, além do vice-presidente, Hamilton Mourão — que, às vezes, parece mais estadista do que o presidente —, o ministro da Justiça, Sergio Moro, faz sombra para Bolsonaro. O ex-juiz da Lava Jato deixa a impressão, não porque queira, que, se deixar a equipe, o governo acaba. O que não é bem verdade, mas, de fato, o governo ficaria menos popular. A chama da anticorrupção perderia energia.

Paulo Guedes, um posto cada vez menos Ipiranga, não faz sombra. Porque não tem pretensão de disputar a Presidência da República em 2022. Mesmo assim, há pouco tempo, foi “enquadrado” pelo Prez. Pois estava “sabido” e “saidinho” demais. Na verdade, é um dos pontos fortes do governo, dadas sua competência e sua credibilidade nos mercados interno e externo. Não é um bolsonarete, embora às vezes pareça.

Bolsonaro pensa mais na disputa eleitoral de 2022 do que no — seu — governo de 2020. Por isso, se um ministro cresce, vira sombra. E perto do Prez não pode nascer e crescer grama. Ele corta de imediato.

Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro: o primeiro representa os brasileiros e o segundo é o símbolo de um governo errático | Foto: Reprodução/Internet

A crise do coronavírus pôs no centro do palco um homem que fala bem, é charmoso, inteligente e, sobretudo, pensa pela própria cachola. Se os especialistas dizem que a melhor saída para que as pessoas — mais pessoas — sobrevivam é se isolarem, Mandetta acompanha a ciência, não a não-ciência de Bolsonaro. No caso, os dois jogam em times rivais.

Pois, ao trocar a “inciência” de Bolsonaro pela ciência de epidemiologistas e infectologistas — a mesma que reduziu mortes na China e na Alemanha —, Mandetta se tornou vítima da vendetta do Prez.

Sergio Moro diz que não planeja disputar a Presidência da República em 2022 — e, mesmo se quisesse, não poderia confirmar agora — e há quem diga que pretende ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal, onde, certamente, fará melhor figura do que na política (que não é o terreno para quem acredita que se pode construir o homem e a sociedade perfeitos).

Entretanto, para Bolsonaro, a teoria da conspiração em pessoa, se Sergio Moro já excede — porque é um gigante maior do que o presidente —, imagine o surgimento de outro Sergio Moro, como o médico ortopedista Mandetta, que, sendo político, pode “exceder” muito mais. Vencido o coronavírus, porque é praticamente certo que será contido, especialmente por uma vacina, Mandetta sairá consagrado. Bolsonaro, se isto acontecer, sairá chamuscado. Para não sair tem de “grudar” em Mandetta e elogiá-lo de manhã, à tarde e à noite.

Bolsonaro é errático? Sim, é. Mas há siso na sua desgovernabilidade. No caso do isolamento, o Prez fez uma aposta, pensando agradar tanto empresários quanto trabalhadores. No fundo, quase todo mundo pensa como o chefão do Planalto, por temer perder empresas, uns, e empregos, outros. Mas todos concordam num ponto: a vida, que não pode ser substituída, é mais importante do que uma empresa e um emprego. De que adianta “ter” um emprego e, de repente, morrer?

Mas o errático Bolsonaro, se a jogada tivesse dado certo — não deu sobretudo porque o número de contaminados e de mortos está subindo e vai subir muito mais —, teria dado a volta por cima. O que ele percebeu, ao lado dos olavo-boys que o acompanham, como carrapatos ideológicos, é que quem está na crista da onda é Mandetta.

Sabe-se, entre os políticos, que Bolsonaro nada tem de bobo. Se fosse, teria demitido, às claras, Mandetta. Na verdade, ao inventar a demissão sem-demissão, o Prez disse: hoje você fica, porque senão meu governo acaba agora, mas, amanhã, você estará fora. O presidente joga para o futuro o que não pode fazer hoje.

A “demissão cinza” de Mandetta indica que o Bolsonaro não tem, no momento, o controle total do governo. Há governos dentro de seu governo. É como se, de algum modo, existissem quatro presidentes: Bolsonaro, o eleito pelo povo, Sergio Moro, o eleito do povo, Paulo “Monarca da Economia” Guedes, o eleito do mercado, e agora, Mandetta — o homem-médico que luta pra salvar vidas. Por outro lado, há os olavo-boys, sobretudo Carluxo e Eduardo — tão experientes em política quando meninos de 5 anos —, aconselhando o Prez a “brigar” com todo mundo e a insistir que “o Estado sou eu”.

Os inconsequentes falam em retirar Bolsonaro do poder — uns incentivam a renúncia, que não acontecerá, outros apostam no impeachment, que certamente não virá (o Prez não se cercou de militares, a maioria da melhor estirpe, por acaso). Deveriam entender, de maneira mais adequada, o que está acontecendo: Bolsonaro está deixando o poder, aos poucos, e por conta própria. A continuar como está, será um excelente cabo eleitoral do oposicionista mais aquinhoado, em 2022. Para piorar o quadro, o Prez está “ferrando” a direita. Muitos vão pensar, daqui pra frente, que conservadores e liberais são sinônimos de Bolsonaro — o que, a rigor, não procede. O presidente, como muitos políticos, apresenta-se como um político de direita. Mas qual direita? A populista e destrambelhada. Conservadores e liberais, os que têm formação adequada, não são assim. Muitos deles podem ter apoiado Bolsonaro em 2018 — para impedir que o PT voltasse ao poder —, mas não comungam com as ideias, se ideias são, e práticas atuais de Bolsonaro.

Retomando Mandetta, antes que Bolsonaro o despache para as calendas. Permanece ministro, o da sociedade, mas não ministro de Bolsonaro. A vida “clama” para que permaneça no governo. Bolsonaro acha que não precisa dele? Não. Sabe que precisa. Mas quem precisa mesmo de Mandetta, de sua sensatez, somos nós, brasileiros — que, sim, queremos sobreviver.

Irrealismo dos que brincam com ideologias

Bolsonaro deveria ouvir mais Mandetta e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também médico. Eles têm mais a dizer do que a meninada que faz “cozinhadinho” nas cercanias do Palácio do Planalto — o tal Gabinete do Ódio (Fernando Collor teve o seu e o “bateu-levou” acabou derrubando-o). A receita para governar bem é aceitar o realismo da vida e não as ideologias radicais e mal digeridas dos quatro cavaleiros do Apocalipse.

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