A tendência é que a “Folha de S. Paulo” se torne a “cárie” do governo de Lula da Silva. Uma espécie de UDN do jornalismo patropi. Será bom ou ruim? O ideal é que o jornal de Luiz Frias mantenha o equilíbrio na avaliação da gestão do petista

Há frases muito boas, que se tornam quase incontestáveis. Uma delas: “‘Uma imagem vale mais do que mil palavras’. Agora diga isto sem palavras” (por sinal, na internet, a frase tem variações). O questionamento é de Millôr Fernandes. Outra frase do autor: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos & molhados”.

Na verdade, há imagens que valem por mil palavras, como aquela da menina queimada no Vietnã. Porém, com palavras, a fotografia ganhou mais força e, comovendo o mundo, talvez tenha colaborado para acabar com a guerra americana na Ásia. Mas há imagens que, sem palavras, pouco ou nada significam. A palavra é a “arte” que faz o cérebro se movimentar no sentido de um entendimento mais amplo das coisas, dos fatos.

Jair Bolsonaro e Lula da Silva: os políticos mexeram com o “humor” da imprensa | Foto: Reprodução

A segunda frase, muito boa, é verdadeira? Quase nada. Porque jornalismo, imprensa, não é necessariamente oposição. E, mesmo quando se diz, é, no mais das vezes, “armazém de secos & molhados”. O romantismo de alguns, talvez vários, repórteres não aceita, mas jornalismo é negócio, e dispendioso. Um jornal, para ser de qualidade, precisa de mão de obra qualificada, e isto custa caro. Alguém tem de pagar pela qualidade. E quem paga exige alguma coisa em troca. Então, imprensa às vezes é oposição, mas quase sempre não é.

Ao flertar com o presidente Lula da Silva — o flerte parece não ter obtido correspondência —, a Jovem Pan, casa bolsonarista radical por quatro anos, demitiu alguns de seus jornalistas de direita mais extremados (gente, por sinal, competente, como Augusto Nunes e Guilherme Fiúza; outros, fundamentalistas-obscurantistas). No caso, como os comentaristas não haviam promovido nenhuma revolução e tomado o poder, o dono, Antônio “Tutinha” de Carvalho, era quem deveria ter sido despedido. Porque quem mais lucrou com a adesão ao bolsonarismo foi a empresa, não necessariamente todos os profissionais (é provável que alguns tenham se beneficiado da adesão ao bolsonarismo).

Antônio “Tutinha” de Carvalho, dono da Jovem Pan, e Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

Por ter sido bolsonarista, de direita, a Jovem Pan merece ser “boicotada” pelo governo de Lula da Silva, do PT? Claro, não merece ser tratada com “carinho”, aquele que se devota a quem se gosta, mas boicotá-la não é correto. Porque os órgãos públicos são do Estado (permanente), não dos governantes (provisórios). E, afinal, não se pode ser de direita num país democrático? Mesmo concordando que o meio de comunicação excedeu, por exemplo no negacionismo da ciência, da vacina como meio para salvar vidas, não se deve admitir que não tenha acesso aos novos governantes. Não se deve repetir Bolsonaro, que não falava com jornalistas da TV Globo/GloboNews.

TV Globo, Lula da Silva e o sorriso do poder

Na programação da TV Globo e da GloboNews, durante os últimos quatro anos, era recorrente os repórteres e apresentadores concluírem seus textos com a fala: “O governo Bolsonaro, procurado, não apresentou sua versão dos fatos”.

Tratando a empresa da família Marinho como “Globo lixo”, o ex-presidente Jair Bolsonaro não falava com a Globo e a GloboNews nem permitia que seus ministros dessem entrevistas. O resultado é que repórteres, apresentadores e comentaristas passaram quase meia década sem falar, ao menos publicamente, com as figuras de proa do governo federal, que preferiam conversar com profissionais da Record TV e da CNN Brasil.

Flávio Dino: ministro está quase despachando na Globo | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A orientação de Bolsonaro deu uma esvaziada na Globo, que, ante o fato, marchou para a oposição, se tornando a cárie do governo do líder da direita. Os telejornais bateram sem dó nem piedade no presidente. Os jornalistas ganharam autorização para, metaforicamente, pisoteá-lo. É possível que grande parte do desgaste cristalizado do integrante do PL se deve ao conflito com a Globo e com jornais, como “Folha de S. Paulo” e “O Globo”.

Para atacar Bolsonaro, a Globo começou a promover Lula da Silva, do PT. Todo o passado foi esquecido, a Lava Jato passou a ser tema quase proibido, e o petista se tornou uma espécie de herói — aquela figura que, para o bem da Globo, iria retirar Bolsonaro do poder, como de fato aconteceu.

Afinal, a Globo agiu certo ou errado? Como Bolsonaro se colocou como seu “inimigo”, planejando destruí-la, inclusive não queria renovar sua concessão — só o fez porque não foi reeleito —, a rede dirigida por João Roberto Marinho se portou corretamente. Era uma questão de sobrevivência. A Globo, com Lula, ganhou; Bolsonaro, com a Jovem Pan e seus gabinetes do ódio, perdeu.

Com Lula da Silva eleito, a Globo e a GloboNews passaram a ter acesso privilegiado aos petistas que vão governar, como Flávio Dino, Wellington Dias, Fernando Haddad e Rui Costa, entre outros. Num mês, antes da posse do presidente e de sua equipe, ficou-se com a impressão de que os petistas, agora poderosos, despachavam, não em gabinetes, e sim nos estúdios da Globo. O governo federal voltou à Casa Grande da família Marinho.

Como se comportará a Globo daqui pra frente? Por enquanto, há mesmo uma lua de mel com o PT e é possível que se prolongue por quatro anos. Um dos objetivos da rede é, por certo, “aprovar” o governo de Lula da Silva de maneira que, em 2026, Bolsonaro não volte com chance de ser eleito. Porque, se for, recomeçará a guerra contra o Grupo Globo, por certo.

Então, a tendência — frise-se: tendência — é que, para impedir o retorno do “rei”, a Globo se torne, de alguma maneira, uma espécie de sorriso do governo Lula da Silva e cárie da história de Bolsonaro.

Folha de S. Paulo e o jornalismo de deslize

Janio de Freitas: ex-jornalista da “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

Não há nada perfeito, nem indivíduos nem governos. Mas o jornalismo trata, por vezes, políticos e gestores não pela média, sopesando virtudes e defeitos, e sim pelos extremos. E, sabe-se, pelos extremos, na análise radicalizada, ninguém presta — porque, como não há santidade, é “preciso” condenar, de antemão, todos. As avaliações tendem a ser excessivamente rigorosas, atendendo, digamos assim, ao moralismo da sociedade, notadamente das classes médias.

A missão da “Folha de S. Paulo” era, até 30 de outubro de 2022, arrancar Bolsonaro do poder, e por isso abriu espaço para reportagens e, sobretudo, análises acerbas — no geral, corretas — desancando o governo errático do ex-presidente.

A “Folha” pratica, desde que Otavio Frias Filho (faleceu em 2018), Otavinho, assumiu a direção de redação, o “jornalismo de deslize”. A busca, em si, não é pelos acertos (o melhor), e sim, quase sempre, pelas falhas (o ruim) dos governos. Por isso, não raro, o jornalismo da “Folha” parece “raivoso” e não ter “empatia” por nada e ninguém. A grande reportagem cedeu espaço, ao longo do tempo, aos articulistas “detonadores”. Mas nem tudo é ruim, claro. Há jornalismo de qualidade nas suas páginas.

Otavio Frias Filho e Luiz Frias: o primeiro está fazendo falta | Foto: Reprodução

Com a vitória de Lula da Silva, o alvo, que era Bolsonaro, passou a ser o petista-chefe. Recentemente, o jornal promoveu uma série de demissões de colunistas, como Janio de Freitas, Marilene Felinto e Gregório Duvivier.

No caso de Janio de Freitas, dada a repercussão negativa, ecoada inclusive no espaço do ombudsman do jornal, José Henrique Mariante, o jornal explicou que demitiu o jornalista de 90 anos por “contenção de despesas”. O “problema” é que ninguém acreditou na explicação de Luiz Frias, o dono, e Sérgio Dávila, o diretor de redação.

O jornalista e sociólogo Marcelo Coelho, um dos melhores amigos de Otavio Frias Filho e dos mais antigos colunistas da “Folha”, pediu demissão em solidariedade a Janio de Freitas. Numa nota, com a qual encerra uma crítica de cinema, ele sugere que a “Folha” vive um mal “momento” (e talvez não seja apenas um momento). “Num processo longo e implacável, a ‘Folha’ foi-se alienando do que era e do que significava para seus leitores. Envelheceu. Jânio, não. Tive orgulho de estar ao lado dele durante tantos anos”, disse, na sua despedida. O diagnóstico é preciso.

Marcelo Coelho: o intelectual fará falta à “Folha” | Foto: Reprodução

Porém, Marcelo Coelho não toca em outro ponto central: a adesão excessiva da “Folha” ao politicamente correto e às causas identitárias (quiçá para parecer moderna e “contemporânea” das “novas causas”) — e não se está dizendo que não é justo defendê-los; equivocado é não se ter abertura ao contraditório (as críticas ao antropólogo Antônio Risério foram excessivas, aqui e ali, distorcendo o que ele disse a respeito do racismo) — parece que, longe de aumentar seu prestígio, levou a uma perda de energia e de leitores mais interessados pelo debate franco e plural. A “Folha” aprecia sugerir que faz um jornalismo plural. Mas seria tanto assim, ao menos nos últimos anos?

Sublinhe-se que, se Janio de Freitas não se manifestou a respeito de sua demissão — procurei na internet, e nada encontrei —, a ótima escritora Marilene Felinto, sempre polêmica, não ficou silente. Pelo contrário, revelou que sua demissão tem a ver com razões ideológicas. Crítica do bolsonarismo e da direita, é claramente a favor de Lula da Silva.

Mas o que realmente aconteceu, se a “Folha” era anti-Bolsonaro, e havia se tornado pró-Lula da Silva, arregimentando a redação e colaboradores para promovê-lo?

Marilene Felinto: demitida da “Folha de S. Paulo” por razões ideológicas | Foto: Reprodução

A “Folha”, tudo indica, retomou a ética do “jornalismo de deslize”, e o alvo agora passou a ser Lula da Silva. Então, possivelmente, articulistas que são considerados pró-petista-chefe não combinam mais com a “nova” linha editorial. Se Marilene Felinto é de esquerda, e pega duro com seus adversários, Janio de Freitas, embora crítico de Bolsonaro e pró-Lula da Silva, pode ser tachado de “esquerdista” e “petista”? De maneira alguma. Trata-se de um jornalista crítico, mas que sempre destoou do “jornalismo de deslize” da “Folha”, e sem ser molestado, porque, na chefia da redação, estava Otavinho Frias, que, por apreciar seu jornalismo crítico e divergente, o protegia.

Então, a tendência é que a “Folha”, a partir de agora, se torne a “cárie” do governo de Lula da Silva. Uma espécie de UDN do jornalismo patropi. Será bom ou ruim? O ideal, se o ideal existe, é que o jornal de Luiz Frias mantenha o equilíbrio na avaliação da gestão do petista.

Oxalá a “Folha”, ainda um bom jornal, não se torne a Jovem Pan do governo Lula da Silva. Tomara que não arregimente forças unicamente para “bater” na gestão do petista. Ah, sim, talvez mantenha a tradição de convocar articulistas de esquerda para dar uma disfarçadinha…