Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Veículos de imprensa não podem se tornar assessorias

Por mais que a causa pareça legítima – e, na maioria das vezes, não é –, é necessário que quem tem o poder de fala e escrita se mostre sóbrio

Quando um governo usufrui, na própria estrutura, de veículos de comunicação – como é o caso de Goiás, com a Agência Brasil Central (ABC) –, entende-se que haja por meio deles uma cobertura mais detalhada da própria agenda das secretarias e demais órgãos, além do dia a dia das autoridades, especialmente do mandatário, seja ele do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário. Ressalva seja feita: a imprensa, ainda que a serviço do poder público, é estrutura de Estado e não de governo.

Da mesma forma, é natural – e, de acordo com a linha editorial, até essencial – que os veículos privados, como os jornais impressos e sites noticiosos, bem como os particulares que detêm uma concessão pública (como as emissoras de rádio e TV não estatais), coloquem em pauta os eventos do poder público e assuntos que nele reverberam.

A questão que “pega” – e “pega” mal – ocorre quando o assunto é polêmico e, pelos princípios básicos de ética, tanto profissão jornalismo como da instituição imprensa, exige um “outro lado” da versão. Se essa voz dissonante não aparece no conteúdo, até mesmo quem está “de fora” percebe que a informação está “mastigadinha” demais para o mundo real. É quando o veículo se vê (ou, se não “se vê”, deveria desconfiar) funcionando não como mais divulgador de notícias, mas órgão de assessoramento de uma gestão, uma empresa ou uma campanha questionável.

Infelizmente, esse tipo de jornalismo oficialesco ocorre de forma comum em parte dos veículos e em editorias de todas as áreas, de acordo com seus interesses envolvidos. Pode acontecer num portal local especializado em esportes ou em um conglomerado de abrangência nacional, como a Rede Globo.

Isso se dá por vários motivos, mas, entre eles, o principal parece ser a dependência financeira da propaganda estatal. Não é o caso da própria Globo, a despeito do que espalha o bolsonarismo, quando dizem que a megaempresa de comunicação está em crise porque “a mamata (de verbas oficiais) acabou” no atual governo federal.

Primeiramente, é uma inverdade. Se tal “mamata” existe, ela continua, porque a Globo segue sendo o veículo de mídia que mais recebe receita de anúncios da gestão federal, ainda que, durante certo período, tenham sido – erradamente, diga-se, porque o critério, até legalmente falando, precisa ser a audiência – Record e SBT os mais contemplados.

Não é essa polêmica o ponto em debate, mas, sim, o fato de uma empresa jornalística trabalhar em um determinado tema de acordo com as próprias conveniências, negando ou abafando outras vozes e achando que os consumidores são imbecis que vão apenas absorver aquilo como ração única de informação. Esse tipo de conduta – determinada nos bastidores, de forma mais ou menos direta, da chefia para a equipe da redação –, além de manchar o “nome da firma”, se mostra cada vez mais contraproducente nos dias atuais, especialmente em democracias, onde são inúmeras as fontes de informação e as redes sociais esfarelam quem apresenta um argumento que vai de encontro ao “sentimento de verdade” de uma massa de conhecimento (e comportamento) fora de uma bolha.

Um bom exemplo de algo que talvez fosse melhor fazer de outra forma – e o veículo, por sua estrutura, teria total condições de assim proceder – é a cobertura do conflito entre Rússia e Ucrânia pela mesma Rede Globo. Poucas vezes nos últimos tempos a TV e seus braços adjuntos se puseram de forma tão clara de um lado em uma questão controversa.

Obviamente, não há de se defender a Rússia ou seu ditador, Vladimir Putin, um saudoso da União Soviética que há muito transformou o país em um Estado totalitário. A questão é que a Globo optou por um jornalismo em que suas reportagens e análises quase nem resvalam nas contradições naturais de uma guerra.

Não é exclusividade da emissora brasileira – nem no próprio Brasil –, mas, desde o começo, parece que a intenção é fazer com que seus espectadores adiram incondicionalmente à defesa da Ucrânia. Por mais que a causa pareça legítima – e, na maioria das vezes, não é –, é necessário que quem tem o poder de fala e escrita se mostre sóbrio

Claro que se compreende que, entre Rússia e Ucrânia, ou entre Putin e Volodymyr Zelensky, está límpido quem mais se aproxima dos valores democráticos e de mercado, tão caros ao Ocidente e à própria empresa. Mas a missão do jornalismo deveria ser levar o entendimento mais profundo possível sobre as alegações do invasor, entre elas a de que estaria empreitando uma “desnazificação”.

Ainda que seja uma hipérbole conveniente a Putin – embora o Batalhão Azov, aliado do governo ucraniano, indique que talvez não seja tão hipérbole assim –, não seria interessante mostrar se a Ucrânia é mesmo uma nação intolerante com estrangeiros e outras etnias? E, caso seja, o quão intensa é essa intolerância?

A impressão que se tem, no entanto, é que o jornalismo global – e aqui vale bem a dubiedade da expressão – comprou a versão da Otan e dos Estados Unidos, em particular. Zelensky é perigosamente tratado como um novo Winston Churchill e, enquanto o conflito não se resolve, ele ganha capital político como grande líder mundial, coisa que não é nem parece estar preparado para ser, já que há uma guerra em seu país e ele não parece interessado em solução.

Tomar de exemplo uma gigante como a Globo e um drama que alarma o mundo inteiro é uma forma de dizer que deixar de prezar pela clareza do objetivo do jornalismo pode afetar qualquer um em qualquer tema. Mas as assessorias travestidas de informações podem estar logo ali, na banca de jornal da esquina da sua rua, para os mais velhos, ou no aplicativo do celular, para os digitais.

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