Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Uma tentação diabólica é sussurrada dia após dia no ouvido das Forças Armadas

A instituição parece não reagir ao uso político imposto por um governo que faz questão de dar a entender que a tem sob seu controle

Jair Bolsonaro cumprimenta militares durante solenidade | Foto: Sérgio Lima / AFP

Que as instituições no Brasil não estão funcionando adequadamente isso foi explicitado desde as chamadas “jornadas de junho” de 2013. O preço da tarifa do ônibus na capital paulista – que era pauta da esquerda crítica à própria esquerda no poder, no caso de São Paulo, com o prefeito Fernando Haddad e, no brasileiro, com Dilma Rousseff, ambos do PT – gerou um efeito dominó que trouxe, em sequência: Operação Lava Jato, guinada da direita ao reacionarismo, não reconhecimento do resultado das eleições de 2014, impeachment, prisão de ex-presidente e, por fim, eleição de Jair Bolsonaro, um deputado de extrema-direita admirador de torturadores.

E, no meio de tudo havia um Exército. Ou melhor, as Forças Armadas como um todo. Que, desde o nascedouro, tutelaram e tutelam a República, algo do que têm orgulho, aliás, como se depura com a análise de cada Ordem do Dia dos 31 de Março dos últimos anos.

Não por acaso, o Ministério da Defesa ganhou tanta importância no governo Bolsonaro, sempre com um general em seu comando. A cada vez que o presidente explode com o que acha que foi um “enquadramento” do Poder Judiciário – hoje a única das instituições que não se submetem a ele –, esse auxiliar, que é também sua linha direta com os comandantes das Forças Armadas, ganha um desvio de função e faz as vezes de porta-voz do governo.

Foi assim na crise de 2020, quando do pedido de apreensão do celular presidencial que chegou às mãos do então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello e foi encaminhado de praxe à Procuradoria-Geral da República (PGR). Na ocasião, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ministro (e general) Augusto Heleno, publicou uma nota altamente intimidatória, a qual foi avalizada pelo então titular da pasta da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.

Em julho do ano passado, foi o próprio ocupante do cargo, o general Walter Braga Netto, que mandou, ele próprio, um recado ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (pP-AL), por meio de um interlocutor. Acompanhado dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, o ministro da Defesa informou que, sem voto impresso e auditável, não haveria eleições em 2022. No mês seguinte, no dia da votação da matéria pelos parlamentares, houve  uma “coincidência provocada” de um tanques de guerra e outras unidades da Marinha pela Praça dos Poderes. Bolsonaro viu o desfile tendo Braga Netto e os comandantes das Forças perfilados consigo.

Agora, a semana começa com a repercussão da atitude de outro ministro da Defesa – e também o mais recente ex-comandante do Exército –, general Paulo Sérgio Nogueira,  que assinou nota em que enquadra ninguém menos do que outro ministro do STF, Luís Roberto Barroso. É que o magistrado havia dito, em uma conferência para uma universidade alemã, que as Forças Armadas estavam sendo orientadas a desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral.

Obviamente, o destinatário da crítica de Barroso era Bolsonaro, que usa e abusa de sua proximidade com os militares para “esticar a corda” contra os demais Poderes, notadamente o Judiciário e especificamente o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em nenhum momento de sua fala Barroso imputou alguma ação dolosa aos militares; pelo contrário, disse que não havia visto, até então, nenhuma atitude questionável por parte deles – isso depois de muito elogiar as Forças Armadas, nos instantes imediatamente anteriores. Mesmo assim, foi tachado de “irresponsável” e autor de “ofensa grave” à instituição na nota assinada por Nogueira.

Desde o início da campanha de 2018, a ação dos grupos bolsonaristas tem sido diabólica contra seus adversários. Ressalte-se que, no sentido bíblico, o diabo representa a confusão e a divisão. No autoritário e errático governo Bolsonaro, as Forças Armadas – cujos integrantes, em sua maioria, não gostam da esquerda e, dentro da esquerda, têm especial antipatia ao favorito nas pesquisas eleitorais, o ex-presidente Lula (PT) – não têm reagido ao uso político que se faz delas: em vez disso, parecem ter caído no canto diabólico que prega, antifranciscanamente: “onde houver certeza, que eu instaure a dúvida; onde houver dúvida, que eu fomente a confusão”.

Reforçando: a menos de seis meses das eleições, as pesquisas marcam ainda uma grande vantagem para o candidato que os militares, em sua maior parte, menos gostariam de ver eleito. E, o TSE convidou as Forças Armadas para acompanharem o trabalho com as urnas.

Bolsonaro, claro, achou ótima a ideia alheia, pela qual pressionou tanto. Aposta que as Forças Armadas serão “suas”. Resta saber o quanto de senso de institucionalidade têm os militares para se resguardarem dentro de seu papel constitucional, a despeito de quem prefiram ou não ver na Presidência. Em sua fala aos universitários da Alemanha, o ministro Barroso disse ainda confiar. Confiemos, pois.

4 respostas para “Uma tentação diabólica é sussurrada dia após dia no ouvido das Forças Armadas”

  1. Avatar Gunther Heinz disse:

    E essa tal de esquerda … que só tem o Lula? Diabólico ou patético?

  2. Avatar Tânia Canêdo disse:

    Excelente artigo! Aliás, necessário! Precisamos entender urgente que estamos caindo dia após dia em armadilhas cujos resultados são desinteressantes para o povo. Me preocupa muito as eleições legislativas, até mais que a executiva desse país. A quantidade de “religiosos”, militares e/ou ideólogos do “bolsonarismo” que estão saindo candidatos a vagas nas câmeras legislativas me deixa muito apreensiva.

  3. Avatar Salvio Farias disse:

    Artigo excelente! Um alerta mais que necessário para a sociedade brasileira.

  4. Avatar Bruno disse:

    O chefe das forças armadas se chama Presidente da República, O autor do texto tenta confundir o leitor ao induzir que as FA pertencem a pessoa do presidente. As FA foram convidadas pelo TSE para contribuir com as eleições. Hoje, a instituição que mais comete ilegalidades se chama STF.

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