Empresário nada tem de capitalista utópico. Se o controle relativo da liberdade der lucro e o Twitter permanecer ativo, certamente não hesitará em termos de alguma censura

Fundador da Tesla, de automóveis elétricos, da SpaceX (viagens espaciais) e homem mais rico do mundo, o sul-africano Elon Reeve Musk, de 51 anos, é um fenômeno gerado pela economia mais poderosa da história — a dos Estados Unidos.

Recentemente, depois de alguma resistência, Elon Musk comprou o Twitter — uma rede social que se tornou global. Pagou 44 bilhões de dólares (mais de 200 bilhões de reais).

Por seu jeito midiático, Elon Musk passa a impressão de ser meio “atrapalhado”. Mas é impressão. Trata-se, na verdade, de um empresário atentíssimo às regras do “novo” capitalismo globalizado. Sabe, como poucos — na esteira de um Jeff Bezos, da Amazon e do jornal “Washington Post”, e de um Bill Gates, da Microsoft —, que as regras do capitalismo foram feitas para serem quebradas pelas empresas “transfronteiras”, que rejeitam (ou testam) o quanto podem as legislações dos Estados nacionais.

O capital de Elon Musk é muito maior do que o PIB de dezenas de países. Só quem conhece muito bem as entranhas da economia moderna — em que o capital financeiro é rei, irmanado à indústria tecnológica — pode lucrar, de maneira extraordinária, com o adventício de novos negócios.

Elon Musk: o Céu é o limite para o empresário | Foto: Reprodução

O objetivo de Elon Musk com a aquisição do Twitter não é ideológico, como alguns sugerem. Trata-se de um negócio que, nas suas e nas mãos de seus executivos, terá de dar mais lucro do que está dando atualmente.

Mas há algum caráter ideológico no sentido de que o Twitter, sob o controle de Elon Musk, é símbolo de poder. Um poder que se quer, frise-se, acima das leis dos países. É como se a empresa tivesse sede em Marte e respondesse às leis deste planeta — não das nações da Terra.

Mexendo com “papeis” — mercado financeiro é, em larga medida, mais papel do que ação real no mercado —, Elon Musk dá um “banho” em capitalistas veteranos, que devem estar impressionados ou mesmerizados com as artes do “menino” prodígio. Não à toa Jeff Bezos demonstrou irritação com o sucesso recente do empreendedor — que, ao mercado e aos seus pares, deu um recado: nem o Céu é o limite. Há indícios de que o empresário está no meio de uma longa escalada — e não no seu fim.

Em pouco tempo, se continuar tão agressivo, Elon Musk vai deixar, ainda mais, Jeff Bezos e Bill Gates para trás — comendo poeira.

Jeff Bezos e Bill Gates são capitalistas tão ativos quanto Elon Musk. O primeiro também não aprecia limites e, ao lado da Apple, tende a ser o principal competidor do dono do Twitter, e não apenas na área de viagens espaciais. A impressão que se tem é que são, indiretamente, “discípulos” do alemão Karl Marx e do russo Vladimir Lênin. A diferença é que, se tem uma ideologia, ela deriva mais da economia, de seus projetos de fazer mais dinheiro, e não da política em si. Mas, assim como os “inventores” da esquerda moderna, ambos querem redefinir o mundo em que vivem à sua semelhança. Não à toa fala-se mais de Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg do que de Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, de Vladimir Putin, presidente da Rússia, e de Xi Jinping, presidente da China. Ressalve-se que Biden e Putin estão no olho do furacão mais por causa da guerra russa na Ucrânia.

Mas quem realmente está definindo o mundo, via economia-tecnologia, é gente como Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk e as turmas da Apple, do Google, do Facebook-Instagram. É como se fossem presidentes informais do mundo. São “reis” galácticos, tendo superado o Império Romano e o Império Britânico.

Marx ressaltou que a economia, a estrutura, era determinante na sociedade, mas outros especialistas ressaltaram a autonomia da política, a superestrutura. Entretanto, hoje, ainda que a política guarde certa independência, a economia — via Apple, Google, Amazon, Facebook, Twitter, Instagram (é provável que o economista-filósofo ficasse impressionado com redes sociais se tornando empresas altamente lucrativas, “sem nada produzir” — como se fossem bancos modernos, espécies de “bancos espirituais”),  Tesla etc. — está cada vez mais dominante. Os governos dos países, a política, têm imensa dificuldade de “controlar”, minimamente que seja, as empresas galácticas.

Retomando a questão do Twitter. Elon Musk, diz-se, o quer mais livre, sem (ou com menos) censura. Por mais que queira, não é assim que vai ser, certamente. Porque, apesar da dificuldade inclusive de se citar judicialmente dirigentes do Twitter e do Telegram, os Estados nacionais pouco a pouco se estruturaram para combater a “excessiva” autonomia das redes sociais. Processos judiciais, retirada de circulação (a China, uma ditadura, já faz isto com sucesso), estão, de alguma maneira, contendo o espírito de James Bond das redes sociais e dos neocapitalistas.

Elon Musk, inteligente e brilhante, vai operar por um Twitter mais livre, é certo. E isto, a rigor, não é ruim, porque a liberdade de expressão é vital. Mas, como empresário que cresceu nos Estados Unidos, certamente se adaptará aos novos tempos, às novas regras. Conter excessos, como agressões à honra das pessoas e instituições, não fere a liberdade de expressão. Pelo contrário, a protege. Que não se espere, portanto, um Twitter liberticida. Daqui a pouco, depois da empolgação inicial, bolsonaristas e outros (não são apenas bolsonaristas que excedem nas redes sociais) começarão a reclamar do Twitter, quer dizer, de Elon Musk. Dirão que não houve “avanço”, e sim “recuo”.

Agora, é hora de dizer uma coisa que nem sempre agrada: em nome da proteção à honra e à decência, é preciso ter muito cuidado para não se promover a censura pura e simplesmente. No Facebook, se a pessoa posta uma foto de Hitler ou uma suástica, acompanhada de uma reportagem crítica, às vezes sofre questionamento e até bloqueio. Uma crítica dura à direita ou à esquerda, se denunciada por um usuário, pode levar ao banimento de usuários por algum tempo. Culpa-se o algoritmo pela desmesura. Na verdade, na tentativa de se conter excessos — que existem e devem ser controlados —, comete-se censura, às vezes, de maneira indiscriminada. Elon Musk quer um Twitter mais livre — crítico —, não acomodado e mais polêmico, porém não desrespeitoso. E, experiente que é, sabe que a lei, muitas vezes derrotada pelo poder do dinheiro, às vezes funciona.