San Tiago Dantas e Sobral Pinto ganham novas biografias. Memórias de Pio Corrêa e Roberto Campos são do balacobaco. Há um estudo lacunar mas de qualidade sobre Milton Campos. Falta pesquisar Petrônio Portella

San Tiago Dantas: mais do que integralista, era um político articulado e um professor  de Direito gabaritado Milton Campos: o político mineiro era um liberal autêntico, que permaneceu democrata até na ditadura Bilac Pinto: o senador, mesmo filiado na UDN, foi decisivo para a Petrobrás se tornar uma empresa nacional
San Tiago Dantas: mais do que integralista, era um político articulado e um professor de Direito gabaritado l Milton Campos: o político mineiro era um liberal autêntico, que permaneceu democrata até na ditadura l Bilac Pinto: o senador, mesmo filiado na UDN, foi decisivo para a Petrobrás se tornar uma empresa nacional
Pio Corrêa, diplomata posicionado, escreveu um livro notável sobre a história do Brasil, sem tergiversações Sobral Pinto: o advogado conservador punha em primeiro lugar o Estado de Direito e defendeu até esquerdistas A Lanterna na Popa, memórias do economista Roberto Campos, é um livro rico em conteúdo e muito bem escrito
Pio Corrêa, diplomata posicionado, escreveu um livro notável sobre a história do Brasil, sem tergiversações l Sobral Pinto: o advogado conservador punha em primeiro lugar o Estado de Direito e defendeu até esquerdistas l A Lanterna na Popa, memórias do economista Roberto Campos, é um livro rico em conteúdo e muito bem escrito

Políticos e intelectuais brasileiros de centro e de direita nem sempre têm boa acolhida entre jornalistas e acadêmicos que escrevem biografias e livros de história. Há uma paixão por esquerdistas, como Luiz Carlos Prestes e Lula da Silva, e supostos esquerdistas, como João Goulart.

Petrônio Portella (1925-1980), notável senador piauiense, contribuiu, ao lado do presidente Ernesto Geisel e do ministro Golbery do Couto e Silva, para matar a ditadura civil-militar. Nos limites do regime autoritário, o arenista articulou, de maneira habilidosa, com setores da oposição (o Movimento Demo­crático Brasileiro, MDB) e do governo de Geisel para apressar a Aber­tura. Seu trabalho de artífice da distensão-Abertura raramente é explicitado com rigor.

Porque parte dos trabalhos acadêmicos trata aqueles que apoiavam a ditadura como apóstolos de sua manutenção — deixando de perceber nuances e o quase invisível trabalho dos bastidores. O historiador Luís Mir afirma que pretende biografar Petrônio Portella. Na juventude, o político que Geisel respeitava — e o presidente tinha apreço por poucos políticos — foi de esquerda.

Bilac Pinto, o senador da UDN e, depois, ministro do Supremo Tribunal Federal — admirado por José Guilherme Merquior, um dos mais categorizados intelectuais brasileiros —, não tem uma biografia à altura de seu talento e importân––cia políticos. Murilo Badaró escreveu uma bela obra inaugural, ainda que lacunar: “Bilac Pinto — O Homem Que Salvou a República” (Gryphus, 292 páginas. Uma resenha pode ser lida no link: http://bit.ly/Z0nVDB).

Homem admirável, mas esquecido, talvez por não ser de esquerda, Bilac Pinto foi decisivo para a criação da Petrobrás, para que se tornasse uma empresa em definitivo puramente nacional.

O mesmo Murilo Badaró escreveu mais três grandes biografias. Uma delas sobre Milton Campos, um dos mais importantes políticos do País, que merece uma obra mais detida, de maior fôlego. “Milton Campos — O Pensador Liberal” (Armazém de Ideias, 476 páginas) deveria ser lida pelos políticos atuais. O udenista mineiro, dada sua discrição, ainda não ganhou um espaço adequado na história política nacional. Era, por assim dizer, um democrata radical, mesmo quando serviu à ditadura civil-militar.

Outra obra de Murilo Badaró é “José Maria Alkmim — Uma Biografia” (Nova Fronteira, 401 páginas). O estudioso captura, às vezes com mestria, às vezes de maneira superficial — talvez devido à escassez bibliográfica —, a personalidade camaleônica de Alkmim, uma autêntica raposa política de Minas Gerais. Ele era aliado tanto de Juscelino Kubitschek quanto, mais tarde, da ditadura civil-militar. Tornou-se vice-presidente do general-presidente Castello Branco.

Murilo Badaró é autor da bem fundamentada biografia “Gustavo Capanema — A Revolução na Cultura” (Nova Fronteira, 548 páginas). Capanema foi um notável ministro da Educação no governo de Getúlio Vargas — em tempos difíceis, ditatoriais — e reuniu, no seu gabinete, grandes figuras da intelectualidade e da literatura, como Carlos Drum­mond de Andrade (que era de esquerda).

Autor de uma frase famosa, “façamos a re­volução antes que o povo a faça”, o mineiro An­tônio Carlos Ribeiro de Andrada foi uma fi­gura decisiva, ao lado de Getúlio Vargas, na ar­ticulação da Revolução de 1930. Duas doutoras, Lígia Maria Leite Pereira (pela Uni­ver­si­dade Paris X) e Maria Auxiliadora de Faria (pe­la Universidade de São Paulo), escreveram um livro excelente sobre o chefão da política mi­neira: “Presidente Antônio Carlos — Um An­drada da República: O Arquiteto da Revolução de 30” (Nova Fronteira, 597 páginas).

O melhor estudo sobre o político que “empurrou” Getúlio Vargas para liderar a Revolução de 1930 é “Oswaldo Aranha — Uma Biografia” (Objetiva, 501 páginas), do brasilianista Stanley Hilton. O pesquisador norte-americano mostra, com fartura de informações, como Getúlio negaceava, recuando e sendo forçado a avançar por Oswaldo Aranha. Até a última hora, negociou com o presidente da República, Washington Luís, enquanto articulava com os revolucionários.

Sobral Pinto, um advogado exemplar, eventualmente mitificado e quase santificado, ganhou duas biografias. “Sobral Pinto — A Consciência do Brasil: A Cruzada Contra o Regime Vargas/1930-1945” (Nova Fronteira, 430 páginas, tradução de Flávia Mendonça Araripe), do brasilianista John W. F. Dulles, é exaustiva, produto de uma pesquisa sólida, mas restrita a 15 anos. O professor de história Márcio Scalercio escreveu a biografia apontada como mais abrangente, “Heráclito Fontoura Sobral Pinto — Toda Liberdade É Íngreme” (336 páginas, Editora Insight Comunicação). O advogado é um dos poucos conservadores que têm o respeito da esquerda patropi, por ter defendido, entre outros, Luiz Carlos Prestes e, na década de 1960, o governador goiano Mauro Borges.

Francisco Clementino de San Tiago Dantas, político e professor de Direito, morreu com apenas 53 anos. Foi integralista, aliado de Plínio Salgado e Miguel Realle, e, mais tarde, ministro das Relações Exteriores e da Fazenda e conselheiro do presidente João Goulart. Pedro Dutra escreveu uma biografia alentada, com 768 páginas: “San Tiago Dantas — A Razão Vencida”, publicada pela Editora Singular.

San Tiago Dantas era um moderado que previa, com propriedade, que, ao radicalizar o governo, Jango estava se enterrando politicamente. Porém, numa época de efervescência, os moderados, embora eventualmente ouvidos, não têm suas ideias em geral respeitadas. Em tempos viscerais, como o da década de 1960, vozes radicais são as mais acatadas. Os moderados, apontados como reacionários, são escanteados e se tornam, por assim dizer, intrusos.

Um político, general quase por acaso, que merece uma biografia ampla é Golbery do Couto e Silva. Elio Gaspari deu o pontapé inicial com o esplêndido “A Ditadura Derrotada — O Sacerdote e o Feiticeiro” (Intrínseca, 560 páginas). Mas falta um livro que resgate to­da a história do militar, explicitando de ma­neira mais crítica e compreensiva sua trajetória, mesmo depois do livro de Gaspari, nebulosa.

Ernesto Geisel, talvez o mais enigmático presidente brasileiro — um político hábil, mas que não queria ser visto como político, e sim, certamente, com um chefe de governo avesso a questiúnculas politiqueiras —, não foi biografado (exceto, brevemente, por Gaspari, no livro citado no parágrafo anterior). Mas há um livro excelente com uma entrevista longa que concedeu a dois professores universitários, Celso Castro e Maria Celina Soares d’Araujo, da Fundação Getúlio Vargas: “Ernesto Geisel” (496 páginas, Editora FGV).

Lira Neto, o festejado biógrafo de Getúlio Vargas, é autor de uma nuançada e magnífica biografia de um presidente ainda a ser mais detidamente estudado: “Castello — A Marcha Para a Ditadura” (Contexto, 432 páginas). O estudioso vira Castello Branco de cabeça para baixo, registrando suas contradições e ao final temos um militar-político de grande estatura. O autor não deixa, porém, de apresentar as informações sobre os atos ditatoriais de seu governo.

Mesmo falando em redemocratização, Castello Branco fortalecia a ditadura e, com isso, Costa e Silva, o que ele não queria. Ao contrário de Geisel, que, quando tomava alguma medida autoritária, tinha como objetivo efetivamente destruir a ditadura.

Wagner William escreveu um estudo de qualidade sobre um militar que nunca foi de esquerda, mas ficou mais ou menos conhecido como tal, por sua ligação com Juscelino Kubitschek (que era centrista e anticomunista): “O Soldado Absoluto — Uma Biografia do Marechal Henrique Lott”. Castello Branco e Lott eram rivais no Exército — praticamente inimigos — e eram militares e, vá lá, políticos da maior correção moral. Eram inatacáveis. Castello Branco era, por assim dizer, muito mais hábil politicamente.

Em tempos recentes, a esquerda, inclusive nos jornais, tentou apresentar Pio Corrêa como besta fera da direita tropiniquim. Óbvio que não era de esquerda; antes, era mesmo de direita. Mas legou-nos um livro de memórias espetacular (em dois volumes), “O Mundo em Que Vivi” (Expressão e Cultura, 1091 páginas), um retrato preciso do século 20, no e fora do Brasil.

O economista Roberto Campos escreveu sobre o livro do diplomata: “É magistral a análise histórica, feita por Pio Corrêa, das várias fases evolutivas da política americana em relação aos vizinhos do Sul, desde a guerra hispano-americana, na virada do século, até a Segunda Guerra Mundial”. Elio Gaspati anotou: “São três as vitórias de Pio Corrêa. A primeira está na sinceridade às vezes cruel. São poucos os conservadores que detestavam o presidente John Kennedy, mas poucos, como ele, tiveram a coragem de chamá-lo de bestalhão. Outra é a elegância do estilo, o prazer do idioma. A terceira está no retrato da vida e da alma do servidor público. Nesse sentido, esta publicação é quase um livro didático para quem pensa em servir ao Estado”. Paulo Francis segue pela mesma seara: “‘O Mundo Em Que Vivi’ é recomendável a quem queira conhecer o Brasil real, de 1937 a 1969, quando Pio Corrêa serviu no Itamaraty, de secretário a embaixador. Foi chefe do Departamento Político, secretário-geral das Relações Exteriores e ministro interino. É tido — propagado pelas esquerdas — como troglodita reacionário. Leiam o livro e formem a própria opinião”. É um dos melhores livros que li sobre o Brasil, ao lado do excelente “A Lanterna na Popa” (Topbooks, 1460 páginas), de Roberto Campos. As memórias do economista são uma aula, finíssima, de história do Brasil. E muito bem escritas, como se Campos fosse um inglês nos trópicos.