Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ufa! Ainda bem que o Brasil jogou contra o Chile. Se fosse contra a Alemanha, teria perdido de 14 a 1

Com Neymar em campo, a seleção brasileira, apesar da decadência, pelo menos perde com elegância

Neymar jogador da seleção neymar-reproducao

A seleção brasileira, Eduardo Cunha do futebol, está nas cordas, quase nocauteada. Mas quem assistiu o não-jogo com o Chile — 2 a 0 para o time da terra do genialíssimo Vicente Huidobro — deve ter ficado contente, como Polyana, menina ou moça, e deve ter concluído: “Ufa! Ainda bem que não foi contra a Alemanha!” Os valentes da nação de Goethe e Thomas Mann certamente teriam ganhado de 14 a 1 da bisonha seleção dirigida por Zangado, quer dizer, Dunga.

Os gols do Chile foram feitos, com o colaboracionismo (epa!) de Sánchez e Vargas. Pô, Vargas, não! Getúlio deve ter revirado no túmulo pelo menos duas vezes ou, quem sabe, sete — lembrando-se dos filhos de Bismarck (pelos o gaúcho era meio apaixonado). Os gols saíram no segundo tempo — quando o Chile parecia o Brasil dos tempos de antanho e o Brasil parecia o Vila Nova dos tempos atuais.

Que a seleção brasileira jogou mal é consenso — até o “pangloss interessado” Galvão Bueno concorda e Casagrande, “maria-vai-com-alguns”, não discorda — e óbvio. Que há outros jogadores que, convocados, podem melhorá-la, parece impossível. Não há jogadores brasileiros da qualidade de Neymar no e fora do país. Parece que os atletas patropis tomaram a vacina da má qualidade. Dunga, embora entenda tanto de futebol quanto Paulo Coelho de literatura, convocou, de fato, os melhores. No caso, os melhores são apenas menos piores.

Oscar jogador da seleção

O quê fazer para que o Chile não ganhe de 4 a 0 na próxima partida? Simples ou quase: trabalhar a equipe, treiná-la de maneira adequada, entrosando-a, não para que se torne excelente, porque isto parece impossível, e sim para que se torne mediana. Com Neymar em campo (contra o Chile, não jogou), uma seleção regular conseguirá se classificar para a próxima Copa do Mundo. Não fará bonito nas Eliminatórias, mas se classificará — que, afinal, é o que importa.

Jogando mais ou menos dá para ganhar da Bolívia, do Peru e, quem sabe, até do Paraguai e da Colômbia. Por certo, com um pouco mais de “conjunto”, a seleção patropi tende a empatar com o Chile e com a Argentina. Talvez não ganhe da Argentina. Porém, se perder apenas de 2 a 0, será quase uma vitória. O Chile não fez mais gols por vergonha se tornar outra Alemanha.

Dunga dunga-Inter

A impressão que se tem da seleção do dunguismo — sinônimo, no máximo, de mediania — é que, em campo, jogam três times, e não um. A defesa não se entende com o meio-campo e o ataque. Os três jogam de maneira isolada e, às vezes, um atrapalhando o outro. Contra o Chile, a defesa brasileira, sem a proteção ativa do meio-campo, acabou jogando “para” o Chile. Willian e Oscar (não deve ser crucificado), jogadores habilidosos, estavam mesmo em campo? Galvão Bueno garante que estavam, mas poucos os viram, quer dizer, viram apenas quando davam passes errados, sem timing.

O técnico não pode ser culpado de tudo — até porque convocou aqueles que podem ser considerados os “melhores”. Mas Dunga precisa dizer aos seus comandados que não devem ser John Malkovich, quer dizer, que não devem ser novos Dungas. Deveria dizer mais ou menos assim: “Joguem pelo menos 25% do que joga Neymar”. Acrescentando: “E não fiquem rolando a bola na defesa, porque só ganha jogo quem vai para o ataque”.

Torço para o Santos e considero Ricardo Oliveira um centroavante muito bom, sobretudo considerando o futebol brasileiro de hoje. Mas, se terá 38 anos em 2018, o atacante certamente não será convocado para a próxima Copa do Mundo. Por isso seria mais inteligente convocar um jogador que poderá ser utilizado daqui a dois anos e alguns meses. Dunga o convocou porque o atleta é o artilheiro do Campeonato Brasileiro. Como entrou praticamente no fim do jogo, quando a seleção estava sem bússola na selva chilena, não pode ser responsabilizado por nada.

Consta que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, de 84 anos, estaria escrevendo “Teoria da Neymardependência — Um Estudo de Descaso”. Só Neymar, um santo, pode livrar a seleção de novos vexames. Bem, não de todos, mas pelo menos o futebol patropi, com o jogador do Barcelona em campo, fica bonito, muito mais bonito. Já é alguma coisa, pois perder com elegância  retira o ar de decadência do futebol tropiniquim. Com Neymar em campo, o torcedor pelo menos pode dizer: “Perdemos, mas aquele drible do Neymar é memorável”.

Por fim, com Dunga, é provável que o Brasil esteja começando a amar as derrotas, como, teoricamente, os torcedores do Vila Nova, que amam o time mais nas derrotas do que nas vitórias. Torcedor do Vila sente mais prazer quando sofre. Os torcedores da seleção brasileira estariam seguindo pela mesma seara. Espera-se que não.

Leia um poema de Vicente Huidobro

Agora, esqueça o futebol, com seu fanatismo insensato, e leia um poema do maior bardo chileno, Vicente Huidobro, em tradução impecável de Anderson Braga Horta, de Brasília.

 

Arte poética

Que o verso seja como uma chave

Que abra mil portas.

Uma folha cai; algo passa voando;

Quanto fitem os olhos criado seja,

E a alma de quem ouve fique tremendo.

 

Inventa mundos novos e cultiva a palavra;

O adjetivo, quando não dá vida, mata.

 

Estamos no ciclo dos nervos.

O músculo pende,

Como lembrança, nos museus;

Mas nem por isso temos menos força:

O vigor verdadeiro

Reside na cabeça.

 

Por que cantais a rosa, ó Poetas!

Fazei-a florescer no poema.

 

Somente para nós

Vivem as coisas sob o sol.

 

O Poeta é um pequeno deus.

 

Deixe um comentário